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por Edgard Navarro

 

Fui cutucado por Jorge pra escrever um texto sobre Roman Stulbach. Não topei logo de cara, pois mal conheci Roman. Seu nome era citado pelos colegas da geração que nos precedeu como um sujeito gente boa e competente em seu métier. Fiquei sabendo de sua estreita relação com Siri quando há poucos anos atrás ele fez contato comigo, através de Chico Drummond, pra ver se conseguia algum material pra o documentário que estava realizando sobre nosso saudoso parceiro, falecido em 1997, poucos dias antes de Vito Diniz também ‘subir’. Forneci o material bruto que possuía e que continha uma fala extensa (talvez um dos últimos registros de Siri, de 1994) tomada por Vito numa reunião de cineastas realizada no ICBA pra um outro documentário, este de minha autoria, intitulado Talento Demais.

Tudo isso faz pensar que há uma certa razão naquela observação de que nos restará apenas fazermos o necrológio uns dos outros, antes que a linda ninfa nua nos leve também, o que por certo acontecerá um dia.

Somos todos portadores de sonhos frustrados, filmes por fazer, roteiros engavetados durante anos até que possa vir à luz (quando acontece) uma meia dúzia entre muitos outros que nunca saem do papel. Fico sabendo através do texto de Paulino que Roman tinha o caro sonho de filmar “Essa Terra”, livro de autoria de Antônio Torres, filho do sertão da Bahia. Como muitos de nós ele morreu sem conseguir realizá-lo. Não por acaso me vem à mente nosso companheiro Lula Wendhausen, falecido no ano passado, cheio de novas ideias pra seu filme tantas vezes postergado, até que foi surpreendido pela ninfa linda e nua antes que o roteiro de seu sonho começasse a ser rodado.

Falei com Tuna a respeito da ideia de fazer um apanhado de textos dos colegas para homenagear Roman. Yara me falou que o próprio Tuna recentemente teve um problema grave de saúde; o que ele me disse é que estava de tal forma consternado com essa sina coletiva de filmes interditados por décadas que não se dispunha a acrescentar nada sobre o que já havia escrito a respeito no facebook.

Quanto a Guido, pelo que eu soube encontra-se desmotivado com o fim que levou a sua Jornada… Mas nós sabemos: mesmo que o fim seja irreversível (e há indícios de que não seja), nosso Guido com certeza já fez a sua parte com louvor e mérito formando nas fileiras da resistência do cinema feito na Bahia.

E nós, filhos daquela Jornada a seu tempo tão oportuna… Nós que nos amávamos tanto e que um dia fomos a nova geração do cinema baiano, quantos anos tivemos que esperar para ver sonhos tão acalentados serem triturados no moinho de que nos fala o poeta? André Luiz Oliveira, José Umberto, eu mesmo, Fernando Belens, Pola Ribeiro, Jorge Alfredo, José Araripe, Joel de Almeida e outros que não me ocorrem no momento. Sim, porque mesmo depois que a gente consegue realizar um filme, infelizmente nunca pôde vê-lo brilhar na tela encantando plateias, cumprindo o seu fim último e suficiente de encontrar o público numeroso para o qual foi pensado e feito, fazendo girar a roda de tudo o que move esse mundo-moinho: produto se convertendo em dinheiro pra se reinvestir na atividade e reinventar a realidade tornando sua existência reconhecida economicamente. E não um delírio quixotesco incapaz de ser levado a serio como produto de mercado.

Penso, entretanto, que a melhor homenagem que podemos prestar ao amigo que partiu é continuar insistindo em nossa luta porque, embora seja inglória e nossa causa indefensável, ela tem sido nossa razão de existir nesse mundo de gigantes.

E de remate uma pergunta – um despropósito*: o que seria dos gigantes se não fossem os quixotes? E dos quixotes não fossem os sanchos?… E vice-versa**.

* Afinal não é feita também de despropósitos nossa matéria de artista?

** A ilustração tem sido há anos o pano de fundo da área de trabalho de meu micro.

Um Comentário...

  1. Carlos Aberto disse:

    E um e outro que cosegue filmar esses tais mal fadados roteiros engavetados, é de um vazio criativo e artístico que podemos sentenciar: o cinema baiano, MORREU!
    Viva o já era cinema baiano!

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