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Curador do Ecocine alerta para o uso sustentável dos recursos da Chapada

 

Durante a mostra do Cine Diamantina, a terça-feira está reservada para o debate sobre questões ecológicas com Wellington Bittencourt, responsável pelas sessões Ecocine. Em um breve bate-papo, o biólogo alerta para o uso sustentável dos recursos ecossistêmicos da Chapada Diamantina.

Doutor em Ensino, História e Filosofia das Ciência e Mestre em Ecologia e Biomonitoramento, ambos os títulos pela Universidade Federal da Bahia, Well, como é conhecido, possui conhecimentos em Ecologia; Educação Ambiental; Ensino, História e Filosofia das Ciências e da Biologia; e em Biologia Evolutiva com ênfase em Pluralismo de Processos e Evo-devo (Biologia Evolutiva do Desenvolvimento). Também é pesquisador vinculado ao Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia (LEHFIBio) da UFBA coordenado pelo Prof. D. Charbel El-hani.

Confira a entrevista concedida por Wellington Bittencourt ao Cine Diamantina.

Como o cinema pode ser uma ferramenta para debater as questões ecológicas?

Usar o cinema como uma forma de atuação sociopolítica é uma estratégia do Cine Diamantina. Procuramos selecionar os filmes que estivessem muito relacionados com o contexto sociopolítico da região, com os conflitos socioambientais que eles estão vivendo. A partir da contextualização que o filme traz, tentamos engendrar questões que estão relacionados com os problemas socioambientais vivenciados na Chapada Diamantina, para fomentar o desenvolvimento de uma tomada de consciência, com a utilização mais responsável dos recursos ecossistêmicos.

Quais questões que os filmes e os debates estão trabalhando no Ecocine?

Na mostra, tocamos na questão do fogo, que é muito grave na Chapada, com as queimadas e as devastações associadas a estes fenômenos, o papel do homem colaborando com a incidência destes incêndios, e de como prevenir estes acontecimentos.

Outra questão é a utilização do agrotóxico pelos grandes agricultores da região e como isso tem afetado tanto do ponto de vista de consumidores, desde veneno que está na mesa que, mesmo em uma perspectiva econômica, não é favorável, nem sustentável.

Tratamos a questão da agricultura familiar em face a este grande mercado de produtos em série sem nenhum sentido de preservação. Discutimos a agroecologia como alternativa, pois o cultivo e a ecologia não são coisas inconciliáveis.

Na perspectiva dessa herança pós-colonial que temos de cultivo, a agricultura é algo danoso para o ecossistema. Trazemos como solução a agroecologia que consegue conciliar o aproveitamento da terra sem exauri-la, mantendo-a fértil e rica.

Por fim, abordamos também o manejo sustentável da água, porque a água tem uma relação muito forte com a floresta e com a manutenção destes recursos ecossistêmicos. Temos vivido problema de seca, os rios têm diminuindo, as fontes estão secando. Pela zona regional que a Chapada se localiza, ela corre o risco de ser desertificada.

Estamos trabalhando para impedir este processo e para continuar mantendo o lugar rico de água, rico de biodiversidade e rico em cultura.

O ecossistema da Chapada Diamantina é bem peculiar, com a conjugação de vários biomas. Qual é a importância dessa região para a Bahia, principalmente para as pessoas das grandes cidades que parecem estar mais distante da natureza?

Consideramos a Amazônia como centro de importância para o equilíbrio climático mundial e as florestas têm de fato esta importância. Tem um equilíbrio de chuvas, de fornecimento de águas. E a Chapada Diamantina, da mesma forma que falamos da Amazônia para o mundo, tem esta importância para a Bahia.

Grande parte do fornecimento de água que temos vem da Chapada. Se os biomas da região se desestruturarem, vamos ter vários problemas de fornecimento de água e de alteração nos padrões de chuva. Tudo isto vai levar ao que já sabemos, como assoreamento dos rios, perda de qualidade da água, contaminação e outras coisas, se não nos posicionamos no sentido inverso, com a sensibilização de que é imprescindível um manejo sustentável da água.

Quais são os filmes presentes da mostra?

Temos como destaque a trilogia de filmes do Silvio Tendler [O Veneno Está na Mesa I e II e Agricultura Tamanho Família: uma alternativa ao agronegócio], porque ele preencheu um certo espaço na cinematografia ambiental do Brasil e está fazendo um trabalho muito interessante. Tendler é muito coerente do ponto de vista conceitual e teórico, com um discurso amarrado no sentido biológico e ecológico. Ao mesmo tempo, ele passa isso de uma maneira muito didática, sem ser cansativo ou complicado de entendimento. Então, em relação aos objetivos que a gente tem, ele serve muito bem à nossa proposta.

Temos outros filmes também, como De Onde Vem a Água, que trata da questão do ciclo hidrológico, mostrando que a água está sempre passando, vem de um lugar vai para outro lugar; a forma que ela chega na superfície: pode infiltrar, um processo que leva a hidratação do solo; ou correr superficialmente, que leva ao lixiviamento dos solos e a perda de nutrientes. Isto está relacionado a existência ou não de cobertura vegetal. Com a perda cobertura vegetal, a água tem escoado e não tem penetrado nos lençóis freáticos, o que leva à morte de nascentes, à lixiviamento e ao assoreamento dos rios.

Tem um filme na mostra foi incluído por último: Semeando Águas do Paraguaçu, que mostra ações de recuperação na Chapada Diamantina. Qual é a importância dessas ações para o ecossistema da região?

Este filme caiu como uma luva, e apareceu de última hora. O cinema traz este engajamento: as pessoas descobrem que a mostra, fazem contato contatam a produção e acaba acontecendo isto. O filme chegou no meio do processo, pois descobrimos que tinha um projeto na região que tem o mesmo título do filme que estimula de forma sistemático o plantio de novas mudas ao longo da mata ciliar, no sentido de tentar revitalizar os rios.

O filme é um documentário sobre este trabalho e mostra como de fato você pode intervir neste processo de degradação, de forma organizada e coletiva, por meio de um trabalho sistematizado que leva desde professores e especialistas, mas também membros da população e integra a comunidade para a recuperação dos rios. Este filme é fundamental para a mostra porque trabalha a questão do fogo, dos incêndios, da agricultura, enfim, todas as questões do Ecocine foram tocadas por este filme. Foi bom para o documentário que ganha mais visibilidade e bom para mostra que se enriquece.

fotos – Maíra do Amaral

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