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por Henrique Dantas

Ao começar a fazer cinema, num dos episódios do filme  Três Histórias da Bahia, era um canceriano perdido em desejos ainda embaçados, no tão procurado “Set de filmagens”.  Esse é o lugar onde descobri que ocorrem as transformações, onde os encantos se quebram e outros nascem das cinzas e das sombras comuns a esse lugar sagrado, misto de exército com poesia. Andava em busca de visceralidades que acreditava existir, apesar de apenas desconfiar dessa existência. Nunca tive, na minha infância e adolescência, uma preocupação diante  do meu contato com as artes. Fui criado no trânsito entre a roça e a cidade, onde acabei encontrando fontes de águas límpidas e histórias de vaqueiros adaptados às roças de cacau.

O primeiro contato na minha família com o cinema foi quando meu avô, que trabalhava no cinema do avô dele, substituía, com seu potente assobio, a banda sonora imprescindível para o cinema mudo, e com isso improvisava assobios com os olhos vidrados na tela e um medo muito grande de não agradar.

Eu, que só fui saber disso muito tempo depois, comecei o meu desejo de fazer audiovisual quando vi o filme baiano de meu amigo Edgard Navarro, “Superoutro”. A partir desse momento fui tomado pela vontade de me expressar através dessas possibilidades de junções entre imagens e sons, e as possibilidades de vivenciar isso nas ruas onde nasci e me criei, desfazendo o primeiro grande mito redutor do cinema, a distância e a impossibilidade de pensar filmes pelo costume dos cenários estrangeiros que nos sufocava.

Foi no “Festival Imagem e Som em 5 minutos” que eu e toda uma geração começamos a produzir nossos primeiros flertes com essa magia, movidos pelo desejo de ocupar com boas e más idéias o espaço sagrado da tela grande. Essas experiências, sustentadas por persistência e persistência, foi que me deram o que tenho de mais importante nesse cinema caboclo que penso fazer: a vontade de contar histórias e de me expressar através dessa complexa mistura de tempos e espaços próprios ao fazer cinematográfico.

Essa sede de contar histórias me fez, a partir de trabalhos como assistente de arte, participar de algumas engrenagens cinematográficas, o que me trouxe entendimentos melhores sobre que cinema é esse que eu queria fazer.  Nos filmes que assinei a arte, aprendi a treinar o olhar além do quadro, a ver que diante de tantas formas possíveis de atuação e mize en cenes, sempre existirá uma ideal e que a decisão disso seria quase sempre do diretor.

Nessa área das artes, comecei com o vídeo “Morrão” de Lula Oliveira, depois vieram “Lotação” de Paulo Alcântara, “Terra do Sol” também de Lula, “Anjo Daltônico” de Fábio Rocha, “Apreço” de Gabriel Trajano e os longas “Estranhos” de Paulo Alcântara, e “Trampolim do Forte” de João Mattos. Essas escolas foram muitas e cada uma delas me ensinou algo novo e divertido de se aprender.

Paralelo a isso fiquei “engolindo os sapos” necessários para pagar as contas em atividades paralelas e durante 11 anos, realizei um filme que costumo dizer que foi a minha a graduação, mestrado e doutorado em cinema documentário. Com “Filhos de João, Admirável Mundo Novo Baiano”, corri como um rio por entre as fases e formas distintas de se portar diante da concepção, filmagem, montagem, processos de legalização da obra, distribuição entre outras. “Quebrei a cara” por diversas vezes, ouvi centenas de comentários desestimulantes sobre a impossibilidade de acabar o trabalho, mas olhava para frente e sabia que existia uma força cafusa e confusa que me empurrava para o fazer cinema. Hoje encontro idéias junto a uma boa base que os estudos com artes visuais  na graduação e no mestrado, solidificaram. Não tenho mais o medo nem do jogador nem do goleiro diante do pênalti, porque percebi que perder gol faz parte e fazer também. Hoje acredito que o audiovisual baiano passa por uma revolução silenciosa, onde projetos estão amadurecendo e tomando forma, onde aumentamos significadamente a quantidade de histórias sendo contadas, rompendo fronteiras do estado e do pais.

O governo da Bahia atual repete os mesmos erros dos governos anteriores, privilegiando propagandas e o turismo de passeio, num estado com vocação para a arte (lógico que não estou falando de ACHÉ). Qual a qualidade de pessoas que estão vindo para a Bahia atrás das festas e lugares? Qual a qualidade das  que vieram pela literatura de Jorge Amado ou o cinema de Glauber? Quem queremos nos visitando e por qual motivo? Quanto tempo uma propaganda dura enquanto imagem e quanto tempo dura um filme. Vejo ainda a incapacidade dos governos de entenderem as possibilidades de mudança dessa imagem da Bahia como boate do Brasil, onde ninguém nasce e sim estreia, e onde nadamos afundados nos genocídios arquitetônicos, no mar de chicleteiros e no orgulho de não termos leitura, de termos virado um povo sem reflexão, onde o poder midiático insiste em ganhar dinheiro sem nenhuma preocupação com o desenvolvimento da sociedade. Hoje, pesquisando a vida e a obra de Olney São Paulo, me deparo com um cinema resistente, caboclo, cafuso, ético que aponta um caminho para as bases do que tento fazer.

Além disso  tenho procurado desenvolver uma relação com o cinema de maneira ritualística, onde antes de todo e qualquer momento do processo, passando pelo roteiro, a idéia do projeto, as filmagens, montagens e até mesmo finalização, procuro estabelecer uma conexão, que certamente não é virtual. Entro na porta do mundo do pensamento fílmico e me deixo levar pelos desejos naturais a esse processo. Vivo na seriedade de entender melhor esses rituais, mas enquanto isso, deixo que esse espaço hipnótico procriado por crenças banais, me leve aonde eu tenho ido e aonde ainda não fui, mas irei….

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