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por Raul Moreira

 

 

Com o primeiro dos cinco episódios de vinte e seis minutos programado para estrear hoje, às 19h, na TVE, O Senhor das Jornadas, do cineasta Jorge Alfredo, faz luz não apenas aos caminhos percorridos pelo professor e documentarista Guido Araújo, criador da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, mas, também, revela aspectos importantes de uma personalidade complexa que agitou a vida da província durante mais de meio século.

Aos mais desavisados, vale ressaltar que a série não se propõe a investigar os fatos e os seus desdobramentos ao pé da letra. Em outras palavras: com todos os riscos, o autor não se preocupou em capturar aquilo que se chama de realidade objetiva, mas, sim, costurou os episódios em torno de elementos que acabaram por formar uma espécie de mosaico de afetividades, numa clara homenagem ao octogenário Guido Araújo.

Na verdade, a série, no seu arcabouço, se projeta a partir de uma narrativa que confere um sentido à existência de Guido Araújo, o “comunista”, mas, principalmente, destaca o seu trabalho hercúleo de organizar um evento de cinema que completou trinta e nove edições e foi considerado um dos mais importantes e tradicionais do Brasil.

Vale ressaltar que a “Jornada” não inventou o cinema local. Quando aconteceu a sua primeira edição, em 1972, em pleno AI-5, a Bahia ainda saboreava, mesmo que levemente, a lembrança de que fora uma espécie de Meca do cinema brasileiro, surto que se deu no final dos anos 50 e início dos 60. Naquele período, brotaram o Ciclo Baiano de Cinema e o Cinema Novo, sem falar das muitas produções nacionais rodadas nestas terras, a exemplo de O Pagador de Promessas, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1961.

Autor de Samba Riachão, documentário que dividiu com a ficção Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, o prêmio de melhor filme do Festival de Brasília, em 2001, talvez o grande desafio de Jorge Alfredo em O Senhor das Jornadas foi achar um caminho que o ajudasse a escapar das armadilhas do cabotinismo, algo difícil quando se trata da Bahia.

Quem assistiu o primeiro episódio da série, exibida inteiramente em sessão concorrida num cinema do centro, semanas atrás, ficou com a impressão de que o autor iria além dos afagos a Guido Araújo, a exemplo de um depoimento do documentarista Silvio Tendler, que o descreveu como um “um cara complicado, mas meio genial”. No entanto, no restante dos capítulos, Jorge Alfredo apenas perpassa por aquelas questões que talvez merecessem ser abordadas de forma mais aprofundada.

Sim, vale ressaltar que, independentemente do prestígio angariado nacional e internacionalmente ao longo de décadas, o Guido Araújo que “arregaçava as mangas” era dono de uma personalidade emblemática. Centralizador, por conta de seu perfil “stalinista”, sem falar que não comungou com os novos tempos, motivo pelo qual, aliás, acabou por condenar o seu próprio evento, que sucumbiu ao advento dos governos “progressistas” da Bahia, as sombras do retratado foram deixadas de lado.

Há quem diga que a força de Guido Araújo, nos seus tempos áureos, foi justamente àquela porção maniqueísta que os comunistas históricos carregavam em excesso, algo que hoje, passados os anos e diluídas as questões ideológicas, é visto com certa nostalgia, com toda a sua carga romântica. A respeito da questão, por sinal, o saudoso professor e crítico cinematográfico André Setaro, na sua ironia cortante, chegou a afirmar que o criador da “Jornada” e seu colega na Ufba, o considerava “um agente do cinema americano”.

Sessão de lançamento da série no Cine Glauber Rocha, dia 25 de abril, para convidados

Aliás, a respeito das idiossincrasias de Guido Araújo, que batia de frente com certo desbunde daquela Salvador da metade da década de 70, representada por “afrescalhados” e “maconheiros” que se valiam do super-8 para fazer cinema, quando o aceitável era, no mínimo, a bitola de 16mm, até que se provasse o contrário, fica a sensação de que, por conta de certa diplomacia dos entrevistados, hoje senhores grisalhos mais ou menos respeitáveis, os pingos não foram postos nos “is” como se deveria.

Ordenado dentro de uma cronologia crescente, uma vez que revisita a infância, a juventude e os tempos de maturidade de Guido Araújo, até os dias da velhice, tudo captado pelas lentes de Hans Herold, além da imersão no universo do retratado, O Senhor das Jornadas funciona como uma espécie de radiografia da província, do seu modus operandi, enfim, mostra um lado do que ela foi e do que é.

Ao cabo dos cinco capítulos, que perfazem um total de 130 minutos, também fica a sensação de que a Bahia não foi suficientemente justa com Guido Araújo, talvez porque a “Jornada”, a sua “menina dos olhos” durante trinta e nove anos, não prosseguiu. Seja como for, olhando friamente para os supostos fatos, não seria heresia afirmar que o “comunista” deveria levantar as mãos para os céus e agradecer, porque, poucos, mesmo, são aqueles capazes de agregar tanto afeto e reconhecimento em vida como ele é capaz.

O resto é silêncio, como disse William Shakespeare.

 

publicado em A Tarde
foto da capa – Getúlio Vargas

Um Comentário...

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