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Aprendendo a surfar em uma grande e buena onda 

Por Edgard Navarro

10/07/2007

Aceitei como um desafio o convite pra fazer uma reflexão sobre o cinema baiano. Tentei ser o mais isento possível ao analisar as diversas derivadas, levando em conta que há uma complexidade de ingredientes que tornam esta culinária apimentada, (não estivéssemos na Bahia!) e muitas vezes explosiva. Parece que as suscetibilidades e melindres e idiossincrasias se acirram com o passar do tempo e as frustrações pessoais terminam provocando demandas irredutíveis, além de certo desconforto, inclusive no convívio.

O fato é que vivemos uma atmosfera de grande entusiasmo com a perspectiva de uma real retomada da produção cinematográfica na Bahia.

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Mush Emmons, Henrique Dantas, Jorge Alfredo e Edgard Navarro

Temos que torcer pra que nossos filmes vinguem e frutifiquem. Se uma parte deles, que seja, der certo, isto pode redundar num amadurecimento extremamente significativo das relações dos cineastas com o seu público, dos produtores com o mercado, reafirmando a natureza bipolar (arte-indústria) deste maravilhoso jovem de mais de cem anos. Quem sabe finalmente vamos ter na Bahia o pólo de produção cinematográfica com que sonharam Walter da Silveira e Glauber Rocha? E com que sonhamos nós, cidadãos de hoje, capazes de alterar os rumos da história (coisa que já começamos a fazer nas urnas!).

Chega de mistérios dolorosos.

Gozemos, porque é legítimo e proveitoso. Mais dispostos que todos estão os que ainda não tiveram oportunidade de exercitar-se, em face de um passado recente de cegueira e obscurantismo dos governantes.

Tivemos a prova cabal da garra e do potencial dessa nova geração desde a realização do 3 Histórias da Bahia: um exército de voluntários sem soldo, investindo o melhor de suas energias pra ver brilhar na tela essa entidade mitológica chamada Cinema Baiano.

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Mr. Abrakadabra!

Se o resultado não foi nenhuma maravilha, a experiência serviu como start e continuidade para uma nova safra de alguns curtas, vídeos e longas de sucesso, com destaque pra Mr. Abrakadabra, Samba Riachão, FHC e Eu Me Lembro. Os deuses salvem essa rapaziada que desponta, cheia de gás, forçando passagem, como deve ser, como compete à vida que faz jus a este nome, rompendo o muro com raízes e brotos e frutos! Até aqui, os cineastas têm conseguido produzir com um esforço quase heróico (caberia histérico). Mas queremos fazer cinema em condições decentes, e não aliciando trabalho semi-escravo! Se for preciso. apertaremos, que nem Glauber, todas as mãos: dos espartanos, dos proxenetas, dos imperadores, dos pavões triletrados, dos honoris-causa… Eles estão fazendo o seu papel. Façamos o nosso! Contanto que não deixemos de rodar a manivela da câmara, porque já provamos que somos batutas, capazes de realizar um cinema tesudo, fértil e vigoroso. A despeito do que possam dizer em contrário os coveiros de plantão, as gerações futuras irão nos agradecer por termos lutado e prosseguido. O audiovisual baiano, por todos os percalços que trilhou, oferece hoje um terreno grandemente propício à semeadura, ao investimento responsável, conseqüente. Somos credores de uma produção relativamente pequena, mas cuja qualidade tem nos levado a crer com otimismo no futuro próximo do audiovisual na Bahia. Mas cuidado: não devemos nos ufanar! Talvez porque tenha mais tempo de atividade e de espera, não sinto esta euforia toda, que considero improducente e prematura. Um certo otimismo é até benfazejo, mas o ufanismo pode nos obstruir a visão da realidade.

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Fim do Homem Cordial

A qualidade de nosso trabalho, que é crescente, quando colocada em face de outras cinematografias, é ainda primária, às vezes quase medíocre.

Temos que ter humildade pra reconhecer isso, pois só assim iremos crescer; se pensarmos que já fazemos o melhor (aliás, uma mania de baiano) cairemos presa de nosso próprio encanto, e a gente sabe que o pavão se perde por achar lindo demais aquele leque colorido que sabe armar com as penas de seu rabo.

É claro que há um número crescente de novos realizadores e coisas de valor têm sido produzidas aqui; tudo isso vejo com muita esperança. Estamos todos juntos escrevendo este novo capítulo da história do audiovisual na Bahia. Ou seja: há todo um trabalho sendo feito, tijolo por tijolo, uma construção que se quer sólida.

Acredito mesmo que está se formando uma grande e buena onda. E uma onda é coisa natural: água e vento; mas requer o tempo certo pra sua formação, seu apogeu e deslocamento. Com toda a boa intenção que se possa ter, a pressa pode produzir um efeito contrário e se a gente for mau surfista pode quebrar a cara na areia. Não acho que iremos a lugar algum com auto-elogios.

Boçalidade, empáfia, flatulência e inocuidade andam juntas. Pra crescermos, temos que ter a perspectiva exata de nosso valor. E pra isso, precisamos muito menos publicidade do que querem alguns.

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set de “Troca de Cabeça”

Temos que nos ater, com muito rigor, à qualidade do que está sendo produzido. Em nosso caso, são 4 ou 5 ou 6 curtas e uns poucos longas! É muito pouco ainda para se configurar uma cinematografia. Outra coisa: não se trata apenas de medir os resultados pelo número de filmes, quantidade.

“Estamos engajados numa produção que vai criar tantos empregos, e porque a atividade faz circular a grana e nunca fomos tão felizes” etc. Esses argumentos fundados no capital cheiram mal.

Posso parecer ingênuo, pedante, estúpido, o que quiserem, mas arte é um fenômeno humano ligado à excelência. Ser um bom negócio é apenas um dos muitos atributos do cinema, e que reputo secundário.

Cinema é redenção, meio de vida e de transporte – do Espírito. Na verdade, estamos lidando aqui com forças enormemente mais importantes.

Existe, na Bahia, o embrião de uma cinematografia pós-Glauber que poderá vir a ser reconhecida fora do Brasil. E quem sabe o governo Wagner entrará para a história como aquele que irá inserir a nova cinematografia baiana no cenário mundial?

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