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por Lula Oliveira

 

 

Era o ano de 1995. Já estava há dois anos na Faculdade de Comunicação da Ufba sem saber direito o que estava buscando na vida acadêmica. Pensava no futuro e não encontrava motivação, nem a luz necessária para seguir motivado naquela trajetória universitária. De repente, consegui naquele ano divisor de águas para minha vida me matricular numa disciplina da grade curricular da Facom, chamada Introdução ao Audiovisual, ministrada pelo professor e amigo José Mamede. Meu primeiro mestre, nessa arte e ofício que, a partir daquele momento, deu todo sentido a minha vida acadêmica, profissional e existencial.

Existencial, porque existo, também, para o cinema. Foi uma escolha, logo um sentido profundo para construir a minha passagem por esse mundo dedicando o Tempo para aprender e praticar a arte cinematográfica em todas as suas dimensões: Política, estética e narrativa.

Aprender sobre linguagem audiovisual mudou a minha forma de ver o mundo. De compreender o poder que as imagens tem sobre nossas mentes e nossas vidas. O poder simbólico. A imagem construindo sentido, metáforas e reflexões sobre o mundo e a sociedade. A partir de então, (e lá se vão 22 anos de estrada) o cinema passou a estar presente em minha vida, na minha existência.

Em 1995, produzi, ainda na faculdade, meu primeiro vídeo. Um documentário chamado MORRÃO! Baseado na prisão, por fumo de maconha, de um grupo de jovens que passaram por situações constrangedoras e ameaças por parte da policia que os havia prendido. Nada de novo nessa abordagem do fato em si. Mas, ao produzir o filme e exibi-lo no telão da praça Teresa Batista, Pelourinho, no antigo Bar Cultural foi catarse. O espaço lotado e aquela juventude gritando em prol de um sentimento de liberação. Precisou de um filme para aglutinar a energia geral, para gritar pela liberdade de escolha, incluindo o uso de substâncias consideradas drogas pelo sistema.

Depois de Morrão, outras produções acadêmicas ganharam destaque na cena audiovisual baiana. O Tocador de Ilusões (1996) foi um trabalho muito importante para minha vida. Primeiro porque conheci o artista e artesão, Lourimbau. Também me aproximei de Márcio Meirelles e do Vila Velha, nesse período. Foi durante a reforma do Teatro Vila Velha, nos escombros, durante o evento chamado Revilavolta que exibimos o filme pela primeira vez. O vídeo foi premiado, ganhou espaços nos jornais e trouxe à cena musical o velho artesão e tocador de berimbau, Lourimbau.

A cada trabalho, uma revelação de que não deveríamos subestimar o poder das imagens e os efeitos que elas causam nas pessoas e na sociedade. Percebi, rapidamente, a responsabilidade de se fazer cinema, refletir sob um ponto de vista, histórias e temas que tem diversas verdades.

Em 1997, também participei do que considero meu primeiro trabalho cinematográfico. Participar de uma produção película era o sonho daquela geração que começava a despontar para a atividade. Muitos de nós participamos das filmagens dos 3 episódios que, juntos, a partir de uma mesma orientação temática – o carnaval da Bahia – permitiu que fossem filmados juntos o primeiro longa metragem baiano depois de cerca de 20 anos sem filmar no estado. Era uma retomada e estávamos felizes em fazer parte desse processo histórico. Acabei participando de todas as três produções. Acompanhando bem de perto os processos criativos dos três diretores envolvidos (Sérgio Machado – Agora é Cinza/ José Araripe Jr – O Pai do Rock; Edyala Yglésias – O Diário do Convento). Éramos jovens e por trás desse gran circo do cinema baiano, estava um cara inesquecível para muitos, o produtor Moisés Augusto. Sem a dose de loucura desse homem não teríamos vivenciado aquela processo histórico.

O caminho estava sendo trilhado e aquele negócio de fazer filmes tinha tomado totalmente a minha cabeça. Já estava possuído e precisa avançar. Também em 1997, me formei em jornalismo e o medo – é… o sentimento é esse mesmo – tomou conta. Não imaginava como iria sobreviver na atividade aqui na Bahia. O cinema me ensinou a ter paciência com a vida. Sabia que seria difícil, mas não podemos desistir dos nossos sonhos. Tinha que seguir adiante. Acabou a produção de 3 Histórias da Bahia. Não sabia para onde seguir…Para sobreviver fui trabalhar como jornalista em assessoria de imprensa. A estratégia era sobreviver com jornalismo e viver com o cinema até o dia que pudesse/conseguisse sobreviver e viver do audiovisual.

Nesse tempo, em 2001, realizei Horizonte Vertical. Uma produção filmada em película 16mmm. Tinha adquirido 5 latas de negativos vencidos que a cineasta Mari Travassos tinha trazido do Canadá. Guardava as latas na geladeira lá de casa e se alguma coisa atrapalhasse a sua guarda na geladeira, caía fora. Podia ser o que fosse. Estava germinando um filme e aquilo era o sonho. Filmamos Horizonte Vertical nas dependências do Edifício Oceania na Barra. O elenco era formado por Jackson Costa e Nadja Turenko. E a equipe formado por uma juventude talentosa e ávida por experimentar e produzir. Aqui presto homenagem a Lázaro Faria, que me emprestou a câmera e a Moisés Augusto que mandou revelar os negativos e cedeu a ilha de edição da Casa do Rio Vermelho para a montagem do filme.

Nessa época, minha primeira filha já tinha nascido e a pressão do mundo dos adultos caiu pesado na minha cabeça. Não tinha muitas perspectivas em seguir em frente nessa carreira e sustentar minha família. Parecia que a assessoria de imprensa seria o meu destino. Eis que, recebo o convite de Edgard Navarro para ser assistente de direção do seu primeiro longa chamado Eu Me Lembro. Uma grande produção para os padrões locais e um mundaréu de gente envolvida. Dividi a assistência com o mais competente produtor que conheci. O amigo irmão Yuri Almeida (1974-2016) Evoé Yuri!. Fica aqui o registro desse nome e desse homem no cinema baiano. Ele também faz parte dessa história.

Recebido o convite, fui negociar com o meu chefe na época uma licença não remunerada para fazer o filme. A resposta foi um não. Pedi ao chefe do chefe e também recebi um não. Só me restou então pedir demissão. A partir daquele dia, nunca mais desenvolvi outra atividade que não estivesse ligada ao processo audiovisual. Sem falar que ganhei a pecha de louco e irresponsável. Como larga um emprego no estado para fazer cinema? Com uma filha pra criar…? Enfim, tive o apoio dos “loucos” dos meus pais que disseram; vá e vença! Eu fui. A vitória só virá no dia que eu morrer e puder olhar para trás sem arrependimento nenhum da decisão tomada.

A partir desse momento, me senti o próprio Super Outro, filme dirigido pelo mestre Edgard Navarro, que dizia, no alto do Elevador Lacerda: “ O meu dever é voar”. Parafraseando o personagem, eu disse, para mim mesmo: “O meu dever é fazer cinema!”. Pedi demissão, e fui trabalhar com o mestre Edgard Navarro, como assistente de direção, no seu primeiro longa metragem, o filme Eu Me Lembro…

O caminho estava traçado, a trilha demarcada num horizonte radical. Depois do filme, um marco na história do cinema baiano, o envolvimento com a política do cinema brasileiro foi um caminho natural. O caminho do diálogo. Acompanhei e participei da fundação da ABD/ABCV Bahia (Associação Brasileira de Documentaristas/Associação Baiana de Cinema e Vídeo). Sob a gestão do cineasta Pola Ribeiro, e como diretor de comunicação da recente e aguerrida entidade, fui incumbido de representar a Bahia no histórico IV Congresso Brasileiro de Cinema, que aconteceu no Rio de Janeiro. Nesse encontro histórico, pude perceber a grandeza e complexidade do cinema brasileiro e também conviver com cineastas, produtores e militantes do cinema brasileiro. Depois dessa experiência, entendi que estava diante de um setor extremamente profissional e militante. Uma força poderosa na política brasileira. Fui também presidente da ABCV/ABD Bahia e na minha gestão, o que julgo como ação mais importante, foi poder contribuir com o processo de restauração do Leão De Sete Cabeças, de Glauber Rocha, restaurado pelo Governo do Estado da Bahia, na gestão do então secretário da Cultura, Márcio Meirelles e coordenada por Paloma Rocha, filha de Glauber e pelo Tempo Glauber; instituição criada para preservar a memória desse grande cineasta e intelectual brasileiro.

Cidade das Mulheres, de Lázaro Farias foi um filme muito importante em que tive também a honra de trabalhar. Um filme delicado e sensível que buscava refletir sobre o matriarcado e a condição da mulher no Candomblé. Dirigido por um homem – e um homem muito especial – Lázaro foi o primeiro cineasta que me fez entender a importância da força coletiva e de grupo para a realização da arte cinematográfica.

No Jardim das Folhas Sagradas, do cineasta Pola Ribeiro, também atuei como assistente de direção. De novo, o universo temático do candomblé, agora numa ficção ousada e arriscada. Pola me deu a dimensão da comunicação nos processos de realização. Ou melhor, fortaleceu e fundamentou aquilo que eu sempre acreditei: Na comunicação. Deixo aqui registrado também a importância desse homem na minha vida profissional, confiando na minha pessoa a incumbência de acompanhá-lo numa missão política e da gestão pública – que foi acompanhá-lo na gestão da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. Dilma presidente, Juca Ferreira ministro da Cultura, Pola Ribeiro Secretário do Audiovisual e eu, na coordenação de articulação, formulação e difusão das políticas públicas da SAv/MInC.

Na Terra do Sol (2005), foi meu primeiro curta metragem como diretor, financiado com dinheiro público (MinC/SAv). Senti uma grande responsabilidade pairando sobre a minha cabeça. De novo, precisávamos reunir uma equipe capaz de enfrentar o desafio de filmar em Canudos, no sertão da Bahia. O escritor Denisson Padilha Filho escreveu o roteiro, dando vida e alma aos personagens da história. O filme retrata os últimos momentos de vida dos sobreviventes do massacre de Canudos de Antônio Conselheiro. Um filme inspirado na obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. Uma experiência impar foi filmar no sertão. O filme foi premiado como melhor curta metragem na Jornada Internacional de Cinema da Bahia. Saudoso evento cinematográfico que aglutinava gerações em Salvador. Salve mestre Guido Araújo!

A DocDoma Filmes me fez ser empresário, pensar como empresário dentro desse mercado audiovisual. Junto a Kico Povoas, João Rodrigo Mattos, Adler Paz, Bau Carvalho, Lia Mattos e Alexandre Basso, fundamos um coletivo empresarial e realizamos vários projetos. Aliás, continuamos realizando. A DocDoma Filmes fez 10 anos de mercado (2016), realizando filmes, séries e conteúdos radicalmente comprometida com a qualidade técnica e estética dos projetos realizados. A DocDoma abriu caminho para uma nova realidade do mercado audiovisual baiano. Foi a pioneira enquanto coletivo empresarial e focada no conteúdo artístico. Muitos coletivos e empresas surgiram a partir desse período. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história e ter como sócios e amigos esses parceiros talentosos e comprometidos com o audiovisual brasileiro.

Ao longo desses 20 e poucos anos na atividade, acredito radicalmente que audiovisual é um trabalho coletivo em todas as suas dimensões de realização. Sem essa força coletiva é impossível praticar e realizar. É se jogar num abismo sem fundo e sem volta…Não haverá realização sem a força do coletivo. Acredito também que fazer cinema é como plantar uma árvore frondosa. Demora, mas cresce e fica forte. Exuberante, os filmes, assim como as árvores frondosas, podem perpassar gerações com a sua energia transformadora e contemplativa.

 

10 Comentários...

  1. Paloma disse:

    Era o ano de 2002 e eu não sabia direito o que ia fazer com aquela faculdade de jornalismo. Até conhecer um cara que ja amava cinema, mas tava metido com educação de jovens. Ele me levou pra trabalhar com ele e só não digo que mudou minha vida porque, na verdade, ela estava começando ali. Obrigada por me enxergar e, principalmente, me fazer acreditar. ❤

  2. Tiago Cavalcanti disse:

    Parabéns por essa jornada ate aqui. Muito mais por vir!

  3. Lis Lorena disse:

    Grande amigo e querido Lula! Linda trajetória de vida profissional. Sucesso sempre pra vc! Bjs

  4. kiliana disse:

    o bom de contar histórias é que a gente refresca a memória, e quando essa história é a nossa fica difícil não sentir orgulho das decisões tomadas com fé, tudo que precisamos para ter coragem. que venham muitas e muitas outras linhas e agradecimentos ao longo do caminho. serenidade, prontidão e lucidez. avante, Lula! parabéns!

  5. Bel Geisel disse:

    Sensacional Lula!!

  6. Osorio disse:

    Felicidades Lula .Dave ser dificil era trajetoria. Ma’s aquelesque procura realizes seus somhos busca a felicidade . Va em frente

  7. Guilherme Maurutto disse:

    Lula, meu irmão, você é um guerreiro e exemplo de profissional. Parabéns pela belíssima história. Beijos

  8. Bernard Attal disse:

    Lindo texto, Lula.

  9. SIDINY DANIEL DINIZ disse:

    Nossa…que história maravilhosa…o país precisa de pessoas como você grande amigo irmão Lula…do talento a genialidade…
    Conte sempre comigo.

    Abs

    Sidiny

  10. Iracilda Figueiredo disse:

    É a história mais linda de ser vivida! Ainda bem que tenho a sorte de fazer parte dela!

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