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por Raul Moreira

 

Ainda que muitos definam o tempo como uma ilusão, quando o presente se faz complicado e o futuro duvidoso, o passado torna-se refúgio obrigatório. E, no caso do cinema baiano, na sua caminhada em busca de expressão, até para justificar o que se denominou de “segundo ciclo”, cujo início se deu na virada do milênio, com 3 Histórias da Bahia (2001), fundamental se faz entender o que houve – ou não houve – lá atrás, para, a partir daí, buscar as peças que faltam para fechar o quebra-cabeça.

Antes do retorno ao passado, matéria complexa que o filósofo alemão Walter Benjamin sentia-se atraído, apesar de sonhar com o futuro, é preciso entender que o único longa baiano do “segundo ciclo” que se fez contemporâneo, mesmo, foi Jonas e o Circo Sem Lona (2016), de Paula Gomes, notadamente um documentário.

Os demais, apesar dos prêmios conquistados em alguns festivais, ficaram na intenção, o que não é pouco diante das limitações e das dificuldades de se fazer cinema nestas terras.

Mais: a sentença no que se refere à incapacidade do cinema baiano do “segundo ciclo” de não dialogar com a contemporaneidade, não implica em uma condenação definitiva. Isso porque, o revisionismo é um fator que muitas vezes devolve à obra o seu valor relativo a partir de uma reflexão mais apurada do seu tempo histórico, quando tudo se torna mais compreensível e, muitas vezes, o objeto de apreciação passa a ser visto com outros olhos.

Sim, porque, independentemente do “heroísmo” do Ciclo Baiano de Cinema, que começa em 1958, com Redenção, de Roberto Pires, por sinal o primeiro longa realizado pelas bandas de cá, e se encerra em 1962, ainda que alguns digam que ele findou, mesmo, em 1975, com O Pistoleiro, de Oscar Santana, hoje, quase 60 anos depois do seu início, é possível afirmar que certos vícios e equívocos se repetem no fazer médio da sétima arte local.

Vale salientar que o Cinema Novo, que nasce ali, praticamente junto com o Ciclo Baiano de Cinema, não faz parte da categoria que se chama de local, pois ele deslocou-se e foi além-mar.

E, se assim aconteceu, foi porque o seu artífice, Glauber Rocha, era capaz, realmente, de cantar a sua terra com um olhar verdadeiramente universal, no sentido das urgências, sem falar do diferencial da linguagem, como ficou explícito, de cara, nos seus dois primeiros longas, Barravento (1961) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).

Escolinha

Certo que diante do vulcão Glauber Rocha, os sujeitos bons, no sentido da formação, da envergadura intelectual, tornavam-se médios, enquanto os médios se faziam medíocres. Sobre isso, aliás, vale lembrar o valor do saudoso Roberto Pires como artesão e alquimista das imagens, como autor dos relevantes A Grande Feira (1961) e Tocaia no Asfalto (1962), e como inventor do “cinema baiano”, segundo Glauber.

Ainda a respeito da questão, do jeito de fazer cinema na Bahia nos anos sessenta, fica a percepção do quanto à “escolinha” do crítico e ensaísta Walter da Silveira foi importante para elevar os nossos do estado infantil à idade adulta, ainda que alguns não tenham sido capazes de assimilar as lições.

Outros, no entanto, preferiram não frequentá-la, como foi o caso de Roberto Pires e de seu companheiro, o hoje octogenário Oscar Santana, outra lenda do Ciclo Baiano de Cinema e autor dos longas O Caipora (1964) e O Pistoleiro, que também carrega no currículo a produção de centenas de curtas e dezenas de documentários, sem falar dos cinejornais com conteúdo local.

Aliás, a respeito de Oscar Santana, que evitava O Encouraçado Potemkin (1925) para não copiar os planos de Serguei Eisenstein, não se sabe até que ponto a convivência com Glauber Rocha o influenciou no sentido do seu discurso “psicossocial”, uma vez que ainda hoje ele se diz um cineasta que preza o “conteúdo” em detrimento da “forma”.

Por falar em conteúdo, é dele a frase surreal que justifica em duas linhas as diretrizes de O Pistoleiro, filme que cinéfilos e estudantes de cinema deveriam assistir para compreender melhor o que foi o Ciclo Baiano de Cinema nas suas virtudes, misérias, contradições e limites: “A inteligência circunstanciada pela ignorância talvez seja a maior forma de degradação do caráter humano”.

De volta ao presente, comparar gerações é um exercício complicado, por razões óbvias, mas, quando se olha para os dois ciclos de cinema que se deram na Bahia, percebe-se que algo os une: a incapacidade que cada qual em se libertar de um sentimento provinciano que num primeiro momento pode ser considerado força identitária, mas que, no final, é uma representação próxima ao simulacro, diferentemente dos que fizeram os pernambucanos, que conseguiram o equilíbrio justo e alcançaram a universalidade.

E, diante de tempos bicudos e nos quais as discussões de gênero dão o tom, as cineastas, mais do que nunca empoderadas, se fazem realidade e elevam a esperança de que a sétima arte baiana possa ser vista não como uma possibilidade, mas como algo concreto e que vá além dos umbigos protuberantes.

publicado em A Tarde

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