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Animador Chico Liberato fala da relação do seu trabalho com o Brasil

 

 

por Gabriel Amora

 

O artista plástico baiano Chico Liberato, um dos principais nomes da animação nacional, será homenageado por sua contribuição ao cinema animado hoje, às 19 horas. Além dele, o encerramento do I Anima Ceará – Festival Nordestino de Cinema de Animação, Games e Web homenageia José Rodrigues Neto, arquiteto cearense.

O baiano de 82 anos é conhecido por ser um dos pioneiros da animação brasileira. Em 1985, lançou Boi Aruá, o primeiro longa de animação das regiões Centro Oeste, Norte e Nordeste. Seu último filme, Ritos de Passagem (2012) marca o encerramento do I Anima Ceará, que teve início na última quarta-feira, 23.

Em entrevista exclusiva ao O POVO por telefone, o cineasta conta como é ser animador no Brasil, seu otimismo diante do cenário de animação e um projeto futuro, que já está em pré-produção.

O POVO: Você ficou conhecido como o primeiro cineasta a lançar um filme na região CONNE. O que mudou desde o lançamento de Boi Aruá em 1985?

Chico Liberato: Nesses 30 anos que se passaram, eu fui aprimorando o meu estilo de animação. Para mim, particularmente, esses anos me garantiram uma segurança maior da que eu tinha anteriormente. Eu acredito que o mesmo aconteceu com os outros cineastas, que possuem mais opções de realizações e exibições. Mas, apesar de tudo ter melhorado, todo cineasta ainda precisa ter confiança no que está fazendo. Confiança para qualquer diretor é tudo.

O POVO: E como você avalia o cinema de animação brasileiro atualmente?

Chico: O cinema de animação tem um poder muito grande de comunicação. Felizmente, nós temos os melhores técnicos, cineastas e músicos nesse ramo. Estou encantado com o que estamos produzindo nos últimos anos. Com as animações nós estimulamos e desenvolvemos a nossa sensibilidade. É possível contar todas as histórias que preferimos. Só a animação permite.

O POVO: Você lançou Ritos de Passagem em 2014. Qual foi o intuito de falar sobre o sertão, anos após o enfraquecimento desse tema?

Chico: O nosso cinema é nosso, e de mais ninguém. Se essa história nos pertence, eu vou contá-la. Eu vivo o Brasil e uso essas influências como um motor motivador da arte. Por isso eu desenho o inusitado e tenho características próprias, algo identificável. Dito isso, posso afirmar que os temas voltam porque eles precisam ser discutidos.

O POVO: Você já contou várias histórias sobre o Brasil. Existe algum caso brasileiro que instiga o seu trabalho?

Chico: Quero fazer uma animação que vai apresentar a civilização Tupi-Guarani e mostrar as nossas origens. Já tenho o meu espírito preparado e o apoio da família. Estou desenvolvendo o roteiro, com bastante espontaneidade. Espero que corresponda com o meu poder de arte. O meu filho, João Liberato, vai fazer a trilha sonora e já estou trabalhando nas animações. Com esse filme, eu quero deixar claro que o Brasil ainda tem muito o que contar. Nossa civilização é forte e o Brasil precisa conhecer o Brasil. Temos que estimular as nossas histórias, precisamos fazer mais por elas.

O POVO: Você foi diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia. O que aprendeu com aquele contato diário com a arte?

Chico: Tenho grande intimidade com as artes plásticas. Eu sou isso, vivo isso. Meu contato com a arte é a minha vida. Naquele espaço eu aprendi a ser fiel ao meu povo brasileiro, ao meu Nordeste. Fiz um enorme sucesso lá fora, inclusive, por causa disso. Sou tão brasileiro que a cultura se expõe de modo animado.

O POVO: O seu nacionalismo ajudou muito no sucesso dos filmes?

Chico: Todos fizeram grande sucesso. Eles foram vistos com muita paixão. Até hoje os diretores dos festivais adoram os meus filmes e sempre solicitam a minha presença. Acho muito bacana (risos).

O POVO: Como você está lidando com a homenagem do I Anima Ceará?

Chico: Estou feliz em dividir o palco e a nossa arte com uma população jovem, que tem sede de aprendizado. É algo que me satisfaz. Estou muito feliz. Muito grato.

O POVO: Você acredita que esses jovens precisam de mais apoio para continuarem trabalhando com cinema?

Chico: As animações surgem de acordo com a imaginação e o amor que o diretor tem pelas coisas. Agora estamos no momento certo, temos outros meios de se resolver isso e as pessoas estão indo atrás. O que é justo há de acontecer, sem apoio ou com apoio. Basta tentar e usar a criatividade para realizar o melhor.

 

publicado em O POVO

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