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Por Giovanni Soares

 

Nada acontece por acaso. À medida que os movimentos sociais no Brasil foram deixando de reivindicar a reforma agrária, cresceram em todo o país os movimentos populares por moradias nas cidades. Isto – lógico – é uma consequência da migração massiva do campo para a cidade, que se processou décadas atrás.

O problema da falta de moradia torna-se ainda mais complexo numa cidade como São Paulo, quando a gente acrescenta a esse leque a questão dos refugiados estrangeiros e dos imigrantes, que também lutam por um teto para morar. É o que procura relatar a diretora Eliane Caffé no filme “Era o Hotel Cambridge”.

Mas vamos voltar um pouco no tempo para entender melhor a história do Hotel Cambridge. A região central de São Paulo (dotada de boa infraestrutura urbana, inclusive de transporte público) tem muitos prédios totalmente ociosos e fechados, que aos poucos foram sendo ocupados por movimentos populares a partir de 1997, como forma de chamar a atenção das autoridades e cobrar dos poderes públicos a real necessidade de moradia popular para quem precisa.

Em 2012, o antigo prédio onde funcionou o Hotel Cambridge foi ocupado pelo MSTC (Movimento Sem Teto do Centro), com cerca de 150 famílias abrigando-se no local. Elas entraram, limparam a área, tiraram toneladas de lixo e fizeram adequações nas instalações do prédio. Conta Eliane Caffé que “A ideia inicial era fazer um filme que abordasse a questão dos refugiados, mas durante a pesquisa fui conduzindo para essa ocupação.”

Dois atores profissionais – José Dumont e Suely Franco – foram escalados por Eliane Caffé para se misturarem às famílias que fizeram a ocupação. Ao ver o filme, muitas vezes ficamos sem saber o que é espontâneo e o que é encenado, uma vez que a narrativa de “Era o Hotel Cambrigde” une realidade e ficção.

Hoje, a ocupação no antigo prédio do Hotel Cambridge é liderada pela Frente de Luta pela Moradia (FLM), coordenada por Carmen Silva que é uma militante muito espirituosa e que atua de forma marcante no filme. Ela diz o seguinte sobre a ocupação: “Não tivemos nenhuma ajuda do poder público. Tudo foi construído por nós, com apoio de parceiros, com a contribuição mensal das famílias que vivem aqui. Temos também regras claras e não abrimos espaço para drogas e bebidas. Aqui formamos pessoas, as resgatamos e devolvemos um cidadão de bem para sociedade.”

“Era o Hotel Cambridge” já foi premiado em San Sebastián, na Espanha, e eleito o melhor filme pelo público e pela crítica no último Festival do Rio. Vale muitíssimo a pena conferir.

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