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Por Caco Monteiro

 

…é sempre assim, toda vez que encontro com Jorge Alfredo, seja caminhando, ambos de óculos escuros, num vasto caminho de areia, com lambidas rasas da água do mar nos nossos pés na praia de Jaguaribe ou diante do poeta Castro Alves na praça dele, comendo uma pipoca para assistir uma película no Cine Glauber Rocha, seja lá qual for a fita, ele sempre me cobra um texto do processo artístico do meu “ Godó, o mensageiro do Vale”, meu Solo Show. Acho muito de mais melhor chamar de “Solo Show” do que “Monólogo”, pois a palavra monólogo me remete uma coisa monótona, sem charme, sem ninguém para dialogar, sozinho, chato e sonolento zzzzzzzzzzzz. Solo Show!
Bom, dito isso, venho trabalhando meu “Solo Show” de acordo com o balanço da vida.

Há treze anos, lá atrás, boca de ano 2002, trilhei pela primeira vez o Vale do Paty, pirei, criei, escrevi e guardei um projeto chamado “Eu Sei QuantoVale” numa gaveta orgânica, totalmente imune, onde os ácaros e a traças nunca tiveram a chance de comer as minhas palavras. Reservei a fábula “Godó, o mensageiro do Vale”, um dos desdobramentos do projeto “Eu Sei Quanto Vale” para ser contada na hora certa que fosse. Os outros desdobramentos do projeto são o documentário “Patyzeiros” e o livro “Eu Sei Quanto Vale”. Mas isso é para depois. Resolvi então, no ano passado tirá-lo da gaveta e realizá-lo. Mas como? Sem dinheiro?

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Não me fiz de rogado, sou do signo de Capricórnio e filho de Oxaguian, batalhei para trabalhar numa campanha política no ano passado e consegui. Reservei o dinheiro que ganhei desse trabalho para dar o “start” do meu projeto. Aprendi ao longo dos meus 35 anos de carreira profissional que, não existe projeto autoral sem um investimento próprio. Penso assim. Tem que botar um “seu” primeiro antes de qualquer coisa. Então, com a grana da campanha, ao invés de trocar de carro ou fazer uma viagem internacional, investi numa pesquisa no Vale do Paty e no Vale do Capão durante um mês no verão deste ano, para enriquecer a minha fábula “Godó, o mensageiro do Vale” com fatos reais, agregando assim ao meu texto ficcional pitadas da vida real. Tive a parceria de Diana Almeida, como guia e conhecedora dos personagens dos Vales. Da nossa pesquisa, onde entrevistei diversos “Patyzeiros”, no Vale do Paty e nas cidades do entorno do vale, captamos dez horas de conversas e histórias com uma camera Go Pro e meu celular. Com esse material fiz um DVD Promo editado por Ilo Alves e finalizado por Bruno Massato e elaborei a identidade visual do projeto gráfico em parceria com a artista plástica Daniela Steele. Tipo assim, fiz o dever de casa, coloquei o projeto nas leis dos home da Rouanet, como manda o figurino, o cenário, a iluminação e as pôrra, tudo bem direitinho.

Investi na pesquisa, na concepção e na percepção. Continuei caminhando e investindo com recursos próprios durante todo o primeiro semestre desse ano de 2015. Primeiro passo, tirar “Godó” do papel e dar vida a ele. Para que “Godó” tivesse uma alma física e tomasse corpo, fui morar durante quinze dias no Vale do Capão num “trailer” no formato de uma residência artística durante 15 dias no terreno da casa de Mauricio Assunção, ator/realizador/parceiro, onde trabalhamos os primeiros passos e as primeiras respirações dele. Trabalhamos também no processo, o texto. Conviver com o Mauricio, e a sua linda família, Juliana, sua companheira e minha professora de Yoga, e seus três lindos êres, Moreno, Mamá e Preta foi algo que nunca me esquecerei. Juliana, me ensinou a respirar o personagem. Foi incrível e mágico.

Para seguir adiante do meu processo “Godó”, preciso voltar um pouco no tempo.
Em 2012, minha amiga e pra mim, a melhor atriz da Bahia de todos os tempos, Evelin Buchegger, me disse: “Caco, você precisa ver o espetáculo “Édipo” do grupo português Chapitô que vai se apresentar no FIAC – Festival Internacional de Artes Cênica. Captei a mensagem e fui ver. Vi, enlouqueci e disse: “Caralho, é esse teatro que acredito e que quero fazer!”. Vi um espetáculo onde os atores estavam plenos na sua pura simplicidade cênica, usando apenas camiseta e calça jeans como figurino, atuando com corpo e a palavra, sem cenário, sem trilha sonora, iluminados por uma luz geral branca e pronto. Depois do espetáculo, fui no backstage e conheci a Marta, o Jorge e o Tiago, atores do espetáculo, perguntei pelo diretor John Mowat, ele taí?. Não veio. Levei um mês com o “Édipo” no pensamento. Foda de bom. Comecei então a pesquisar sobre o trabalho do Chapitô e do John Mowat, quanto mais eu pesquisava, mais me fazia querer muito um dia trabalhar com o John Mowat.

Um ano depois, o FIAC trouxe o diretor inglês John Mowat para fazer um workshop “Teatro Fisico e Visual” em Salvador. Sempre alheio ao que acontece em Salvador no mundo “teatral baiano”, mais uma vez Evelin, me falou do workshop e de imediato me inscrevi. O fato de ter sido o único ator que falava inglês fluente durante o workshop facilitou a minha comunicação direta com ele durante as improvisações cênicas. Foi muito bom. No final, trocamos cartões de visitas para um contato futuro.

John Mowat e Caco Monteiro

John Mowat e Caco Monteiro

Em Dezembro do ano passado, fui visitar meu filho Matheus na França e o destino quis que eu encontrasse com o Chapitô e o John Mowat, mesmo sem ter planejado. Meu vôo de volta para Salvador saia de Lisboa, e os funcionários da TAP no dia do meu retorno, entraram em greve, e tive que ficar em Lisboa por um dia, sendo tudo pago pela companhia aérea. Não deu outra, fui até o Centro Cultural do Chapitô ao lado do famoso Castelo de São Jorge no bairro da Graça em Lisboa, e como diz na Bahia, no queixão, pedi para ver o ensaio e tive o prazer de ser super bem recebido pelo John e pelos atores. O John olhou para mim e disse: “What the fuck are you doing here?” (Que pôrra que você tá fazendo aqui?). Hahahahahah! Passei uma tarde memorável de tanto rir com a preparação do novo trabalho deles “O Corcunda de Notre Dame”. Simplesmente genial. A barriga doía de tanto rir. Depois do ensaio, o John me convidou para tomar uma cerveja e falei do meu projeto Godó. Ele adorou, e falei do meu sonho de ser dirigido por ele. Para minha surpresa total ele topou. Fiquei louco. Voltei para a Bahia e comecei todo o processo da pesquisa e da pré-produção do projeto. Queria fazer todo o processo de ensaios no Vale do Capão. Para mim era de vital importância, pois eu queria levar o John para a chapada para que ele entender melhor a alma do meu Godó.
Toda vez que penso num projeto, penso num retorno que posso dar, seja para alguém, ou seja para uma comunidade, pois creio que, se me alimento de um lugar ou de um povo, devo retornar de alguma forma. Penso assim.

Pois bem, durante meu processo de ensaios do Godó, quis dar de presente para os artistas locais do Vale do Capão, nativos e chegantes, brasileiros e estrangeiros, o workshop “Teatro Físico e Visual’ do John Mowat. Ele topou na hora. Fui tradutor e assistente dele no workshop, e que me fez entender mais profundamente o processo de direção dele. Ele divide o corpo do personagem em cinco partes. A expressão (olhar), a postura corporal, os gestos, o andar e os sons do personagem. O corpo como base para as palavras. É genial sentir o processo de construção da alma de um personagem, e no Godó, eu interpreto cinco. Ele com 90 anos, ele com 9 anos, a Mãe, o Pai e a Cocó, sua galinha de estimação e melhor amiga. Me ajudou enormemente na transformação de um personagem para outro.

CacoMonteiro-Workshop John Mowat Vale do Capao

Elaborei um cronograma de ensaios de imersão total , tipo 9 to 5 durante 20 dias, no Espaço Moreterra no Vale do Capão com o John Mowat e Mauricio Assunção, intercalado com o workshop durante quatro dias. Foi mágico. A palavra que mais ouvia era “Gratidão”.

No final do workshop, ofereci uma “Feijoada Vegetariana” para os participantes do curso. Ofereci o “Circo & Pão.” Foi lindo. Minha alma transbordou de felicidade. No final dos 20 dias, levantamos o espetáculo e fiz um ensaio aberto para o povo do workshop. Foi bem legal ouvir o feedback das pessoas que assistiram e ver que tenho muito trabalho ainda pela frente.

Ainda falta muito, mais ensaios, trabalhar o texto um pouco mais, iluminar as cenas, etc., tenho apenas a espinhal dorsal do espetáculo. E sei que estou no caminho certo.

No final de Agosto, voltei para Salvador, para começar o processo de captação para finalizar a obra e poder apresentá-la para o mundo. Coloquei o projeto em alguns editais. Fui ao Rio e São Paulo apresentar o projeto para algumas empresas, mas não consegui nada ainda.

Não consegui estrear em Setembro como havia planejado, tá foda, mas não perco as esperanças de seguir adiante na captação e realização desse meu sonho. As pessoas continuam esperando Godó, e quero dizer que pode esperar que vai rolar. Aguardem.

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