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um filme para se ver mais de um vez

 

 

por Fernando Belens

 

 

Falando de minha experiência pessoal, somente consegui penetrar integralmente na viagem cinematográfica proposta por José Araripe Jr em “Esses Moços”, na terceira vez que assisti a este bruto, simples, e delicado poema visual. Araripe sempre foi um cineasta da imagem, desde Fiat Lux, Retina Gatilhada e Contos de Fardas, realizados em Super-8, passando especialmente por Mr.Abrakadabra! realizado em 35mm e que recebeu os maiores prêmios no Festival de Cinema de Brasília, que seu universo procura na síntese da imagem uma significação integral, o som apenas mais um elemento do concerto que engendra a narrativa cinematográfica.
Confesso que na primeira vez que assisti a um primeiro esboço do filme, ainda sem o processo de finalização, não comprei a passagem para o interior da tela. Numa segunda aproximação, também em vídeo, com uma cópia mil vezes melhor eu já estava embarcado nesta viagem, afinal, duas meninas de rua e um velho sábio na sua quase demência, são personas de um mundo em que eu também quero transitar, em que eu também transito quando as duras regras de produção permitem. Por isso é que aconselho um desarme no olhar ao se fruir este tão delicado e tão essencialmente cinema brasileiro, feito na Bahia mas com uma abrangência sem dúvida para qualquer lugar na nossa nave-Terra.
Adoradores de “Homem-Aranha”, viciados em “Piratas do Caribe” agentes conscientes ou inconscientes do imperialista cinema americano fujam de “Esses Moços”, pois este é um filme radical, cru e direto como é a vida nas ruas das grandes cidades de nosso país. Este é um filme construído sem efeitos especiais, sem milhões brotando a cada corte, sem Oscars e sem dentes. Este filme não morde, ele somente acaricia suavemente parte do nosso cérebro onde habita uma coisa chamada sensibilidade.
“Brasileiros e brasileiras, o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”, bradava o magnifico ator Bertrand Duarte, na pele do “Superoutro”, pela boca do nosso cineasta mais autoral, Edgard Navarrro.  O dever de “Esses Moços” é nos fazer pensar, este artigo tão em falta no cinema brasileiro e que segundo Bertold Brecht “é a maior diversão”.

ndl

Então, vamos todos ao cinema sem pressa, vamos assistir esse filme as vezes que forem necessária para finalmente viajarmos juntos pelos cenários mais singelos, de uma Cidade Baixa que ainda mostra a Bahia onde vicejaram Vadinhos, Gumas, Quitérias e tantos outros personagens vívidos de nossos escritores mais baianos e mais queridos.
A exibição desse filme na Estação Ferroviária da Calçada, foi o rito que faltava, o cinema foi onde ele foi feito e pulsou forte, o movimento dos passantes que paravam para assistir a projeção era como assistir a tela invadindo a realidade, como um simulacro da “Rosa Púrpura do Cairo”. Sentado a meu lado, um jovem proletário carregando sacos onde imaginei ver cópias piratas, visivelmente atraído pelas imagens que enchiam o espaço com sua mágica, confidenciou a um jovem outro, provavelmente seu amigo ; “não vou nesse trem, espero o próximo, quero ver a galera…”   Ele não precisou nem assistir ao filme inteiro para se identificar com os personagens, ele não tem medo nem vergonha de sua própria imagem, ele não teme o espelho.
Viva o Cinema Araripe! Viva Daiane, Darlene e Diomedes! Viva o povo Brasileiro!

 

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