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‘Estranhos’ de Paulo Alcântara é bem recebido pelo público do Cine PE

 domingo, 3 de maio de 2009

 

Por Aline Fontelli

 

A noite do sábado no Cine PE superou o grande público da sexta-feira. Com o teatro do Centro de Convenções lotado, quem compareceu a 13° edição do festival acompanhou a Mostra Cel.U.Cine e os curtas digitais e em 35mm, que iniciaram as competições.

A última exibição da noite foi do longa-metragem baiano ‘Estranhos’ do diretor Paulo Alcântara, que com um roteiro simples, conseguiu agradar incrivelmente o público do festival, famoso pelas suas críticas rigorosas. O filme foi o último longa exibido dentro da categoria a disputar o Troféu Calunga pela mostra competitiva de longas-metragens.

Também esteve presente no evento e promovendo o filme, o ator Jackson Costa, que está no elenco do longa. Ele já participou de produções da Rede Globo, como as novelas Paraíso e Duas Caras.

O diretor até que foi feliz em acertar numa história que conta de forma cômica várias histórias dentro do uma só. Coisa bastante comum dentro do cinema. Uma professora primária que quer rever as filhas que estão com o pai alcoólatra, e é cortejada pelo açougueiro e pelo diretor da escola onde trabalha. Uma ex-prostituta que apanha do marido, mas se contenta com o fardo. Um assaltante gay e o seu parceiro. Duas crianças que estão descobrindo o primeiro amor. E um “louco” apaixonado. Enquanto os personagens se revelam ao público, o drama (que acaba não parecendo bem um drama) da história aumenta. No fim, todos acabam no mesmo lugar, com um trágico fim (que está mais pra feliz).

Diante das opiniões fora do teatro, eu diria que Paulo Alcântara acertou a medida da adaptação de ‘Estranhos’, que foi roteirizado para a realidade baiana por Carla Guimarães. O roteiro original é do espanhol – peruano Santiago Roncagliolo. Vale salientar que elenco do filme é quase todo de atores baianos, com exceção da atriz mineira Mariana Muniz.

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Por Leonardo Luiz Ferreira

 

A produção baiana Estranhos, de Paulo Alcântara, se estrutura a partir de um filme-coral em que tramas e personagens paralelos têm as vidas cruzadas de alguma forma, seja pelo mero acaso ou por um sentimento em comum. Sugerir que o longa seja inspirado na obra de Robert Altman, um mestre no sentido de costurar diversas micro-narrativas em uma película uniforme, ou até mesmo citar “Magnólia” (1999), de Paul Thomas Anderson, como referência, só agrava e ressalta às inúmeras deficiências do longa de estreia de Alcântara, que, na realidade, se baseia na adaptação de um romance do peruano Santiago Roncagliolo. Porque no decorrer de sua curta duração, Estranhos se revela extremamente inepto no interesse por seus personagens e, sobretudo, na forma com que as histórias se desenvolvem a partir de tamanha precariedade dramatúrgica.

A abertura já apresenta a imagem aérea recorrente da cidade: há vários cortes desnecessários e uma trilha sonora que nunca encontra sentido com o que se projeta – e isso vai acontecer em todo o filme, com uma marcação rítmica de rock e batida tribal que não faz o menor sentido cênico. A Bahia apresentada será a das ruas, favelas e pobres que tentam encontrar um meio para ser feliz. A câmera se atém pouco aos moradores ou a pulsação da multidão, pois o que interessa para o cineasta está em costurar as suas histórias, ainda que não haja nenhuma preparação para elas. Os planos surgem a esmo, com uma clara intenção de fazerem funcionar aquilo que foi pensado no roteiro. Este parece não ter passado de um primeiro tratamento, porque soa tão cru e frágil, que apenas reforça o caráter de esboço, de filmar sem ter o material lapidado. A análise em separado de duas sequências já deflagra isso claramente para o espectador: um desempregado, que vive de bicos, se apaixona por uma ex-prostituta em segundos após uma briga com o marido dela na entrada de uma repartição para obter o seguro-desemprego. A dramaturgia beira o amadorismo em uma infeliz mescla entre atores e não-profissionais. Em um instante mais adiantado de Estranhos, esse mesmo personagem toca à campainha de maneira aleatória e se encontra com uma professora, que por sinal também é uma das protagonistas, e sem mais nem menos pede um favor: “eu preciso de sua janela”. Já que seu objeto de desejo está instalado em frente a ela. Ou seja, os personagens vagam soltos e o diretor os impinge um contexto para coexistirem no mesmo espaço.

O texto de Estranhos quer trabalhar de maneira superficial as visões do amor, tanto de adultos quanto de crianças. Até mesmo uma tensão homossexual é criada para dar conta de abordar ao máximo diferentes formas de amar e de sofrer com rejeição. Esse jogo de opostos entre homem e mulher está ali, mas o diretor não consegue extrair nenhuma veracidade para essas relações. O tom irônico e folhetinesco apenas piora a fruição narrativa, que já soa desconjuntada o bastante por causa de sua montagem confusa que mistura jump-cuts (cortes dentro do plano) desnecessários, com slow motion para frisar instantes, e cortes de maneira abruptas que parecem abandonar as cenas sem um sentido de completude.

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Estranhos é ambientado no período de festas, entre o Natal e o Ano Novo, para dar um caráter de momento de mudança no ar. Aos fogos de artifício se misturam tiros e todos personagens estão finalmente juntos em um mesmo espaço. Mas quando Alcântara consegue realizar o que anunciava, desde o momento em que faz um clipe rápido com eles em momentos-chave, termina de maneira tão brusca quanto inconvincente – o que novamente chama a atenção para um corte inapropriado e a falta de sustentação do script.  Para tentar explicar, o diretor recorre às cenas de um “próximo capítulo” durante a rodagem dos créditos, como um epílogo imposto por um editor. Só que o resultado audiovisual é tão ruim quanto sugere ser a sua matriz literária.

 

 

 

Um Comentário...

  1. Solange Lima disse:

    Aqui pensando….
    ESTRANHOS, filme dirigido por Paulo Alcântara roteirizado por Carla Guimarães teve o seu roteiro premiado desde Alemanha até o Brasil. Considerado um excelente roteiro.
    O Publico pernambucano, com quase 3 mil pessoas, aplaudiu o filme em cena aberta por TRÊS VEZES! Saíram encantados no final da sessão.
    Aí vejo as críticas.,.
    Primeiro, os críticos ou não assistiram ao filme, ou não entenderam o roteiro…
    A primeira chega a dizer que o filme fala de uma professora primária que quer rever as filhas que estão com o pai alcoólatra… quem é alcoolatra é a professora o pai das crianças é um coronel… que filme essa criatura assistiu meu Deus…rsrrs
    Diz que o roteiro origina é de um espanhol que Carla adaptou… Carla adaptou de um livro, o roteiro original é dela da Carla.
    O Outro crítico fala da trilha, que foi premiada como a melhor trilha, como péssima… desarticulada…
    Eu fico pensando…acho que hoje em dia a maioria dos críticos analisam perfil de diretor e roteirista… no mais é uma analise desconjuntada, sem conhecimento de estética, de narrativa de linguagem. Uma tristeza.

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