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por Edgard Navarro

 

 

 

Foi com alegria que aceitei o convite pra realizar essa oficina de cinema no Capão (distrito de Palmeiras). Imagino que o encontro de gerações será fecundo em muitos sentidos e por diferentes razões: de um lado uma moçada ávida, cheia de ideias e vontade de experimentar, de se expressar através do audiovisual; do outro um sex@genário portador de perigosa síndrome: adolescência tardia, persistente, incurável. Depois de tantos anos, o que mais quero é voltar a filmar com a mesma liberdade com que comecei, por absoluta necessidade de me expressar – por amor, esperança, tesão, desespero, indignação em face de uma realidade sombria patrocinada pela ditadura militar… Eu havia estudado engenharia civil e tinha um emprego na Odebrecht (vejam só!), mas desde os tempos da escola me sentia como um estranho no ninho; eram os anos de chumbo e eu estava entrando em parafuso – ansiedade, angústia, depressão… Pedi demissão, acabei ficando com um emprego que me pagava mal, mas exigia pouco. Devo dizer que naquele momento de minha vida a cannabis foi a descoberta mais revolucionária, só comparável ao que havia sentido no primeiro orgasmo… Por alguma razão com a qual até hoje não atino de forma cabal, escolhi a ficção. Estava aberto o caminho pra a consecução de planos mirabolantes de fazer cinema, teatro, qualquer coisa alternativa… O passo seguinte foi comprar uma câmara super 8, e filmar virou sine qua non em minha vida; a sensação me foi dada pelo ofício de fazer da fantasia um canal de transmutação do chumbo em ouro, e tudo o que fiz desde aquele dia foi buscar nesse ofício extraoficial uma maneira de catapultar a mim mesmo pra fora de qualquer inferno; como se fazer arte tivesse o condão de nos tornar invulneráveis aos golpes da vida, fossem eles causados por doença, injúria ou indignação, transmutando injustiça social y todo lo más em ficção; feito um anzol que pescasse uma estrela, uma corda que atirada pra cima engancha num ponto qualquer do espaço e permite que a gente trepe e escale e suba, o mesmo susto do trapezista ao cair em si. De lá pra cá eu pus os meus pés no riacho e acho que nunca os tirei. A fantasia é teletransporte, é pharmacon: pegue um texto qualquer que lhe incendiou de desejo o coração e comece a inventar um jeito de colher essa flor – ou pode ser uma pluma, ou uma concha só sua, e persiga a trilha aventureira da maravilha instaurada nessa hora em seu sentir – porque isso é estado de graça, que nem nos conta o poeta que fugiu do céu com um menino Jesus só seu pra brincar de guardador de rebanhos.

 

 

3 Comentários...

  1. EDGARD NAVARRO disse:

    POST SCRIPTUM:
    Tem mais uma coisa que é bom todos ficarem sabendo: ORLANDO SENNA – por quem tenho enorme apreço, foi justamente quem me iniciou nos macetes da dramaturgia, em oficina de roteiro por ele ministrada nos idos de 1978. Talvez Orlando nem se lembre disso, mas eu me lembro.

    • Edgard,
      Coisa mais linda seu texto forte, apaixonado, viril, como você. Lindo vê-lo acompanhado da imagem sua com Juliane Elting nos braços num frame do nosso Angelus Novus. Eu e Rafa estamos aqui com muitas saudades e daríamos tudo para estar aí como alunos seus da oficina na Chapada da Diamantina. Ainda este ano iremos à Chapada filmar a natureza e suas reverberações no espírito. Queremos revê-lo!!!

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