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por Raul Moreira

 

Mais do que um documentário que aborda os conflitos raciais acontecidos nos EUA na segunda metade do século passado, os quais ganharam contornos trágicos, Eu não sou seu negro (2016), de Raoul Peck, em cartaz nos cinemas, é uma obra que mostra o lado obscuro de um país que se tornou berço da democracia moderna ao mesmo tempo em que sua população afrodescendente sofria preconceito e segregação, como acontece ainda hoje.

Filme obrigatório e que revela não apenas a natureza de um Estado que institucionalizou o racismo, desde os tempos do extermínio das populações ameríndias, mas, também, faz luz à patologia de uma inteira nação, que alimentou a fantasia da “inocência”, elemento complexo que permeia os nossos “primos” norte-americanos, inclusive os próprios oprimidos, Eu não sou seu negroseria poético se não fosse trágico.

Isso porque a narrativa do filme de Rauol Peck, o modo como a história é contada, pela voz de Samuel L. Jackson, que agiganta ainda mais o escritor, ativista e crítico social James Baldwin (1924-1987), autor dos manuscritos Remember this House, a partir dos quais foi construído boa parte do roteiro, é tão sedutora que, em determinados momentos, o espectador  entra em uma zona que acaba por distanciá-lo do objetivo supostamente proposto.

Mas quando a navalha corta profundamente, a dor é imensa e o sangue salpica na tez incrédula dos supostos inocentes. Os EUA, com sua natureza perversamente infantil, algo que vem desde a conformação puritana de parte de seus colonizadores e ganha contornos definitivos a partir da afirmação da indústria do entretenimento, é um doente crônico.

O doente, seguindo uma lógica típica da indústria farmacêutica, por exemplo, não pode e não deve, por razões óbvias, se curar da patologia, pois o objetivo é mantê-lo ali, dentro de um estado mental que se prolongue até o fim, o que o leva, inclusive, a acreditar que o paraíso lhe foi reservado: como disse Baldwin, em palavras sacrossantas, a grande América vive a fantasia daquilo que imagina ser, mas que, definitivamente não é e dificilmente será.

Um autoengano que envolveu também os afrodescendentes, gente que chegou a se sentir parte da engrenagem capitalista dos EUA, de possuir os objetos de desejo, de fazer parte da fantasia cor de rosa do consumo, de jogar o mesmo jogo dos brancos. No entanto, em dado momento, a ficha caía e a condição de cidadãos de terceira categoria os trazia volta à dura realidade, à humilhação da segregação, a qual ainda hoje se faz sentir.

Sim, um jogo complexo e no qual Baldwin, apesar de seu ativismo, de batalhar ao lado de homens de seu tempo, como Medgar Evers, Malcom X e Martin Luther King, todos assassinados, se projeta além. Porque, no fundo, apesar da injustiça gritante sofrida pelos afrodescendentes de muitas gerações, ele acreditou que na América todos eram vítimas, pois a ignorância e o preconceito revelavam a pobreza de espírito que refletia um condicionamento imposto por um sistema perverso.

Integrante de um naipe do qual fez parte o também saudoso escritor e psiquiatra Francis Fanon, o celebrado autor de Pele Negra, Máscaras Brancas, teórico e militante do anticolonialismo, Baldwin, a exemplo do colega, chegou a trafegar por uma Europa preconceituosa, mas que, contraditoriamente, vivia o sopro das divisões ideológicas, algo que o ajudou a desenvolver um pensamento capaz de combater a hegemonia de certos determinismos.

De alguma forma, não apenas pela expressividade da tez, como também pelo jeito de mexer o sobrolho, quando se olha para Baldwin é impossível não se lembrar do geólogo baiano Milton Santos, morto em 2001 e cujo discurso em torno da questão negra no Brasil partia da premissa de que a solução passava por uma tomada de consciência que levasse o homem de “cor” a uma condição de integralidade, que não ficasse condicionado a choramingas.

Como Milton Santos, de alguma forma Baldwin era esperançoso de que, com o passar dos anos, a questão da “raça”, conceito discutível na teoria e revelador de barbáries na prática, viesse a ser superado. Mas, décadas depois da morte dos dois, olhando os EUA e o Brasil, se percebe o quanto as populações afrodescendentes, de cá e de lá, continuam a entrar nas estatísticas na condição de pobres, encarcerados e assassinados.

A respeito da questão, aliás, quando esteve em Salvador, no Carnaval de 2013, o cineasta Spyke Lee, que de certa forma foi influenciado por James Baldwin, constatou de perto a falácia da democracia racial justamente na maior cidade negra do mundo fora do continente africano: “Os direitos dos negros daqui estão, 40, 50 anos atrasados em ralação aos negros norte-americanos”.

A julgar pelo desenho atual do Brasil de Temer e dos EUA de Trump, as populações negras terão desafios ainda maiores pela frente, uma luta que, se serve de consolo, carrega um brado que pode valer muito, cá e lá: Eu não sou seu negro!: I am not your negro!.

Publicado em A Tarde

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