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por Rosemberg Cariry

 

 

Em dias de festas da Idade Média, os diabos eram chamados pelo povo para ir às ruas e praças. Esses diabos libertos (entre a permissão e o receio da libertinagem da parte dos padres e doutores da Igreja) tocavam, cantavam, saltavam, faziam caretas e travessuras. Sem culpas, ridicularizavam e eram ridicularizados, quebravam as regras e as rígidas convenções morais e sociais. Resgatados das sombras da alma e assim expostos ao sol, os pobres diabos já nenhum mal faziam e, terminadas as festas, recolhiam-se impotentes nas brumas do inconsciente.

Esse costume, sob novos disfarces, permanece vivo na cultura popular. Daí a presença tão constante desses diabinhos inocentes, que viram o mundo de pernas para o ar e invertem a ordem estabelecida (como no carnaval), para assegurar o equilíbrio da razão e da própria ordem cósmica. A cultura popular é sábia e daí as suas máscaras diabólicas (fantasmas dos desejos), seus rituais festivos e iniciáticos, seus anti-heróis…

O filme trabalha nesse território, embora tudo pareça realista e normal, no cotidiano do pobre Gran Circo Teatro Americano. Os artistas (estrelas tombadas nos céus do sertão) são uns “pobres diabos” em busca da sobrevivência e do reencontro com o deus-povo, na sagração da fruição estética do espetáculo e da comunhão do reconhecimento e do aplauso. O sagrado é o outro lado da moeda onde está o profano. Muitas vezes, no Cariri, quando eu era criança, segui os circos. Ao final, como recompensa, recebia na testa uma cruz de cinza. Os meninos passavam dias sem tomar banho para que as cruzes de cinzas (o sinal do sagrado) pintadas nas testas não saíssem. Podíamos assim assistir ao espetáculo de graça. Éramos transformadas em atores coadjuvantes do grande espetáculo. Nesse sentido, o circo tinha uma função também iniciática.

O sonho de todo menino do sertão era ser palhaço, mais do que trapezista ou domador de leão. Ariano Suassuna disse-me que foi ser escritor porque não conseguiu ser palhaço e que hoje faz as suas aulas espetáculos para também realizar o papel de palhaço, por meio das histórias e anedotas que conta para o riso farto do povo. No filme, o humor está ligado à pantomima, ao burlesco, à gag circense, às representações do teatro popular.

O filme tem dois momentos dramáticos importantes: o vendaval e o incêndio do circo. Depois do incêndio, os artistas do circo perdem os seus acervos de roupas comuns e ficam vestidos com as roupas dos personagens da peça teatral, confunde-se o ordinário com o extraordinário. É como se eles assumissem verdadeiramente as suas máscaras e as suas condições de “pobres diabos”. O final do final aponta para uma epifania (no sentido cristão), da festa como sagração da vitória do riso sobre a tragédia (no sentido do paganismo também herdado pelo sertão nordestino e popular). A cultura popular sempre trabalha com esses sentidos múltiplos de forma integradora e vital.

Para fazer um filme, não basta ter dinheiro, equipamentos sofisticados e disposição para o trabalho. Aqui precisamos domar a alma, como na anedota budista do “domador de búfalo”.  Um filme é como o instinto e a sombra − um cavalo selvagem, feroz e poderoso, que precisa ser domado. Precisamos de bons cavaleiros. Podemos usar também a metáfora da tourada, para lembrar que existe também o “touro furioso”. O diretor é o coordenador da arena e ajuda na captura do cavalo selvagem, no trabalho de domá-lo e, depois, na arena do set, pelejar com o touro-filme. Quem é o toureiro? Todos nós somos toureiros, nessa luta simbólica de sombra e de luz, onde o espetáculo acontece. A arte é a tourada. Da mesma forma, no cinema, a arte não é apenas o filme pronto, mas também fazer o filme.

Considero o ator como uma parte de fundamental importância e nunca me sinto como sendo o oleiro e o ator o barro. O ator, ele mesmo, é o oleiro e também o barro. Vem do ator o sopro que vivifica o personagem. Diante de tal afirmativa, alguém pode se perguntar: então, o que é um diretor de cinema? Penso que um diretor de cinema está mais para um alquimista, que permitirá que as misturas mais férteis e produtivas aconteçam.

Mesmo sendo uma produção com pouco dinheiro, nada deve nos impedir de lidar com a grandeza do desafio, no sentido de que estamos traduzindo em arte nossos sentimentos mais profundos. Somos, quem sabe, esses “pobres diabos” da Idade Média virando o mundo às avessas, por meio da subversão do riso e da arte. Todos sabem: um filme é feito de luz, mas a metade é sombra.

 ros

 

Um Comentário...

  1. Tadeu Bahia disse:

    O mundo, assim como também e nossa Alma, são feitos de nuances de luzes e de sombras!
    Magnífico texto!
    Parabéns!

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