Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Filhos de João

 

O Admirável Mundo Novo Baiano

um filme de Henrique Dantas

por Reinaldo Lopes Rocha

 

Acabou Chorare! A música que leva esse título é o retrato de uma época. Tempo de sonhos e utopia. Surgiu dentre um grupo que mais do que fazer música decidiu viver o sonho que escolhera. Era uma época em que os jovens saíam de casa em protesto contra o extremo materialismo da sociedade e iam por aí, com uma mochila nas costas, sem planos, sem compromissos, “sem lenço e sem documento”. Esse grupo ficou conhecido como Os Novos Baianos. Eles são os Filhos de João.

Em plena ditadura militar Os Novos Baianos eram vistos com desconfiança pelos homens do regime, que, no entanto, não conseguiam enquadrá-los em nenhum grupo que pudesse representar contestação aos militares e à sua ditadura. Os Novos Baianos não queriam mudar o regime. Queriam viver com liberdade, comunitariamente, e queriam acima de tudo fazer música. Fazer música e jogar futebol.

Essa história fantástica é contada de forma magistral nesse documentário produzido e dirigido pelo cineasta baiano, Henrique Dantas.

Os depoimentos de Tom Zé são um show à parte. Naquele seu estilo esotérico-tropicalista, Tom Zé vai derramando pérolas durante o filme. Falando dos Novos Baianos e destilando fantasia. Eles, os músicos, vão desfilando na tela. As imagens antigas falam mais que muitas palavras. Lá atrás ficou a vida que eles inventaram. As canções, os amores, os encontros, a rima e a métrica. Hoje, falam daqueles tempos com um misto de nostalgia e orgulho. Dá prá perceber como brilham seus olhinhos.

Certo dia por volta das 3h da madrugada bateram à porta. Quem espiou por entre a fresta achou que fosse a policia. Àquela hora, de paletó e gravata batendo à porta daquele apartamento de malucos, só podia ser um delegado. Alguém haveria denunciado o comportamento alienígena da galera. Porta aberta: era João. João Gilberto. Ele mesmo. O músico ensimesmado de Juazeiro que fazia música popular com uma classe de fazer inveja aos clássicos. Tanta classe que Moraes Moreira pensou em desistir de fazer música.

Ele, o João, apareceu por ali, tocando, mostrando uma música aqui, outra acolá, um estilo, uma influência. Foi traçando rumos para o grupo que sem saber realizava o sonho do mestre: morar em comunidade para produzir música. Música de qualidade.

Esse filme é uma crônica escrita com imagens, sons, cores e gestos. Tudo isso e muito mais projetado lá, na tela. Tudo milimetricamente encaixado, colado, seqüenciado, ilustrado, sob o toque do maestro Henrique Dantas, para nos deixar com uma suave sensação de que a poesia, o amor, a fantasia, a música enfim, são para nós, no mundo, um alento, um acalanto.

E como tudo nesse mundo acaba um dia, os Novos Baianos também acabou. A realidade um dia bateu à porta. Um dia disse: espera aí, eu existo e exijo respeito. Nas palavras de Moraes, a chave para a compreensão do fim: “Não tínhamos o direito de impor aos nossos filhos aquela opção”.

Acabou, choremos!

  nb

 

 

Deixe um comentário