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Tropykaos foi feito em Salvador e traz o sol como metáfora da opressão

 

por Vinícius Marques

 

De calça, tênis e moletom, Guilherme, mais conhecido como Guima, caminha pelas ruas do centro de Salvador se escondendo do sol que está lhe causando uma espécie de “ultraviolência solar”. Essa é a história de Tropykaos, primeiro longa-metragem de Daniel Lisboa, que tem pré-estreia hoje, às 20h, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, e estreia nesta quinta-feira, 5, no circuito comercial.

Guima, vivido pelo ator Gabriel Pardal, é um jovem poeta em crise que não consegue escrever seu livro de poesias. No filme, o sol é a metáfora da opressão que está por toda parte: nos topos dos prédios que sufocam as ruas, no suor das praias lotadas, nas estruturas de poder.

O filme se passa em uma cidade em pleno verão, com praias e ruas lotadas, véspera de Carnaval, onde o poeta enfermo não consegue mais se encaixar e conviver com o que chama de “ultraviolência solar”. Todas as cenas de Tropykaos foram gravadas em Salvador, principalmente no centro da cidade,no Comércio e na Cidade Baixa.

“É uma ideia bem antiga. Começamos a pensar nesse filme em 2006. Já são quase 13 anos”, lembra Daniel Lisboa, diretor do filme. “A ideia surgiu através de relatos de pessoas que não suportavam o calor de Salvador. O primeiro elemento veio de uma pessoa dependente do ar-condicionado, e aí começamos a pirar nessa ideia”, conta.

Tropykaos se comunica com diversos gêneros, mas Daniel gosta de pensar no seu longa como um filme-delírio. “Estamos o tempo todo na cabeça do Guima, mas sem ter a certeza se estamos lá ou não”, conta o diretor. “Vários momentos do filme você fica nessa dúvida se aquilo faz parte do delírio desse personagem ou se é uma cena real do filme. Brincamos o tempo todocom esses dois gêneros: o drama e o realismo fantástico“, revela.

Anti-herói

Guima está longe de ser um herói, e isso é reafirmado a todo momento. Ele é atacado, desnudado e exposto ao público em cada oportunidade possível. As contradições são várias: Guima se diz poeta, mas se vê pouca poesia no filme; é um cara que está escrevendo um livro, mas nunca vemos esse livro; é um cara que está se colocando como marginal, mas na primeira oportunidade vai na casa da mãe pedir dinheiro.

“O Guima é um anti-herói declarado, e essa é uma das características que diferencia o Tropykaos de outros filmes. Ele é um personagem que é construído de forma extremamente contraditória”, afirma Daniel.

Trabalhar com um protagonista que teve uma educação burguesa e que se lança nesse processo de superação com a cidade, mas que não tem as armas para isso, pode ser um desafio.Daniel entendeu isso e abraçou a ideia.

Tropykaos é o primeiro filme em que Daniel joga um foco num personagem de classe média. Até então, seus outros trabalhos, como O Fim do Homem Cordial, Frequência Hanói e O Sarcófago, foram filmes de temáticas que envolviam minorias.

“O filme é um pouco sobre essa geração que teve todas as benesses de ser de uma classe média e classe média-alta, e a todo momento quer se colocar como participante das ruas, do underground, e vai ter que enfrentar esses dilemas. Uma boa parte da minha geração teve que enfrentar isso”, afirma Daniel.

Críticas

O diretor também conta que muita gente criou uma ideia contrária ao que ele quis trazer com Guima. “Eu quis expor uma figura de classe média, mas muita gente não pegou a visão. Achou que eu estava exaltando o personagem“, conta Lisboa, afirmando que ouviu todas as críticas e trabalhou com elas.

Essas críticas que Daniel menciona são das exibições em festivais em que o filme caminhou. Tropykaos foi filmado em 2013 e lançado em 2015 no circuito de festivais nacionais. De lá para cá, até chegar a sua estreia comercial, Tropykaos fez parte da seleção oficial de festivais, como Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (SP), Panorama Internacional Coisa de Cinema (BA), Janela Internacional de Cinema do Recife (PE) e da Mostra de Cinema Tiradentes (MG), sendo nesse último o vencedor do prêmio de Melhor Filme da Mostra Transições, formado por um Júri de estudantes de cinema de todo o Brasil.

Captação e distribuição

O longa foi financiado pelo governo do estado da Bahia, por meio do Fundo de Cultura, e pela Petrobras. Tropykaos venceu os editais de desenvolvimento, produção e distribuição,captando em torno de um R$ 1 milhão. Da equipe de filmagens, finalização, distribuição e desenvolvimento, o filme mobilizou em torno de 300 pessoas desde 2007.

O filme é distribuído pela Pipa Produções e, além de Salvador, já tem estreia marcada para Aracaju e Porto Alegre. São Paulo e Rio de Janeiro devem ser as próximas cidades onde o longa deve estrear.

“Esse é um momento de aprendizado. É nossa primeira distribuição e cada passo que damos está sendo analisado, registrado e pensado. Queremos levar essa expertise para os próximos projetos” conta Daniel.

Tropykaos é produzido pela Cavalo do Cão Filmes, que está em atividade desde 2002 e que em breve deve lançar um documentário sobre a vida de um rapper invasor de palcos.

publicado em A Tarde

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