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por João Carlos Sampaio

 

A sombra de um regime que estabeleceu restrições à livre expressão afetou, de diversas formas e em diferentes níveis, toda a produção artística na Bahia. No caso do cinema, entretanto, é preciso esclarecer que alguns acontecimentos anteriores ao golpe militar de 1964 já haviam desacelerado a produção.

O primeiro filme baiano de longa-metragem, Redenção (foto), do cineasta Roberto Pires, estreou em 1959 e se tornou o marco inicial do Ciclo Baiano, uma das matrizes do movimento nacional que ficaria conhecido como Cinema Novo.

Neste ciclo foram realizados filmes como A Grande Feira (1961) e Tocaia no Asfalto (1962), ambos de Roberto Pires, além de Barravento, a estreia de Glauber Rocha em longa-metragem, lançada em 1962, quando ele já havia trocado Salvador pelo Rio de Janeiro.

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A pesquisadora Maria do Socorro Carvalho aponta o ano de 1962 como o momento final do Ciclo Baiano. Em 1963, Roberto Pires também se muda para o Rio e a movimentação local esfria.

O professor e crítico de cinema André Setaro considera, nas suas palavras, “o canto do cisne do Ciclo Baiano” o filme O Grito da Terra, do engajado diretor Olney São Paulo, lançado em 1964, ano do Golpe.

Autor de dois filmes recentes inspirados pela obra e pela trajetória de Olney São Paulo, o cineasta Henrique Dantas trabalha atualmente no projeto Galeria F, sobre os presos políticos baianos. Em suas pesquisas, lida com a ausência de imagens em movimento.

“Simplesmente não encontro nada”, diz Dantas, que prossegue: “Há muitas fotografias, mas não se tem nada em película, minha esperança é achar algo, quem sabe, em acervos domésticos”, diz.

Vazio

O final dos anos 1960 trouxe a decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5), em 1968, e um sentimento de desmobilização na produção local, que foi quebrada apenas por iniciativas pessoais, obras alternativas.

Meteorango Kid (1969), de André Luiz Oliveira, sobre um jovem em busca de seu lugar no mundo, e Caveirinha My Friend (1970), uma caótica festa-filme de Álvaro Guimarães, inauguraram o “underground baiano”, marcado pelo niilismo. O Anjo Negro (1972), de José Umberto, fecha a trinca de longas desta vanguarda.

Na luta contra a censura, a Jornada de Cinema da Bahia, criada em 1972, pelo cineasta Guido Araújo, serviu como espaço de encontro, que resultou na fundação da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD).

Guido Araújo lembra que, graças ao apoio de instituições como o Instituto Cultural Brasil-Alemanha (Icba), que gozava de certa independência por ser um espaço com bandeira estrangeira, foi possível exibir filmes brasileiros sem a severa vigilância dos censores.

Superoitistas

A geração de cineastas baianos seguinte surgiu a partir das Jornadas, os realizadores “superoitistas”, assim chamados por filmarem com uma película doméstica, artesanal, o Super-8, criando obras livres e rebeldes. Pola Ribeiro, Edgard Navarro, Fernando Belens e José Araripe Jr. estão entre os realizadores surgidos deste exercício.

“Pudemos fazer nossa voz chegar mais adiante com poucos recursos”, diz Pola Ribeiro. “Um filme feito por quatro garotos, como A Conversa (1975), foi notícia em jornal por ter sido apreendido pela polícia, então a ditadura mostrava que era tão forte, mas também tão frágil, capaz de ser contestada”, complementa Ribeiro.

O cineasta finaliza: “Descobrimos que nossas brincadeiras ameaçavam a côrte, aliás, somente por estarmos nos encontrando, nos reunindo em grupo quando isto era proibido, já praticávamos um ato político”. A abertura, ainda segundo Pola Ribeiro, acabou gerando um “desejo de profissionalização”, que significou o fim da febre superoitista.

Com O Superoutro, lançado já em 1989 e filmado em condições semiprofissionais (película 16mm), Edgard Navarro faz uma espécie de manifesto-síntese do espírito superoitista e de sua própria obra.

O filme, um premiado média-metragem, faz sucesso nacional quando a Bahia já não produzia longas-metragens há seis anos, desde O Mágico e o Delegado (1983), de Fernando Coni Campos.

Passaram-se duas décadas e somente em 2001, o filme 3 Histórias da Bahia, de José Araripe Jr., Edyala Yglesias e Sérgio Machado, quebraria o amargo jejum de 18 anos sem longas baianos. Era a tardia entrada na “Retomada do Cinema Brasileiro”, que começou em 1994.

Não é absurdo pensar que, mesmo indiretamente, devido à ausência de políticas públicas para o audiovisual, a ditadura e os governantes civis baianos que a apoiaram contribuíram, de algum modo, para tanta imobilidade e silêncio.

 

O Grito da Terra foi o “canto do cisne do Ciclo Baiano”, segundo crítico e professor André Setaro (Foto: Divulgação)
publicado em A Tarde

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