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Depois de anos de pesquisa e exaustivos ensaios, Godó, o mensageiro do Vale, monólogo escrito e interpretado por Caco Monteiro, vai ganhar as casas de espetáculo de Salvador. A peça, que tem direção do inglês John Mowat e iluminação de Jorginho de Carvalho, será apresentada no Teatro Castro Alves (29 e 30 de março) e no Teatro do Sesi, no Rio Vermelho (finais de semana de abril). Depois, segue para São Paulo e outras cidades brasileiras.

Inspirado em acontecimentos reais no Vale do Paty, na Chapada Diamantina, mais do que abordar questões políticas e antropológicas, “Godó” é uma imersão no mundo mágico de uma região que se manteve praticamente isolada da civilização.

Em entrevista à Magma Press, Caco Monteiro destaca momentos importantes que vão da pesquisa à construção do personagem Godó. No final, como diz o autor, ele se deparou com um texto universal que flerta com o realismo mágico.

 

P – O que inspirou você a escrever Godó, o mensageiro do Vale?

Caco Monteiro – Ouvi falar no Vale do Paty pela primeira vez no inicio dos anos 1990. Naquele período fui visitar meu irmão Marcos, que morava no Vale do Capão. Ouvia dizer que era um vale imenso, de difícil acesso, porém com uma natureza plena de cachoeiras e rios deslumbrantes. Isso me deixou curioso por uma década. Resolvi então fazer uma trilha no Vale do Paty em 2003, e quando lá cheguei, fiquei encantado com a pureza das pessoas e a beleza suntuosa da natureza. Então, ao voltar a Salvador, escrevi um conto chamado Godó. Tudo por causa de uma revoada de milhares de vagalumes que presenciei numa das noites que lá passei. Era um pequeno conto sobre um garoto chamado Godó, que vivia no vale sozinho com a sua mãe e a sua melhor amiga, uma galinha chamada Cócó.  Toda vez que mostrava para alguns amigos atores, eles me diziam que eu deveria encená-lo. Porém, eu sempre desconversava. Depois de um tempo comecei a desenvolver um projeto chamado Eu sei quanto vale, que consistia em fazer uma pesquisa mais profunda com o objetivo de desenvolver um texto de teatro, por via de entrevistas filmadas com os moradores do vale e, numa segunda fase, transformá-las em um documentário chamado Patyzeiros.  A terceira fase do projeto, no caso, seria a edição de um livro chamado Eu sei quanto vale com o texto teatral  Godó, o mensageiro do vale, além do meu diário de campo, repleto de elementos da minha pesquisa. Fiz o projeto e o inscrevi em um edital de uma bolsa de artes, porém não fui contempladoO guardei então numa gaveta durante 12 anos, até que no final de 2014, resolvi encená-lo com recursos próprios.

– Como foi a pesquisa, a imersão no mundo do Vale do Paty?

Caco Monteiro – O primeiro passo foi conseguir um (a) guia que conhecesse o lugar e as pessoas mais antigas do Vale do Paty, pois o meu recorte sempre foi saber a história do vale antes de virar uma reserva ecológica. O foco da minha pesquisa era buscar fatos e histórias reais que aconteceram no período anterior ao parque nacional. Conheci Diana Almeida, a guia que eu precisava e que foi fundamental para o desenvolvimento da minha pesquisa. Com um celular e uma câmera GoPró, entramos no Vale do Paty, e  conseguimos entrevistar os anciãos, que nos indicaram outros patyzeiros antigos que já haviam deixado o vale  e que se encontravam nos entornos, nas cidades de Andaraí, Mucugê, Guiné e, também, em alguns povoados como Esbarrancados. Foram quase 20 horas de conversas gravadas, as quais se fizeram fundamentais para a elaboração do meu texto teatral.

P – Godó é o seu primeiro texto voltado para o teatro. Quais foram as dificuldades em escrevê-lo?

Caco Monteiro – Sou formado no curso de Comunicação com a habilitação em Cinema e Vídeo da FTC, e isso me ajudou muito no conhecimento da narrativa de uma história ficcional. Eu havia estudado Letras na Ufba e História na Ucsal antes, e ao longo da minha carreira, fiz cursos de teatro com o ator Sergio Britto no Rio de Janeiro e de roteiro cinematográfico com Orlando Sena em LençóisComecei a minha carreira artística como ator de grupos de teatros, participei de três (Livre Teatro Livre da Bahia, Troca de Segredos em Geral e o Lanavevá, os dois primeiros na Bahia e o terceiro no Rio de Janeiro). O coletivo sempre esteve presente na minha vida artística nos anos 80 e foi no coletivo que expandi o meu conhecimento para a produção teatral também. Sou um amante da literatura de Guimarães Rosa, do colombiano Gabriel Garcia Marques, do argentino Jorge Luiz Borges, do mexicano Juan Rulfo, do espanhol Ramón Del Valle-Inclán, autores do gênero literário realismo mágico. Paralelo a isso, sempre fui fã das bandas de rock como Led Zepellin e Pink Floyd com as suas líricas psicodélicas de forte influência da cultura do povo celta. Creio que o texto Godó, o mensageiro do Vale, traz uma forte influência desses mestres literários e musicais. Mas a minha maior dificuldade mesmo, falando com sinceridade, foi aceitar o desafio de estar em cena sozinho, assim como escrever um texto teatral e ter a capacidade de desenvolver um monólogo num formato que houvesse diálogos para o meu conforto cênico. Depois que fiz a pesquisa com Diana no Paty, aluguei uma casa no Vale do Capão durante um mês para escrever o texto do espetáculo a partir do meu conto ficcional e dos relatos reais das minhas entrevistas com os patyzeiros. Criei um personagem invisível chamado Biziu, que me inspirei nas “mutucas” que existem no vale e que sempre te acompanham com o seu zunido depois de um banho de rio. Biziu é quase um alter ego de Godó, é o seu pensamento e o seu olhar para a vida. Depois que criei o Biziu, vieram os diálogos dos outros personagens entre si, e aí ficou mais fácil.

P – Godó é um espetáculo existencial e ao mesmo tempo político, que resgata uma tradição que parecia perdida na dramaturgia brasileira?

Caco Monteiro – Quando comecei a minha pesquisa descobri que até o final dos anos 60 viviam duas mil pessoas no Vale do Paty. Eles tiravam o sustento das roças de café e de banana. O café de lá era considerado de qualidade. No final daquela década, para favorecer os cafeicultores do sul e do sudeste, que perdiam dinheiro por conta das geadas nas suas plantações, o governo militar praticamente obrigou os patyzeiros a livraram-se de seus pés de café, alegando que eles seriam devidamente pagos pelo valor de mercado, mas com uma ressalva: quem os arrancasse não poderia mais plantá-los novamente. Alguns aceitaram, enquanto outros não. Os que aceitaram a imposição do governo militar tiveram que abandonar as suas terras e foram jogados para fora do vale. Godó é um personagem de resistência. Procurei trazer para cena o conflito existencial de um velho de noventa anos, o último sobrevivente de uma comunidade de duas mil pessoas, que por via do formato flashback, narra o que aconteceu com ele e a sua comunidade extinta. Na minha pesquisa busquei fatos políticos reais que ajudaram na narrativa do conflito. Paralelo a isso, procurei trazer para o jogo cênico, a essência do teatro, onde o ator é o centro da cena, sem nenhuma tecnologia digital visual como muleta. Favoreci, sim, os gestos e as palavras como fontes de emoção da narrativa cênica.

P – A peça é um monólogo, mas, nela, você se desdobra em vários personagens, não?

Caco Monteiro – Sim, eu interpreto um velho de noventa anos, o narrador da trama, e, usando do recurso do flashback, faço o mesmo personagem do velho na sua infância, com nove anos de idade, a sua mãe, o seu pai e uma galinha, que é a sua melhor amiga. Criei também Biziu, que é um personagem invisível que Godó se comunica só por pensamento quando criança.

P – Qual foi a reação da comunidade do Vale do Paty ao assistir ao espetáculo?

Caco Monteiro – Foi uma noite mágica, acendi uma fogueira, sob uma linda noite de lua cheia, coloquei os nativos de três gerações do Vale do Paty ao redor e encenei o espetáculo. A verdade é que me senti um ancião de uma aldeia contando a história de seu povo para seu próprio povo. Eles nunca haviam assistido um espetáculo de teatro, e a história chegou nocoração de cada um deles, principalmente das crianças. Foi lindo, pois no outro dia, no café da manhã, eles se aproximaram de mim para cantar a música do espetáculo e falar sobre o vagalume.

P – Você acha que Godó é uma peça universal?

Caco Monteiro – Creio que sim, pois a ganância é um tema universal, a pureza d’alma é um tema universal, a amizade é um tema universal e tenho todos esses temas dentro do meu espetáculo inseridos na trama. Vou saber mesmo quando apresentá-lo em outras aldeias. Aliás, quer saber mesmo? Eu acho que é universal porque toca no coração das crianças. Isso é fato.

P – O diretor da peça é o inglês John Mowat. Você pensa em encená-la na língua de Shakespeare?

Caco Monteiro – Antes de qualquer coisa, vou falar para você como JohMowat se tornou o diretor de Godó, o mensageiro do Vale. Numa das edições do Fiac – Festival Internacional de Artes Cênicas, aqui em Salvador, fui assisti uma encenação do renomado grupo português Chapitô, o espetáculo Édipo de Sófocles e fiquei de cara. Pensei, cara é esse teatro que acredito, o teatro na sua pura essência, no qual o que importa é ator e o texto, sem cenário, sem iluminação cênica, sem música, somente os atores e o texto. E mais ainda, eles haviam desconstruído uma clássica tragédia grega e transformado numa grande comédia inteligente. John não havia acompanhado o grupo naquela edição. Um ano depois, numa nova edição do Fiac, ele veio dar um workshop chamado Teatro Físico e Visual. Eu me inscrevi e era um dos poucos atores que falava inglês fluentemente. Isso facilitou muito a minha comunicação com ele. Durante o workshop nos divertimos muito e ficamos amigos. Dois anos depois, eu tive que pernoitar em Lisboa vindo de Paris. Como tinha o dia inteiro e a noite em Lisboa, resolvi conhecer a sede do grupo Chapitô. Cheguei à sede e eles estavam ensaiando uma versão cômica do O Corcunda de Notre Dame. Passei à tarde com a barriga doendo de tanto rir. Depois do ensaio, sentamos num bar e comecei a falar de Godó e disse que adoraria que ele dirigisse. Para minha surpresa ele aceitou o convite. Voltei para o Brasil e comecei a tocar a produção dos ensaios. O primeiro passo foi pedir ao meu filho Matheus, que cresceu e estudou em Nova York, para traduzir o texto para a língua inglesa para que John pudesse ter noção do texto do espetáculo.  John é um diretor inglês que trabalhou 16 anos com o Chapitô e nunca se interessou em aprender a língua portuguesa. Eu vi naquela tarde da sede do Chapitô que eles ensaiavam em inglês e depois que faziam a versão em português. Durante os nossos ensaios no Vale do Capão, eu ensaiava primeiro em inglês e depois em português. Foi um processo muito louco para mim, mas me trouxe uma possibilidade real de encenar o texto em inglês. Porém, gosto de encenar na minha língua original.

P – O que John Mowat acrescentou  a Godó?

Caco Monteiro – John trouxe com o seu processo o Teatro Físico e Visual, a transformação dos meus cinco personagens por via do corpo, da voz, da postura, do gestual, do andar e do olhar. Isso foi fundamental para a minha encenação. Outro fator que me ajudou bastante ao longo do processo de ensaios no Vale do Capão foi o workshop que ele produziu para os artistas locais. Fui seu assistente/tradutor, e isso me ajudou muito a ter um olhar de fora. Ao seu lado pude perceber o processo de desconstrução que ele propunha com os exercícios cênicos na eliminação dos vícios dos atores, tornando a cena mais verdadeira. Outra pessoa que foi fundamental no meu processo de construção do espetáculo foi Mauricio Assunção, diretor/ator baiano, que residia no Vale do Capão na época. Antes de o John chegar, fiz uma “residência artística” na sua casa durante um mês, onde eu morava num trailer e ensaiávamos osprimeiros passos do “Godó” num “iglu de tijolo”, ambos dentro da sua residência, todos os dias, preparando as variações do corpo e das vozes dos personagens. Um ano depois dessa primeira fase com Mauricio e John, trabalhei com a minha professora de pilates, Thaís Bandeira. Ensaiamos durante um mês na sala de ensaio do TCA e levantamos o espetáculo, já com a trilha de Leco Brasileiro. Daniela Steele foi fundamental na construção do cenário e na identidade visual rupestre que queríamos imprimir na encenação. O arremate final foi trazer do Rio de Janeiro para o Vale do Capão o renomado iluminador/diretor Jorginho de Carvalho, onde construímos toda a carpintaria cênica e dramaturgia geográfica da encenação; o encontro da iluminação, da trilha, das palavras e do olhar dos personagens para que se encaixassem perfeitamente dentro do texto do espetáculo.

P – Então “Godó” faz parte do gênero do Teatro Físico e Visual, não?

Caco Monteiro – Totalmente! O método “Teatro Físico e Visual” de John Mowat foi a base de tudo. No fundo, como autor e ator do texto, eu sabia o quequeria por todo instante. Confesso que fui muito feliz ao escolher os profissionais de cada setor da encenação que trouxeram o seu conhecimento e que me ajudaram muito nas resoluções cênicas, cada um na sua área de sabedoria.

P – Fale do seu processo de interpretação. Você vai do método de interpretação brechtiana ao método de Stanislavski. Como se dá tal processo?

Caco Monteiro  Teatro é ensaio, é construção a cada dia. Não me preocupei com uma metodologia específica. Trabalhei, sim, a partir da perspectiva do Teatro Físico e Visual” de John Mowat. Se tiver que descrever “Godó” academicamente, ai meu Deus, creio que o espetáculo tem uma narrativa brechtinianae uma interpretação stanislavskiana, se é que existe essa mescla. Ele tem o distanciamento do personagem central, o narrador, e a memória emotiva dos personagens secundários.

P – Você é um ator experiente, com uma larga carreira na televisão e no cinema. O que é o teatro para você?

Caco Monteiro  Teatro é a arte do ator. Teatro é a minha base. É o meu começo de tudo. Teatro é ao vivo, é palco e plateia em cores vivas, onde o ator não pode errar, tem que estar  todo por inteiro a todo momento, com o seu corpo, com a sua voz, com a sua respiração, com o seu gestual e sobretudo com o olhar verdadeiro dos seus personagens. 

fotos de  Mauricio Requião

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