Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » Godó, o mensageiro do Vale

 

por Caco Monteiro

 

GODÓ é o nome de um personagem que criei há 13 anos atrás, sem saber o real valor dele. Ao longo do tempo, entendi que godó é um alimento de resistência e sobrevivência. Godó é um “purê” de banana verde, que os roceiros do Vale do Paty criaram como uma comida de sobrevivência. Colhiam a banana ainda verde, pois a fome agredia a barriga deles e precisavam comer para parar de doer. Faziam daquela fruta ainda verde seu alimento. Conheci o “godó” quando primeiro cruzei em 2002 o “Portal” entre o Vale do Capão e o Vale do Paty. Portal Místico!

Depois de uma forte subida saindo do Vale do Capão em direção ao Vale do Paty, cheguei num “platô” chamado “Gerais do Vieira”. Uma planície sem fim. Nos gerais, andei, andei, andei, andei e andei durante horas, e pensei, pensei, pensei, pensei e pensei mais ainda em seguidas horas. Enquanto andava, ouvia o silêncio da minha alma me dizendo que precisava dar uma geral de mim mesmo! É mesmo, pensei! Passei 4 dias dentro daquele Vale chamado Paty, subindo, descendo, andando e pensando… pensei!…Andava precisado disso.

Vi vidas de flores lindas…pássaros que cantavam olhando pra mim… quedas d’água que eu nunca havia visto e que molhavam os meus pedaços de Caco… conheci humanos que ainda possuíam a pureza d’alma… vi revoadas de vagalumes que se confundiam com as estrelas no céu… me banhei em rios que corriam por todos os lados e purificavam o meu espírito. Um lugar fora do tempo. Eu respirava a leveza da pura natureza. Meu Deus, que valor tem isso? Pensei!

Quando cheguei em casa de volta dessa mística caminhada, sentei diante do meu computador e comecei a escrever um texto teatral inspirado no que eu havia visto e vivido naquele Vale. Godó, o mensageiro do Vale, nasceu!

A partir do embrião do texto teatral, estendi para um projeto chamado “Eu sei quanto Vale”, uma tentativa de entender os valores da vida, sob todos as aspectos, com o foco maior no valor humano diante da rudeza da natureza. Para entender, escrever, documentar e encenar o valor dessas vidas do Vale, pensei em fazer uma imersão de seis meses numa casa de um cômodo só no fundo do Vale do Paty para criar um texto de teatral, coisa que nunca havia feito na minha vida.

Este texto teatral seria o resultado de uma profunda pesquisa do “modus vivendi” daquelas almas humanas que resistiam em viver nesse Vale, um lugar sem luz elétrica, sem comunicação com o mundo exterior e de difícil acesso… mas com exuberância da natureza plena a sua volta. Queria entender e encenar, pois aquilo alimentava a minha alma artística.

Captura de Tela 2015-06-19 às 15.50.14

 

Essa pesquisa seria documentada através das entrevistas com os moradores e seria transformada, além do espetáculo teatral, Godó, o mensageiro do Vale, num documentário chamado “Patizeiros” e um livro “Eu sei quanto Vale” com o texto do espetáculo e as minhas anotações e observações durante o processo da pesquisa, uma espécie de diário de campo. Formatei o projeto bonitinho e busquei grana para realizá-lo, em 2003. Bimba! Sem sucesso.

Com lágrimas nos olhos, adormeci ele numa gaveta durante 12 anos com a promessa de realizá-lo um dia. Durante essa hibernação, de quando em vez,  eu dava uma espiada nele, expulsava os ácaros de suas páginas e lia com a força d’alma para amigos próximos, e todos, diante da minha da leitura apaixonada, diziam que eu tinha que realizá-lo. Desconversava, não me sentia pronto.

Em Junho do ano que passou (2014), soprei a poeira acumulada pelo tempo de espera e resolvi dar vida ao projeto. Godó vive, pensei, só depende de mim! Em 2015, faço 35 anos de vida artística profissional, e achei de bom tom celebrar com desafios…escrever, produzir e encenar um monólogo. Caralho, que medo!! Tudo muito inédito de uma vez só pra mim! Beleza! Vamos nessa!

Queria aplicar tudo que vivi e aprendi como ator e produtor ao longo da minha carreira artística no meu próximo espetáculo. E Godó, ERA o projeto! Me capitalizei  e adaptei o projeto para os tempos atuais. Primeiro passo: Realizar a pesquisa. O tempo é tudo na vida! Lembra lá atrás que achava que tinha que levar 06 meses de pesquisa e que custava tanto? Pois bem, a mesma pesquisa que pensei, realizei em um mês de imersão no Vale do Capão e no Vale do Paty no último verão, e custou 10% daquele tanto lá atrás. Com uma camera Go Pro  e uma camera de celular, captei 10 horas de entrevistas, histórias contadas e verdades filmadas, que serviram de base para a elaboração do projeto atualizado; um video promocional e um HD de histórias reais para misturar com a minha ficção.

Criei uma fábula recheada de fatos e personagens do Vale, que será encenada primeiro para o povo da chapada em cima de um teatro/carroça, em praças que nunca viram uma cortina se abrir para ser revelada a magia do teatro. Intencionalmente encenarei primeiro para o povo da Chapada Diamantina, para ter a certeza que poderei encenar  para o mundo a verdade pura daqueles seres do Vale do Paty.

Estréia Mundial em Setembro no Vale do Capão, Chapada Diamantina, Bahia.

 

3 Comentários...

  1. Açucena de Lírio disse:

    Assisti ontem à sua peça. Fantástico! Fantástico ator (conseguiu dar conta de todos os personagens, em um monólogo! Isso é coisa de ator de verdade!); ótimo roteiro, conseguiu captar o espírito do lugar. Eu estive lá, e vi e vivi tudo que encena. Só senti falta dos espíritos das florestas (fica aí como sugestão).
    No mais, muito grata pela peça. Ela pintou com a luz das felicidade o meu sábado!
    Tem que ser levada para o mundo!
    Muito sucesso…

  2. julival fonseca de góes disse:

    Caro Cláudio nosso ator maior: Não fosse a inveja o pior dos sete pecados capitais diríamos o que sentiríamos de você por esta invulgar proposta. Não nos surpreende:sabemos ser você um ator nato! Dentre os melhores! Por isso, nossa crescente admiração por você e mais ainda por esta nova propositura. Sinceramente ó que gostaríamos de ter realizado coisa senão igual( nos falta o talento para tanto), ao menos na mesma direção com cenário, atores e atrizes de nosso causticante sertão.Quando será realizado? Caso haja um processo seletivo , nos candidatamos a servir a água de beber. Afinal, o que não faltará nas paisagens paradisiasas onde será desenrolada a “trama” serão subidas, descidas ingremes e muita sêde. Portanto, haja água de beber…Também é o que não falta(AINDA) na região da Chapada.Já tô com sêde…de assistir ao espetáculo…
    Nossa irrestrita solidadriedade. fraternalmente, Julival Fonsêca de Góes( ator da próxima reencarnação)

Deixe um comentário