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por Jorge Alfredo
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Conheci Joel de Almeida em 1987, quando fizemos juntos uma série de viagens ao semiárido baiano registrando em video as manifestaçoes artísticas de Uauá, Monte Santo, Euclides da Cunha, Curaçá e Juazeiro, entre outros municípios, para o programa Reconstrução, da SeDeS, no Governo Waldir Pires. Depois estivemos muito perto durante as realizações de alguns dos seus filmes. Um deles, sobre o antigo cinema de Nazaré, o Rio Branco, e o vi sofrer muito quando ele soube que boa parte dos negativos 16mm haviam sido colocados erradamente invertidos no chassis da câmera Atton, recém adquirida pela Truq. Foi uma loucura perder todo aquele trabalho… Em Os Sete Sacramentos de Canudos fizemos, ambos, episódios no sertão de Canudos.
E sofremos juntos com aquele produtor alemão trapalhão, e, pra compensar, nos deliciamos com a doçura e o talento de Peter Przygodda.
Joel é um cineasta de detalhes e nuances muito originais, um incansável, que mesmo com aquela  aparente languidez,  está sempre produzindo um filme novo.  Xisto Bahia, isso é bom / Preto no Branco / Resistência do sonho /Hansen Bahia / Penitência do médio São Francisco…

Mas é incrível que quase nada se tenha escrito sobre Joel de Almeida e seus filmes. Até mesmo foto dele é muito difícil de encontrar, apesar de tantos festivais e prêmios… Desde que lancei o Caderno de Cinema, um ano atrás, que eu tento seduzir Joel a escrever; está demorando, mas continuo no aguardo. Enquanto isso, segue, abaixo, um texto de Raul Moreira sobre Cuíca de Santo Amaro, onde há algumas, das poucas e raras declarações desse meu querido amigo. E faço aqui uma provocação; quem se habilita a escrever sobre os filmes de Joel?

 

 

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O emblema Cuica de Santo Amaro

 

por Raul Moreira

 

 

Lá pela metade dos anos 2000, separadamente, o cineasta Joel de Almeida e o jornalista Josias Pires começaram a desenvolver projetos que tinham como objetivo descortinar um personagem emblemático que alimentou o imaginário popular de Salvador no século passado, conhecido como Cuíca de Santo Amaro. E quis o destino que os dois unissem forças e transformassem os seus desejos em uma árdua pesquisa que acabou resultando em um documentário financiado pela Petrobras.

Já visto em São Paulo, no Festival É Tudo Verdade, Cuíca de Santo Amaro será projetado pela primeira vez na Bahia no Festival Cine Futuro – VIII Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual. E, naturalmente, o filme, em película e com pouco mais de 1 hora e 15 minutos, tem importância não apenas pelo fato de se constituir um importante documento a respeito de um personagem que merecia aprofundamento, como, também, pela forma através da qual a dupla de autores o construiu.

Dispondo apenas das imagens da participação de Cuíca de Santo Amaro no filme A Grande Feira, de Roberto Pires, lançado em 1961, no qual ele aparece no início e no fim, além de poucas fotos e de nenhum registro sonoro, Pires e Almeida foram hábeis em construir o roteiro com elementos visuais e auditivos que supriram essas ausências: a velha Cidade da Bahia foi apresentada em um belo preto e branco, animações dão sentido a certos discursos, enquanto um ator, de forma convincente, fez a voz de Cuíca, recursos que, associados aos depoimentos dos entrevistados, compuseram o mosaico apurado do personagem.

A respeito da questão, Pires indagou: “Como fazer um filme longa-metragem sobre um personagem de quem temos pouquíssimas imagens? Esta pobreza imagética nos impôs definitivamente o viés do personagem cronista social, Cuíca cronista da cidade da sua época. E daí fomos buscar os arquivos disponíveis com imagens da Cidade da Bahia de Todos os Santos das décadas de 1930, 40, 50 e 60 e cruzá-las com os assuntos trazidos pelo personagem”.

Mas quem é Cuíca de Santo Amaro? No documentário há uma inclinação maior em apresentá-lo como “um herói do povo, um poeta de língua maldita que usou o seu talento em defesa dos interesses populares”, como afirmou Joel de Almeida. No entanto, algumas brechas dão a entender que Cuíca era também um manipulador, um tipo que fazia o seu interesse e o interesse de quem lhe pagasse, como afirmou Pires: “ele também era um anti-herói que trafegava por terrenos complicados”.

Como reconheceram os dois autores, ainda hoje a figura de Cuíca de Santo Amaro gera polêmica, por representar o arquétipo do herói e ao mesmo tempo de alguém pouco recomendável na cabeça de quem o conheceu. “Houve quem se negasse a falar sobre ele, por considerá-lo um personagem maldito e que feria a noção de boa conduta naquela época”, diz Josias Pires.

No entanto, exceção de um e de outro depoimento, como o do jornalista Mino Carta, que se deu a um bom-mocismo ao julgá-lo sem o devido conhecimento de causa, a montagem, claramente, favoreceu a construção da identidade de Cuíca como um simpático, um zombeteiro, um Gregório de Matos sem a boa pena, um que se travestiu de “veículo de comunicação” ambulante para informar ao seu modo em uma Salvador que era praticamente analfabeta.

Em um artigo publicado no online Caderno de Cinema, Josias Pires chega a afirmar: “A realização de um documentário, lembra o mestre Eduardo Coutinho, é operação bastante arriscada, pois você começa e não sabe aonde vai exatamente chegar. É a forma vazia, segundo Geraldo Sarno. O filme muda a cada momento em que está sendo feito, desde a concepção, aos primeiros argumentos e roteiros até o último minuto estamos fazendo ajustes, é sempre uma obra inacabada”.

A respeito do discurso segundo o qual o documentarista brasileiro muitas vezes não consegue se distanciar do objeto de apreciação e acaba por mascarar o seu sentido de realidade, Joel de Almeida acredita que Cuíca de Santo Amaro reflete a tendência de uma pesquisa: “A inclinação da montagem seguiu uma linha, um pensamento que se apresentou favorável a Cuíca e que apontou para a compreensão e a importância dele no seu tempo, na realidade de sua cidade”.

Na verdade, a pesquisa da dupla, que inicialmente passou pelos escritos de Edilene Matos, que lançou O Boquirroto de Megafone, e do brasilianista norte-americano Mark J. Curran, autor de Cuíca de Santo Amaro Poeta-repórter da Bahia, uma vez sintetizada em audiovisual foi importante não apenas para compor o personagem, mas, também, por revelar um verdadeiro mosaico antropológico e sociológico da Cidade da Bahia. E, através dele, pode-se compreender as belezas e misérias da cidade e de sua gente tempos atrás, as quais parecem iguais aos dias de hoje.

De tão rica a pesquisa, a dupla Joel de Almeida e Josias Pires corre atrás de recursos para apresentar nos extras na versão DVD do filme uma síntese das 50 entrevistas realizadas. Será mais uma oportunidade para conhecer novas facetas de Cuíca de Santo Amaro, o poeta-repórter que alegrou e infernizou a vida da Cidade da Bahia em seus tépidos tempos de província.

 

 

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