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Jonas e o circo sem lona: o documentário e os caminhos da memória e da afetividade

 

 

por Carollini Assis

 

O ano era 1987, bairro da Vila Operária, em Valença. O circo tinha enfim chegado à cidade, depois de alguns dias do carro de som rodando pelas ruas e avisando das grandes atrações: o elefante e o atirador de facas! O sonho de qualquer criança era assistir ao espetáculo, claro. Lá em casa não havia promessas: eu não iria e ponto final. No primeiro dia, todos os amiguinhos só falavam no elefante, na beleza da trapezista e seu collant de pedras preciosas (seriam diamantes?) e no atirador de facas que não acertava uma no alvo (se acertasse seria uma tragédia!). Levei alguns dias emburrada, também gostaria de contar que vi o elefante a meus amigos. Eu não lembrava disso até assistir a Jonas e o circo sem lona, de Paula Gomes e do coletivo Plano 3 Filmes.

Ao documentar o amor de uma criança pelo circo, Jonas e o circo sem lona torna-se universal na medida em que fala sobre sonhos, liberdade, infância e afeto. Traz a memória não apenas como objeto documental, mas como efeito de uma prática cinematográfica que coletiviza e intersecciona a nós, indivíduos díspares. As lembranças vêm à tona diante dos mais diversos elementos presentes na narrativa. Uma memória do afeto mapeada pela arte circense e sua costura com a arte da vida. São diversos os depoimentos nas páginas do filme e dos integrantes do Coletivo Plano 3 que comprovam o diálogo estabelecido entre público e obra.

Jonas quer viver no circo da família, a mãe não permite. Quer libertar-se da escola, a sua antagonista secundária, a que subjetivamente age sobre a mãe e seu poder de veto. É importante destacar que o filme depara-se com a realidade de uma práxis educacional e um sistema pedagógico falido, que não acolhe o estudante em suas particularidades. A narrativa também localiza o circo em seus territórios díspares: a infância, o mundo adulto, o sonho e o deslocamento.

Jonas quer libertar-se da autoridade impositiva da mãe. Jonas tem uma avó que lhe consola e lhe incentiva, ajudando no cirquinho montado no quintal de casa. Jonas sonha com o dia que poderá voltar para o circo do tio. Os amiguinhos das redondezas fazem parte de uma trupe que se desvencilha no decorrer da narrativa. A equipe que o acompanha por meses na gravação também terá que partir.

O menino Jonas, sempre questionador, encara a solidão. Sente dor, uma dor que não é física, íntima, particular. Sequências belíssimas de um filme que nos impõe a reflexão sem dosagens de pieguice e que revelam a mão firme da diretora diante da estrutura narrativa e da maturidade do olhar para a realidade que tem em mãos, bem como a mão consoladora de uma diretora cujas intervenções são decisivas em momentos de fragilidade emocional do protagonista.

Minha avó, também piedosa e uma curiosa pela vida, consolou-me com um segredo que seria só nosso: disse que me levaria ao circo sem ninguém saber e diante da promessa de que me comportaria (ela também me levava escondida para acompanhar os trios elétricos nas micaretas, mas essa é outra história). Ficamos a uma distância bem grande do palco, pude ver o elefante, achei gordo, grande e feio! Preferiria, à época, um leão. Os olhos espantados acompanhavam as facas a encravarem-se numa tela desenhando as laterais do corpo de uma mulher e vi também um palhaço puxando a orelha de um palhaço criança porque errara uma piada. Não pude contar a ninguém que estive no circo, minha alternativa foi dizer que sonhei. E assim meus amiguinhos acharam que eu era portadora de poderes especiais porque descrevia tão bem quanto eles tudo o que acontecia no picadeiro.

Foram essas as lembranças sedimentadas no terreno da dispersão que Jonas e o circo sem lona trouxeram à tona. Quando saí da sessão, emocionadíssima com o que vi, estava inebriada das lembranças de tudo aquilo que é costurado pelo “fio da temporalidade”: mãe, avó, família em geral, escola, amigos, sonhos, o quintal de casa, a castanha assada, as frutas das árvores, os cheiros, as cores, a professora, o primeiro amor, as primeiras decepções, até chegar ao adulto que somos.

Esses adultos e crianças deveriam ir ver Jonas e o circo sem lona. O longa já percorreu mais de 30 festivais e levou prêmios no México, nos Estados Unidos, na Espanha, na França, no Brasil. Foi o único representante latino-americano no IDFA – International Documentary Film Festival Amsterdam. Recentemente foi vendido para um canal da Coréia do Sul. Segue em cartaz no circuito Sala de Arte, em Salvador. Vale o olhar atento na película. Vale olhar para si mesmo.

 

fotos de Haroldo Borges

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