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Por Luiz Zanin

 

“Sossegue, isso nunca vai acontecer aqui”, garante a menina.

E, alguns versos adiante, o desfecho, seco: “Cuidado, aconteceu com ela/O que não ia acontecer aqui”

Suave Distopia, chama-se a canção, parceria de Jorge Alfredo e João Santana. Título do álbum (ainda é assim que se diz?), que marca o retorno de Jorge Alfredo à música.

Como o romance de Chico Buarque Essa Gente, Suave Distopia é um comentário sobre o Brasil contemporâneo. Brasil, esse país que aprendemos a amar e nos roubaram. País onde, assim julgávamos, jamais aconteceriam fatos que hoje se tornaram corriqueiros, turvam nosso presente e ameaçam o nosso futuro.

Conheci Jorge Alfredo em tempos melhores. Bem melhores, aliás. Foi numa fila para a apresentação da extraordinária cantora cubana Omara Portuondo, em Havana, no Hotel Nacional. Ano 2000, se não me engano. Conversamos muito, ficamos amigos, tomamos umas biritas, mas ele não me disse que era músico, ou cineasta.

No ano seguinte, Jorge apresentou seu documentário Samba Riachão, no Festival de Brasília, o mais importante festival de cinema brasileiro do calendário. Empolgou a todos, pelo filme e pela presença do grande Riachão, àquela altura um menino de 80 anos, gastando energia e alegria de viver. A apresentação do filme, e depois a homenagem a Riachão, que cantou a capella para o público, foi inesquecível. E o filme venceu a competição (dividindo o prêmio principal com Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho).

No ano seguinte, 2002, estivemos juntos em Portugal, num festival de cinema em Setúbal, o saudoso Festival de Troia. Convivemos muito. Era tempo de Copa do Mundo e vimos juntos alguns jogos naquele início da campanha do Penta. Naquela época vestir camisa amarela não era vexame e nem uniforme de fascista aprendiz.

Com o convívio, fiquei conhecendo melhor a relação de Jorge Alfredo com a música, de uma intimidade visceral, mais antiga ainda que com o cinema. Por seu intermédio, ouvi o fantástico álbum Bahia Jamaica, sua parceria com Chico Evangelista. Tornou-se um dos meus discos de cabeceira, antídoto seguro contra o estresse paulistano (Eu me considero um paulista civilizado pela Bahia, com estágio em Arembepe).

Com o tempo, Jorge Alfredo foi me mostrando suas outras músicas e, conhecendo melhor seu trabalho, sempre me perguntava como tal talento não era mais conhecido. Pelo menos aqui, no tal do “sul-maravilha”, como ironizava Henfil.

A descoberta mais recente foi da irônica Rato Miúdo, composta em plena ditadura e inspirada pelas palavras inscritas no certificado de reservista do autor: “por ter sido julgado incapaz definitivamente, podendo exercer atividades civis”. Era para ter sido incluída no álbum Refazenda, de Gilberto Gil, mas a censura vetou. Ouvia-a, deliciado, na voz de Gil, em vídeo no Youtube. Estava inédita fazia 41 anos.

De modo que, em meio a tantas más notícias neste tempo infeliz, uma boa nova nos chega: a volta de Jorge Alfredo ao mundo musical, com o lançamento do seu disco Suave Distopia.

A música-título é aquela dos versos que abrem este texto. Já a ouvi várias vezes e acho-a impressionante, de tão boa e oportuna. Letra e música fazem um desses casamentos perfeitos em que uma parte potencializa a outra.

É obra forte, que dá seu testemunho simbólico sobre o tempo em que vivemos. Da mesma forma que o já citado livro de Chico Buarque fala da chegada “dessa gente” que nos surpreendeu a todos. Como se o país tivesse sido invadido por seres alienígenas. Ou uma súbita mutação houvesse alterado o DNA de um povo bem ou mal tido como cordial, feliz e hospitaleiro, além de criativo e inteligente. Ou teria sido um vírus?

Suave Distopia nos ajuda a compreender – e enfrentar – esse tempo. Expressa-se num oxímoro, pois, para o senso comum, distopias nunca podem ser suaves. Mas, na prática brasileira, os termos se subvertem e golpes são dados em nome da democracia. Matam-se mulheres por amor a elas. Assassinam-se os diferentes em nome da moral. Invadem-se as terras indígenas para civilizá-los. E assim por diante.

A letra dura da canção adere, por fricção, à elegância da melodia e causa um raro impacto no ouvinte. A função do artista não é nos alienar da realidade, mas reinterpretá-la de forma poética. Para torná-la mais clara.

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