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Do menino pródigo de Umbertolândia

 

 

por André Setaro

(escrito em julho 2008)

 

Em Umbertolândia foi onde nasceram os Umbertos. Cidade com vales sombrios, vegetação rasteira, terra de tabaréus, ribeirinha, de vez em quando, no entanto, aparecia um filho pródigo. Um deles, José Umberto, que tem acoplado, não se sabe como, um Dias, virou escritor e cineasta. Sonhava em fazer filmes e conseguiu realizar os seus devaneios adolescentes. Jovem, saiu de Umbertolândia, que fica na divisa imaginária entre a Bahia e o Amazonas, a se ver o surrealismo da localização geográfica, e estudou em Salvador, onde conheceu alguns pretensos aspirantes ou vestibulantes a cineastas, com os quais fez amizade. Mas o modelo clássico griffithiano não
o entusiasmava e queria porque queria, como criança que quer um doce proibido, quebrar as estruturas de linguagem. Ao conhecer Sergei Eisenstein, admirou-se e babou-se e pensou ter descoberto o barril de pólvora. … neste que vou me apoiar para meus projetos, pensou. Conta-se que, aos 19 anos, aborrecido com o romance realista e linear, cortou o livro que lia e o montou desordenadamente, embaralhando, e não estava em jogo de baralho, os capítulos.

Seu primeiro trabalho direcional foi mais um experimento em grupo, mas as coordenadas partiram do filho pródigo de Umbertolândia. Ficou um tanto aborrecido com a impossibilidade de estraçalhar um roteiro feito a sete mãos e se viu obrigado a filmá-lo tal como se encontrava escrito. O resultado: Perâmbulo, que conta a fábula de um pária da vida a perambular, easy reader, pelos becos e ruas da cidade de Salvador à procura de um prato de comida. Quando, finalmente, consegue-o ter em mãos, roubando-o de uma mesa de restaurante, um carro vem a lhe atropelar a fome e a vida. Imbuído dos símbolos e das metáforas eisensteinianas, influenciou um jovem colega e, com ele, realizou O doce amargo, cuja estrutura audiovisual já insere figuras de linguagem. A época apontava no sentido da busca de temas que focassem a miséria e a vida dos menos aquinhoados pela sorte, como o personagem central desse filme, um vendedor de pirulitos que é atropelado em frente a uma companhia de seguros. Seu anjo da guarda, Benedito D’Umberta, padroeiro de Umbertolândia, soprava-lhe no ouvido da necessidade de realizar obra mais autoral. A parceria com o colega fez água, pois este tomou o filme para si, deixando a Umberto uma câmera velha e quebrada como lembrança e como prêmio de sua colaboração.

Corre o ano de 1968. Este que narra a história se lembra que foi, um dia ensolarado de domingo, acompanhando o amigo, a uma casa em Brotas onde um indivíduo mal ajambrado vendia latas de negativo em 16mm, que o nosso herói precisava para fazer Voo Interrompido. As filmagens tiveram início no polêmico ano de 1968, mas o filme foi finalizado no ano seguinte. Influenciado pela estética pasoliniana, o habitante pródigo de Umbertolândia optou por dar ao filme uma estrutura complexa de inserção, a misturar tempos psicológicos dentro de um grande flash-back. A geografia da ação é decomposta em flashes memorialísticos, figurativos de momentos da vida de uma puta-de-esquina que, saindo de sua cidade interiorana miserável, vai para a cidade grande tentar a vida e acaba em louco e rodopiante suicídio do alto de um edifício. O emprego que encontra é de empregada doméstica, de graxeira, e a nova vida lhe é madrasta, vítima dos homens, das circunstâncias, e a um passo da prostituição, dão para entrar nela de corpo mas nem totalmente de alma. A desilusão e o desespero conduzem-na à morte. Na estrutura do filme, há enxertos surrealistas (a cruz de cabeça para baixo, com uns tantos samaritanos enlouquecidos a gritar enquanto se vê a pobre mulherzinha pendurada de cabeça para baixo nessa mesma cruz). E por falar em cruz (Umbertolândia, graças a Deus, não se chama Cruz das Almas), esta cruz da diegese, na verdade, era uma cruz que, na realidade da vida, ficou encostada por quase um ano no meio da escada da saudosa casa onde morava este historiador, para desespero da sua santa mãe, que, num belo dia, chamou um gari da prefeitura, para jogá-la no lixo das almas.

A história, porém, ainda nem começou.

 

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