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por Sylvio Back

 

 

Algo que pareceria impensável deixou soberbos rastros históricos e não só acabou acontecendo, como está registrado em dezenas de livros e anotações ainda por serem publicadas. Da gélida e sombria Copenhagen à friorenta e luminosa Curitiba (PR), Soren Kierkegaard (1813-1855), praticamente um século depois, teve seu tormentoso périplo existencial introjetado e reimaginado por um brasileiro nos anos 1950/1980, fato único na América Latina.

Na hora em que se assinalam os 200 anos de nascimento (ocorrido dia 05 de maio último) do genial escritor, teólogo e filósofo dinamarquês, mote de importante seminário sobre sua vida e obra, recém concluído na Academia Brasileira de Letras (RJ), coordenado pelo poeta Marco Lucchesi, com brilhantes palestras dos acadêmicos Eduardo Portella e Sérgio Paulo Rouanet, e dos professores Emmanuel Carneiro Leão e Vamireh Chacon, o nome de Ernani Reichmann (1920-1984), hoje desconhecido, mas a propósito dessa “data redonda” vem a lume com sua multifacetada obra (quase cinquenta títulos), tanto de ensaios, memórias e diários, quanto ficcional.

 

Obra pioneira

 

Natural de Erechim (RS), escritor, filósofo, professor universitário e homem público no Paraná (secretário de Estado do governo Ney Braga (1961-1965), Reichmann é o primeiro biógrafo de Kierkegaard no Brasil e do continente americano, como também aquele que, de forma inédita e inaudita, arriscou-se a reviver seus “temor e tremor” debaixo da linha do Equador, inclusive, aprendendo a língua do mestre para lê-lo e reinterpretá-lo no original.

Publicada em 1972 pela Edições Jr., de Curitiba, com sua alentada biografia (403 págs.) “Soren Kierkegaard” (cuja pronúncia castiça do nome Kierkegórd foi sublinhada pelo crítico e ensaísta, Eduardo Portella), Ernani Reichmann entrou para a história da cultura brasileira e mundial. Ainda que muitos kierkegaardianos, desde então, venham bebendo em seus textos e traduções, registra-se um triste hiato em reconhecer-lhe a estatura intelectual e o investimento sensorial nas volições, medos e sonhos de seu mestre.

Mesmo que tanto criador como suas criaturas permaneçam na obscuridade e à luz somente para eméritos kierkegaardianos como o Álvaro Valls, um dos fundadores da Sociedade Kierkegaard do Brasil (que Reichmann alcunhava de “kiekegaardiano de escola”, já que ninguém experimentara como ele “transfigurar-se” na angústia de Kierkegaard); Jorge Miranda de Almeida, Márcio Gimenes de Paula, entre outros, são do crítico Alceu Amoroso Lima (1893-1983), então    membro da Academia Brasileira de Letras, os primeiros escritos sobre Kierkegaard no Brasil. Seu livro “O existencialismo e outros mitos do nosso tempo” (1951), pelo que me lembro das conversas com Ernani Reichmann, havia um grande respeito pelo mestre católico, mas a diferença entre ambos devia-se a um agnosticismo militante do filósofo curitibano, fruto de seu, digamos, viés contestatória diante da vida em sociedade.

 

“letras e/& artes”

 

Amigo cotidiano de Ernani Reichmann naquelas quadras, à época, jornalista iniciante, almejando ser escritor e cineasta, tive a alegria e a recompensa poética de conviver com ele e seus estimulantes ensaios de fundo e forma kierkegaardianos, muitos deles publicados no suplemento literário “letras e/& artes”, dirigido por mim, e recém replicado em edição fac-similar coincidindo com os cinquenta anos de sua edição (2011).

Os que o frequentavam, éramos todos jovens, belos e irreverentes. Irreverentes, sim, mas nem tanto, visto de hoje, há que reconhecer, uma rebeldia, digamos, às avessas, já que nos alinhávamos a Jean-Paul Sartre, neomilitante do comunismo, tentando conciliar o irreconciliável, liberdade e socialismo real. Coube a Ernani Reichmann, literalmente, nosso “professor” de Kierkegaard e existencialismo francês, também, apaixonado por Albert Camus (do qual, aliás, com sua morte em 1960, o suplemento publicou o discurso de posse ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1957), colocar-se como um pertinente contraponto à nossa heroica radicalidade, que não enxergava o pretume assassino à raiz de toda utopia.

Eu, pessoalmente, era ainda o mais inconteste na defesa de Sartre, cujos romances me conflagraram durante anos (através deles, inclusive, aperfeiçoei meu francês…), pois, como filho de pai judeu húngaro, sua diatribe contra a criminosa invasão de Budapeste pelos soviéticos em 1956 me comoveu durante anos. Até quando Sartre, nos anos 1970, distribuindo jornais maoistas pelas ruas de Paris, foi pejorativamente alcunhado de cochon maoïste… Mesmo assim, com o tempo demolindo certezas pétreas, meu amor por este herdeiro ateu de Kierkegaard jamais arrefeceu!

 

O Outro

 

O poeta e crítico paranaense, Sérgio Rubens Sossélla (1942-2003), ele próprio um “reichmanniano” de carteirinha, como eu, mais pela amizade e respeito pela originalidade de Ernani Reichmann do que propriamente pelo alinhamento à sua ciclópica e perturbadora estante, escreve que o autor “… envolve o leitor na mesma sedução de buscar o Outro de si mesmo”. Era um autor, arremata Sossélla, lastreado em Fernando Pessoa, que não finge a si mesmo.

Na verdade, bem no diapasão metafísico de Soeren Kierkegaard é quando Reichmann tenta “incorporar” feito médium, eu diria, material e espiritualmente, a Angst (angústia) do poeta nórdico, aliás, palavra de sentido multinacional, segundo Vamireh Chacon em sua palestra, pois tanto vale em alemão quanto na Dinamarca, Noruega e Holanda. O gesto lúdico e performático de Reichmann é uma façanha irrepetível, jamais empreendida por ninguém, nem antes nem depois!

Lemos numa autoentrevista, Reichmann tinha consciência que seria reconhecido em algum futuro: “Minha experiência não poderá ser ignorada”. Sabia que o leitor do seu tempo não o lia, não tinha editor, não tinha livreiro, era um autor de seis mil páginas praticamente inédito. Quem sabe os kierkegaardianos brasileiros programem para em 2014 um revival editorial e biográfico de Reichmann na comemoração dos seus trinta anos de morte.

Como homem cordial e conversador, alegre e femeeiro (a ver e haver com o clássico “Diário de um sedutor”, do seu mestre?), era também um renitente solitário. Com as mãos cruzadas atrás, paletó tipo jaquetão, e arqueado para frente, andava a passos curtos pelas ruas de Curitiba como um monge, o chapéu frouxo sobre a cabeça, remoendo um ralo bigode que fazia questão de cultivar aparado.

 

kierkegaardianas

 

O espectro da paixão de Reichmann pelo chamado “pai do existencialismo”, além do volume biográfico fundador, se espelha (não haverá termo melhor que “espelho” quando se trata de Kierkegaard!) por dezenas de cadernos, mas é nos três volumes de “Intermezzo Lírico-Filosófico”, anos 1960, que ele resume toda “kierkegaardiana” de sua lavra e fruto de seu mergulho no universo trágico do autor. Infelizmente, essa ciclópica estante de ensaios, memorialística e romances está fora de mercado, sendo apenas encontrável em sebos, físicos e virtuais, o que não deixa de ser, sim, um atestado de permanência, segundo o poeta, acadêmico e bibliófilo, Antonio Carlos Secchin e, de forma randômica, disponível em bibliotecas de universidades, especialmente, do sul do país.

À época jornalista iniciante, almejando ser escritor e cineasta, e amigo cotidiano de Reichmann, tive a alegria e a recompensa poética de conviver com ele e seus estimulantes ensaios de fundo e forma kierkegaardianos, muitos deles publicados no suplemento literário “letras e/& artes”, dirigido por mim, e replicado em edição fac-similar coincidindo com os cinquenta anos de sua edição (2011).

 

Estirpe moral

 

Ernani Reichmann era da mesma estirpe moral de Kierkegaard, avesso ao “espírito de horda”, equidistante da igreja e da política (ainda que na juventude simpatizante da Ação Integralista Brasileira), e como ele, afeito a pseudônimos e codinomes, antes que aos heterônimos de Fernando Pessoa, como adverte o filósofo Sérgio Paulo Rouanet, para dizer-se múltiplo, controverso, certo “Outro” fake: um homem em permanente estado de graça & desgraça, até nas suas relações afetivas e amorosas, muitas delas marcantes que lhe matizam a própria escrita, toda ela de corte confessional e dialógica como se jamais fosse dada à leitura e à fruição de terceiros.

Há quem diga que Ernani Reichmann é hoje um autor esquecido. Mas, como não lembrar do seu seminal livro, “O trágico em Octávio Faria”, de 1978, onde se detém na expiação da culpa de inspiração “kiergaardiana” em “A tragédia burguesa”? Ou, de “A poética de Carlos Nejar” (1973), coassinado pelo crítico paranaense, Temístocles Linhares  (1905-1993), uma rigorosa exegese do fabro do poeta gaúcho, que ressume laivos da angústia do filósofo dinamarquês? Seria, então, como dizer que Kierkegaard o é também, quando é cada vez mais estudado e reverenciado na academia e fora dela, tal qual sua obra traduzida, lida e relida (como neste potente ciclo de conferências luminares da Academia Brasileira de Letras), sempre mais intensa e extensivamente.

E mais, raro estudo sobre Kierkegaard no Brasil e na América Latina que não o cite e se derrame em loas pelo seu pioneirismo, ousadia e contundência literária e filosófica, materializada em dezenas de livros que vieram a lume por conta própria, ou pela editora da Universidade Federal do Paraná, onde dava aula de economia política no curso de Ciências Econômicas (e fui seu aluno…).

Febre d’alma

 

A própria Dinamarca ficou pasma ao se dar conta que nos longínquos trópicos alguém tentava reproduzir a nebulosa febre d’alma de Kierkegaard, a sua incontornável angústia do existir, o irredutível conflito entre ética e estética, ceticismo e fé, racionalidade e transcendência, o indivíduo e a impessoalidade do coletivo. Como numa gangorra, Reichmann também comprazia-se entre pessimismo e melancolia corrosivos, mas que acabaram por tornar longevos sua vida-e-obra, inesgotável manancial de atualizadas indagações.

É, portanto, através da literatura e do comprometimento com a alta subjetividade de Kierkegaard, seu igual-desigual europeu ( “… ousar é perder o equilíbrio momentaneamente, não ousar é perder-se”), que o Brasil urge reverenciar o gaúcho-paranaense Ernani Reichmann, outorgando sobrevida ao seu engenho e à consciência mítica e crítica protagonizada por ele.

 

 syl

Sylvio Back, cineasta, poeta e escritor, autor de 38 filmes (12 longas-metragens) e de 21 livros (roteiros, poesia e ensaios); prepara o lançamento nacional do filme  “O Universo Graciliano”.

 

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