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por Tuzé de Abreu

 

Em 1959, o diretor de cinema italiano Mauro Bologni fez um filme chamado “La Notte Brava”, que em português recebeu o título de Longa Noite de Loucuras. Pier Paolo Pasolini fez parte da equipe de roteiristas. Numa escala menor, Moacyr Albuquerque (Momó), contrabaixista , compositor, grande amigo e parceiro meu, já falecido, Píti , cantor compositor, também já falecido, Lula Nascimento, baterista, figura lendário no nosso meio musical, que também já se foi, Luís Alberto, ator do grupo do Teatro Vila Velha, não sei dele já há muitos anos e eu, tivemos nossa Notte Brava, acho que no final dos anos de 1960.
Na tal noite, não lembro porque, Píti estava sempre com uma caixa preta nas mãos, semelhante a uma máquina fotográfica e eu com um caderno. Nesse tempo – era inverno em Salvador – minha mãe tricotara para cada um de seus filhos um suéter. Como eu tinha visto numa revista um suéter com gola roulet- muito antes de ser moda – pedi que ela fizesse assim para mim. Ela fez muito bem. Era um suéter verde, com gola roulet. Ninguém por aqui tinha igual. Mas um cantor italiano com o nome meio americano de Jimmy Fontana, estourou com a canção “Il Mondo”, e foi lançado um compacto simples com esta gravação. Na capa havia uma foto dele, que parecia comigo, tendo o mesmo tipo de cabelo, o mesmo modelo de óculos, usando gola roulet. A foto era em preto e branco e não muito nítida, o que acentuava a semelhança.
Nós cinco saímos de um aniversário num edifício no Areal de Cima, perto do Largo Dois de Julho, “round about midnight“, alegres, fazendo piadas, um pouquinho bêbados. Quando chegamos à rua, vimos adiante uma grande briga envolvendo muita gente, garrafadas, socos, pontapés, etc. De repente um tiro. Todos dispersaram. Nós passamos “picados” em direção ao Largo Dois de Julho. Já no Largo, Momó queixou-se de dor de cabeça. Alguém lembrou que o chinês da esfiha, na esquina da Carlos Gomes (existe até hoje , e sou freguês até hoje, só que todos os atendentes atualmente são brasileiros), podia ter Melhoral , Sonrisal, algo assim . Fomos lá. Estava um chinês sozinho no balcão. Quando ele viu aquele bando entrar esbaforido acho que ficou com medo. Momó pediu o remédio, ele , com má vontade e forte sotaque chinês disse: “Non tem, non tem”. Lula que vinha entrando, interpretou que o chinês estivesse destratando Momó. Então pegou a caixa registradora (computador nem pensar), levantou e bateu com ela no balcão dizendo: ” Dingue Lingue f…d….p….”. Foi uma espécie de senha.

Jimmy Fontana

Todos saímos correndo pela rua Carlos Gomes em direção à Praça Castro Alves. Lá, nos lembramos que podíamos entrar de graça no Tabaris Night Club, famosíssimo, onde hoje é o Teatro Gregório de Mattos, porque todos (a exceção de Luís) tínhamos carteira da Ordem dos Músicos. Mas demos um jeito, não lembro qual, e Luís entrou também. Chegando lá , uma das “meninas” presentes quando me viu, com meus óculos e minha gola roulet gritou – Jimmy Fontana !!!. Pronto! Foi uma festa. Assumi que era Jimmy, mas apontava para a garganta para dizer que não poderia cantar porque estava rouco. Luís logo apresentou-se como Luigi Carabinieri, meu empresário. Dei vários autógrafos. Se bem me lembro alguns músicos da orquestra de lá nos conheciam e riram muito. Vale a pena citar dois nomes engraçados. O grande saxofonista Oscar “Bosta de Ema” (já falecido) e o baterista Nelsinho “Cara de Areia” (deste nunca mais soube). Depois de algum tempo lá, saímos às gargalhadas.

Quando começamos a subir a rua Chile para pegarmos os respectivos corujões (eram os ônibus que saiam de hora em hora na madrugada, da Praça da Sé para praticamente todos os bairros da cidade alta) notamos um alvoroço. Pessoas falando alto, algumas correndo para o Terreiro de Jesus. Aí alguém disse: “Incêndio no Pelourinho”. O Pelourinho era muito diferente de hoje. Era um monte de casas velhas decadentes, com muitas prostitutas pobres e algumas poucas famílias, também pobres. Uma daquelas casas estava pegando fogo. Fomos até lá.
Chegamos num certo ponto, havia uma corda de isolamento. Mas Píti teve a ideia. Disse a um dos bombeiros:” Quero falar com o comandante. Somos do jornal A Tarde. Eu sou o fotógrafo (mostrou a caixa preta) e meu amigo é o repórter”. Abri imediatamente o caderno e comecei a fingir tomar notas. O ambiente estava confuso e escuro, por isso não foi difícil enganar. Apareceu o comandante, muito gentil, Píti começou a “fotografar”. Ele arregaçou a calça e mostrou uma ferida causada pela queda de um escombro. Píti “fotografou” a ferida. Fiz algumas perguntas, “tomei nota” de tudo, depois agradecemos e fomos embora para a Praça da Sé, cada um tomar o seu corujão.

 

 

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