caderno-de-cinema

Home » Artigos » Leon Hirszman

 

 

por Maurice Capovilla

 

 CAROS AMIGOS2

LEON HIRSZMAN – DA TEORIA À PRÁTICA

– RJ. 1937 – 1987

 

Sabemos que foi vendo, pela primeira vez, o Encouraçado Potenkin, que Leon Hirszman não só descobriu o cinema, mas também a si mesmo. A dialética da montagem de Eiseistein seria o parâmetro da sua vida de ativista político cinematográfico.

Não houve e nem haverá outra cabeça pensante – no âmbito do cinema – como a de Leon. Ele unificou as nossas mentes e como um urbanista da cultura traçou as avenidas e ruas, praças e monumentos, mãos e contra mãos. Dirigiu enfim o trânsito de nossas vidas.

E nessa tarefa ele se dedicou de corpo e alma. Por isso fez muito pouco cinema pelo tempo que viveu. Ele estava muito mais interessado no cinema dos outros. Ele estava muito mais interessado que o cinema brasileira existisse.

Em Cinco Vezes Favela,  o seu Pedreira de São Diogo é uma obra prima de aluno graduado em Eisenstein. Nesse filme ele ganha seu diploma com louvor. E começa a abandonar o mestre.  Envereda pelo documentário de denúncia social até chegar a São Bernardo. Depurado e pessoal, Leon agora fala por si mesmo através de Graciliano. Garota de Ipanema é uma infeliz incursão pelo reino da carioquice brejeira de Ipanema. Leon não morava espiritualmente ali. Seu mundo era outro, sua briga muito anterior, seu herói, o proletariado do mundo inteiro.  Ele vai se encontrar finalmente em Eles Não Usam Black-Tie.

Com Vianinha e Paulo Pontes, Leon forma o tripé de almas gêmeas do CPC. Eram muito semelhantes. E por vias transversas, beberam das mesma fontes e partilharam dos mesmos ideais.

 

O ENCONTRO COM O CINEMA

 

A política e o cinema se cruzam na vida de Leon. Aos 14 anos, levado pelo pai entra no Partido Comunista. Enquanto faz engenharia para satisfazer a mãe se apaixona por Eisenstein nas sessões dos cine-clubes.   Seu primeiro contato com o cinema é com Nelson Pereira dos Santos em Rio Zona Norte, em 57. Em 62 participa da fundação do CPC e fica responsável pela área do cinema.  Organiza a produção de Cinco Vezes Favela e dirige o episódio Pedreira de São Diogo. Em plena efervescência de 64, dirige Maioria Absoluta que é proibido logo em seguida.  No ano seguinte roda A Falecida, baseado na peça de Nelson Rodrigues, com roteiro de Leon e Eduardo Coutinho. O filme, primeiro longa de Leon, conta a história de uma mulher de classe média baixa de subúrbio que trai o marido e entra em processo de depressão e culpa. O filme não atrai o público e se torna fracasso de bilheteria.

 

NOVA INSPIRAÇÃO

 

Em 67 Leon vai buscar inspiração em Tom Jobim e Vinícius para fazer o mais ambicioso dos seus filmes: Garota de Ipanema, que conta a história das angustias de uma adolescente da Zona Sul do Rio de Janeiro. Primeiro filme a cores do Cinema Novo e fotografado pelo argentino Ricardo Aronovich, cujo trabalho marcou uma geração de fotógrafos brasileiros.  A partir do Ato 5, Leon mergulha no ativismo político cinematográfico e realiza alguns filmes bastante emblemáticos como Sexta Feira da Paixão, Sábado de Aleluia e um episódio do  longa alternativo América do Sexo, produzido por Luiz Rozemberg. Seu curta mais importante, no entanto, é Nelson Cavaquinho, realizado em 68.

Associado a Marcos de Farias, na Saga Filmes, Leon produziu A Vingança dos 12 e Faustão, dirigido por Eduardo Coutinho. Em 70 realiza São Bernardo, um dos seus filmes mais bonitos, numa feliz adaptação de Graciliano Ramos. A censura reteve São Bernardo por sete meses o que levou a Saga Filmes a um processo de falência. Leon fica dez anos sem filmar a espera de uma solução do processo judicial.   Nesse meio tempo ele dirige curtas metragens como Ecologia e Megalópolis, sobre temas ecológicos e musicais como Partido Alto, Cantos de Traballho, Cacau, Mutirão e Rio, Carnaval da Vida.

Em 79, livre do processo de falência, ele roda Eles Não Usam Black- Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. O filme, ambientado na periferia de São Paulo, atingiu o objetivo que Leon buscava desde os anos 60, a síntese da razão com a emoção capaz de sensibilizar o grande público. O filme ganha o premio especial do Júri do Festival de Veneza em 1981.   Entre 1983 e 85, em parceria com a psiquiatra Nise da Silveira, Leon mergulha no mundo fabuloso das Imagens do Inconsciente, materializando cinematograficamente os sonhos fantásticos dos enfermos da Casa das Palmeiras. Em 1984 a 96, em parceria com Paulo Cesar Saraceni, Leon finaliza sua última obra, Bahia de Todos os Sambas.

 

FILMOGRAFIA E PARCERIAS

 

Eles não Usam Black-tie (1981) – roteiro (com Gianfrancesco Guarnieri) e direção. – ABC da greve (1979-1990) – roteiro e direção. – Que País É Este?(1977) – roteiro (com Zuenir Ventura) e direção. – Rio, Carnaval da Vida (1977) – roteiro (com Sérgio Cabral) e direção. Partido Alto –  (1982) – roteiro e direção. – Cantos do Trabalho: Cacau (1976) – direção. – Cantos do Trabalho: Mutirão (1975) – direção.Cinema Brasileiro: Mercado Ocupado(1975-1995|95) – roteiro e direção.Megalópolis (1972) – direção. – Ecologia (1972) – direção. – São Bernardo (1972) – roteiro e direção. A Vingança dos 12 (1970) – produção executiva. Garota de Ipanema (1967) – roteiro (com Eduardo Coutinho) e direção. A Falecida (1965) – roteiro (com Eduardo Coutinho) e direção. Sexta-feira da Paixão, Sábado de Aleluia (1964) – direção. Nelson Cavaquinho (1964) – direção. Maioria Absoluta(1964) – roteiro e direção. Pedreira de São Diogo (1962) – roteiro e direção. A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar (1959-1960|60) – colagem de filmes usada na peça de Oduvaldo Vianna FilhoBahia de Todos os Sambas (interrompido em 1984) – codireção (com Paulo Cesar Saraceni).  Imagens do Inconsciente (198386) – roteiro, baseado em texto de Nise da Silveira, e direção.

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário