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por Marcos Pierry  – curador do Cine Diamantina

 

 

No cenário, a Chapada Diamantina. Na direção, Jorge Felippi. No elenco, Pola Ribeiro, Ana Nossa, Rosa Mendonça e José Araripe Jr. Na fotografia, Edgard Navarro. Eis parte da ficha técnica de Ame-o ou deixei-o, rodado em 1980 com uma câmera Super-8, possivelmente uma Xenon, na paisagem natural de Lençóis. O curta-metragem foi o primeiro filme a estampar nos créditos o nome da Lumbra Cinematográfica (na época ainda Lumbra Produções).

Ao longo de dez anos, a Lumbra protagonizou momentos importantes da expressão audiovisual na Bahia, legando uma filmografia que marca o período da redemocratização e muito contribui para organizar o movimento da produção local na resistência do fazer-cinema ante o apagão da Embrafilme; apagão esse, nunca é demais lembrar, obra do governo Collor.

A trajetória da produtora – mais correto seria dizer “coletivo de amigos loucos pra filmar” – foi recobrada na noite de encerramento (04/06) do Cine Diamantina 2017, no Vale do Capão, ou seja na mesma Chapada onde tudo começou. Foi com um estrondoso grito de “FORA,TEMER!” que a cineasta Gabriela Barreto, diretora e mestre de cerimônias do CD, abriu a noite de homenagem, chamando à frente da tela quatro integrantes da astronave lumbrática.

Além de Navarro e Araripe, estavam lá o ator Bertrand Duarte – protagonista de Superoutro (87/88, 35mm) – e o produtor Moisés Augusto, que interpreta um mercador de diamantes em A lenda do Pai Inácio (89, 35mm). Mais um dos trabalhos realizados pelo grupo na região, A lenda traz Pola Ribeiro na direção, Edgard na montagem e Araripe na direção de arte, os mesmos que atuaram, em outras funções, no iniciático Ame-o ou deixei-o.

O revezamento de funções espelha a sintonia de um grupo que soube mobilizar capacidades e afinidades para a prática do filme em um momento crucial, de entulho autoritário e escassez de recursos, em que fundos e leis com recursos para cinema eram quase uma miragem. E recorrentemente, nas produções lumbráticas, temos a presença do personagem socialmente subtraído no esquemão global (plim-plim) de representações. O escravo, o doido, o perseguido, o sacrificado, o decepado e até o cineasta sem câmera ou filme (Na Bahia ninguém fica em pé, 1980, Super-8). Todos estão lá, como problema social e como dilema de subjetividade para nos arrepiar e fazer pensar na vida. Seja na chave da denúncia mais explícita ou de gritos bem-humorados, como o “Acorda, humanidade” do Superoutro.

Um conjunto de filmes de carreira longeva e premiações, alguns quase subterrâneos. Todos, porém, guardando um traço de humanismo e desmitificação fundamentais para o ingrato jogo de forças que a era Gilmar Mendes tem reservado. E o exercício poético de cada obra, cada realizador, depurado em carreiras que se prolongam até agora; assunto para outro texto.

O revezamento de bitolas e suportes, do mesmo modo, sempre turbinou a sanha do fazer na Lumbra; por exemplo, Fernando Bélens – que dirigiu Crianças de Mundo Novo e Oropa, Luanda e Bahia em 35mm – rodou em 16mm Anil (1990). A parte 2 dessa história desdobra-se em trabalhos encampados pela produtora Truque, que absorveu, a partir dos anos 90, boa parte do hardware de produção do laboratório criativo Lumbra, contribuindo sobremaneira para a retomada do longa-metragismo.

Lumbra, a palavra, significa “um leve estado de embriaguez caracterizado por sensação de leveza e bem estar”. Na Bahia, é meio que sinônimo de fazer filmes livres e que escora, ainda hoje, o CGC dos tempos em que a produtora chegou a ter um escritório no bairro da Piedade, início dos anos 80. Uma viagem que remonta a novembro de 1979, quando Pola, Edgard, Araripe e Fernando estavam em um festival de Super-8 no Recife. E acabaram fazendo o Cinema sem nome, série de filmetes rápidos, a serem consumidos no próprio festival.

Essa, aliás foi uma das histórias que Araripe lamentou não ter incluído no resumo da trupe que ele contou na noite de festa do Coreto do Vale do Capão. O videoartista Caetano Britto encerrou a homenagem com um mapping, de imagens do repertório lumbrático, projetado na fachada da igreja do povoado. Fina garoa filtrando a luz das estrelas e dos disparos de Caetano. Alimentando a brasa lúdica da celebração e do sentimento. Como na canção do duo colombiano Cale Y El Dandee, chamada Lumbra. A letra diz: “no meu coração eu sinto fogo, fuego”.

 

 

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