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Adalberto Meirelles entrevista Marcondes Dourado

 

O artista multimídia Marcondes Dourado, 39, assumiu a Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural, nos Barris,  sem câmera na mão, mas com uma ideia na cabeça: “Uma questão que eu quero implantar aqui e promover é a relação do audiovisual com as outras linguagens, amadurecer isso”, afirma, ao falar sobre a menina dos olhos da Dimas, a Sala Walter da Silveira, que há anos sofre sobretudo com a falta de público. Para ele – vencedor do VIII CineFuturo, na categoria Melhor Curta Baiano, e do XV Festival Nacional 5 Minutos (Prêmio Roberto Pires, 2º lugar, de Melhor Filme, pelo júri oficial, e Prêmio Orlando Senna, da Abcv/ Abd-Ba, de documentário), com Dançando Mas Tô Andando -,é importante entender o audiovisual em relação às outras linguagens artísticas e proporcionar a interface. Marcondes não teme a possibilidade de preterir a sétima arte, porque acredita que uma coisa não exclui a outra; ao contrário, “elas se somam e podem valorizar mais ainda o cinema”. O cineasta vê a ocasião como um momento de muitas possibilidades, “com o amadurecimento da classe, do próprio governo e da gestão anterior”. Sua perspectiva é trabalhar bastante, nesses próximos anos, com otimismo. Em entrevista exclusiva ao Ponto C de Cinema, ele promete pôr logo a mão na massa para divulgar, já no final de dezembro, um programa para a Diretoria de Audiovisual, contemplando todo o ano de 2013.

P – Você está assumindo um setor meio adormecido em vários aspectos: do apoio à produção cinematográfica, à exibição, à preservação do acervo. Como está pensando isso?
R – Esses são os pilares da Dimas, a produção, a difusão, a memória. Então, é muito amplo. São pilares que se constituem num verdadeiro desafio, porque você tem que abraçar todos os setores, todas as demandas. E a gente vai tentar, claro, dar prioridade a certas questões e tentar garantir que todos essas demandas consigam ser atendidas na medida do possível. Eu gosto muito desse espaço, desse núcleo aqui, da rede da Sala Walter da Silveira, Sala Alexandre Robatto, dessa galeria também, Pierre Verger. Acho que é muito importante, por pertencer ao centro da cidade, que está de alguma maneira esquecido pela própria cidade, pela dinâmica da cidade, mas um centro que é fundamental, porque o bairro, Barris, está arrodeado de escolas, de pessoas que trabalham em diferentes instâncias, no comércio, no governo. Tem essa facilidade de estar no centro. Eu vejo com muita potencialidade, com muita alegria, esse núcleo aqui.

Como é que, em termos práticos, podemos pensar em uma dinamização das salas Walter da Silveira e Alexandre Robatto a partir dessas questões?
– Tem o entorno de moradia, de trabalhadores, geograficamente é fácil, tem estacionamento, mais no final da tarde, à noite e no final de semana. São muitas possibilidades. Então, esse mês de dezembro é o mês em que nós estamos totalmente concentrados em fazer a programação de 2013. Vai ser um mês intenso de trabalho, de estudo e análise dessa questão. Eu acho que essa é uma das questões prioritárias, mais imediatas. E eu espero, no final de dezembro, já ter um programa muito bem elaborado para 2013, principalmente, focando essa questão.

Nesses últimos meses, com a volta do projeto Quartas Baianas, melhorou a visibilidade da Sala Walter, com a presença da Abcv divulgando nas redes sociais. Mas o público nos demais dias é baixo.
– Acho que a Walter da Silveira não deve ser apenas o cinema. A sala deve ser otimizada em vários outros aspectos. Uma questão que eu quero implantar aqui e promover é a relação do audiovisual com as outras linguagens, amadurecer isso. Eu não posso nesse momento, porque hoje é o meu primeiro dia de trabalho e a gente está em intensas discussões sobre essas questões, principalmente sobre a Sala Walter da Silveira, então eu lhe garanto que no final do mês nós já temos um programa muito bem elaborado em relação a isso.

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A Walter é a grande porta de entrada e saída da Dimas, mas, claro, é pensando também na Alexandre Robatto, na Galeria Pierre Verger…
– Claro, a Walter é o eixo desses espaços, mas a galeria é igualmente importante. A galeria, hoje, é administrada pela Diretoria de Artes Visuais, mas que, nessa perspectiva de entender o audiovisual cada dia mais em relação às outras linguagens, de fusão com outras linguagens, nessa perspectiva eu acho muito bom que a Pierre Verger seja utilizada nessa interface do audiovisual e das artes visuais, e a Sala Walter pode ser potencializada em muitos desses aspectos, além de cinema, principalmente espaço para aulas, debates, discussões, seminários. E que a comunidade do cinema e do audiovisual baiano possa solicitar e entender que esses espaços são de todos. A realização de festivais, de seminários, tudo isso deve ser solicitado para que a gente dinamize mais esses espaços.

E como é que vai ser o diálogo com esses segmentos, os cineastas, os artistas visuais, por exemplo.
– Eu tenho, pela minha trajetória artística, essa natureza multimídia, de interface entre as várias linguagens. Meu trabalho é predominantemente audiovisual, mas sempre em relação a muitas outras linguagens, como música. Eu trabalhei com direção de shows, vídeo, cenários, enfim, com os cineastas eu acho que tenho uma excelente relação, apesar de não ser exclusivamente cineasta, mas eu tenho uma excelente relação. Tem sido muito bom o retorno dos colegas até agora.

Ao abrir a Walter para outras linguagens, você não teme a possibilidade de o audiovisual, e mais especificamente o cinema, ficar esquecido? Porque existe uma demanda muito grande, no circuito, com relação à exibição dos filmes produzidos na Bahia, independentemente de passsarem ou não na rede comercial, à exibição de filmes nacionais e dos diversos festivais brasileiros e à programação de mostras de grandes cineastas, como Alfred Hitchcock e Nicholas Ray, que passam ao largo de Salvador.
– Eu acho que uma coisa não exclui a outra. Pelo contrário, elas se somam e podem valorizar mais ainda o cinema. É uma questão que eu não vejo nada como excludente, inclusive porque nós temos uma semana extensa. O cinema funciona de domingo a domingo, todos os dias. Então, a gente tem como fazer uma agenda que não comprometa essa demanda. Mas, infelizmente, eu não posso entrar em detalhes sobre essas ideias, porque tudo isso está em discussão.

A Walter está exibindo em DVD e Blue Ray até de uma maneira satisfatória. Mas também é uma sala que precisa do 35mm, do digital…
– Isso está sendo pensado. Eu concordo plenamente com você. E eu acho que todos esses projetos sobre os quais estou falando aqui, que nós estamos aqui em elaboração, depende também dessa reforma estrutural. Não significa que vamos parar totalmente para dar início a uma reforma estrutural, mas está sendo dado encaminhamento a essa reforma.

O crítico e professor André Setaro publicou post no Facebook, com ampla repercussão nas redes sociais, sobre a retirada das fotos de Walter da Silveira, por ocasião da reforma do foyer e dos banheiros da sala.
– Isso aí eu ainda não vi. Ainda não deu tempo. É algo sobre o qual vou procurar saber.

E a relação com o Irdeb (Instituto de Radiodifusão Educativa das Bahia), com a transferência da autarquia da Secretaria de Cultura para a Secretaria de Comunicação.
– Extremamente importante. Eu acho que o Irdeb tem que estar muito próximo à Dimas, mesmo estando em outra secretaria. Eu não vejo como a gente se distanciar. As parcerias são fundamentais tanto para o sucesso da Dimas e também para a televisão é importante ter a Dimas como parceira. Eu tenho uma excelente relação com Pola [Pola Ribeiro, diretor geral do Irdeb], Araripe [José Araripe Jr., diretor de programação e conteúdos do Irdeb], são pessoas que eu gosto muito, que eu já conheço há muitos anos, sei do compromentimento deles com o audiovisual, enfim, vejo com muito otimismo essa parceria.

Sempre se pensou em transformar a Biblioteca Pública do Estado em um grande centro cultural com a Walter, a Alexandre Robatto, a galeria, o Espaço Xisto, o foyer e mais os auditórios. Você não acha que a Biblioteca precisa se consagrar como um centro cultural?
– Aliás, já é.

À maneira, por exemplo, do Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília?
– Aqui já é um centro cultural, porque a Biblioteca cumpre o seu papel, a Dimas cumpre o seu papel. Mas o que você fala seria integrar mais ainda todos esses setores. Eu acho genial, mas isso aí demanda uma articulação muito maior. São boas ideias que eu acho que devem ser pensadas, a estrutura da Biblioteca favorece isso. E também o fato de estarmos no centro da cidade. O que já vem sendo feito, principalmente durante os festivais, o 5 Minutos e outros eventos maiores que a Dimas promove, é solicitar a Biblioteca, o Quadrilátero e as salas que pertencem à estrutura da Biblioteca para a gente fazer nossas atividades para ocupar mais esse complexo. Eu vejo com muito otimismo, bons olhos, essa expansão espacial, mas isso foi muito bem sucedido em todos os festivais que eu vi, essa integração maior. Agora, transformar em um instituto, uma entidade maior, é para se pensar.

Pergunto no sentido de fazer com que essa integração ocorra mais naturalmente. Uma integração entre as diretorias concentradas no espaço.
– Uma coisa muito boa que acontece nessa gestão da Funceb é justamente esse conceito de que as linguagens estão em relação constante. Então, isso foi uma das coisas que eu mais gostei nessa estrutura que eu estou entrando, é esse diálogo direto entre os diretores de cada linguagem, em reuniões constantes.

A Dimas tem um acervo muito bom do cinema baiano, com filmes, cartazes.
– Eu fiz uma breve visita ao acervo. Um acervo preciosíssimo. Enfim, é uma coisa que estamos em discussão.

E a exibição, também no interior?
– Uma das prioridades é a difusão. Tem que facilitar o máximo de exibições da produção baiana de diferentes épocas e da produção nacional, enfim, é uma questão muito importante. É muito importante que a Dimas consiga fazer cada dia mais essa expansão para o interior. Já tem um projeto em andamento que utiliza todos os centros culturais do interior para exibição, uma programação, e isso cumpre um passo importante. Eu quero me aprofundar nisso porque o interior é muito carente. Só as grandes cidades do interior têm cinema, onde acontece a distribuição comercial, mas é a distribuição da indústria. Então, é muito importante para todo interior essa intervenção da Dimas. E uma coisa muito boa, que já está acontecendo, é a quantidade de festivais de cinema. Isso aumentou bastante. E me deixa muito feliz. É um contraponto, de alguma maneira são eventos que estão conseguindo dinamizar esse circuito.

Temos a Mostra Cinema Conqusita, o Cachoeira Doc, a Mostra Universitária Sulamericana de Audiovisual – Musa [na Universidade Estadual de Santa Cruz], outra em Ilhéus – o Festival de Cinema Baiano (Feciba) -, em Salvador temos vários: o Festival CineFuturo – Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, o Panorama Internacional Coisa de Cinema… Não são festivais demais?
– Não. Acho que deve ser pensado um calendário para que não fiquem muito próximos, concentrados em curto período e que depois, em alguns meses, fique sem nada. Mas eu acho os festivais extremamente importantes, cumprem o que nenhuma rede de distribuição cumpriria. Um papel de lançamento. É um pré-lançamento, porque ali você vê toda a produção mais recente que ainda não foi lançada. Você tem um local de discussão, de debate, de comunicação entre cineastas e produtores. Os festivais cumprem um papel muitíssimo importante e eu fico cada dia mais feliz em ver novos festivais acontecendo.

Não seria mais importante se houvesse um, dois grandes festivais e que a produção fosse exibida mais regularmente? Porque existe a possibilidade de a produção (baiana ou de outros estados) ser exibida nesses inúmeros festivais, mas permaneçer dentro de um círculo e não consiguir sair em direção a um público maior.
– Eu acho que os festivais cumprem papéis distintos. Os festivais médios e até menores, eles são muito importantes, porque eu não acho que um grande festival que aconteça em uma semana, duas semanas, em Salvador, dê conta de todas essas camadas de produção. Eles são importantes, eles são complementares – os grandes festivais, os que dão uma visibilidade até internacional, e os festivais menores que atingem temas específicos, que vêm acontecendo em Salvador. Você vê um festival mais direcionado à sexualidade, outro ao meio ambiente. Eles cumprem papéis distintos. Nesse sentido eu acho que é muito importante. Agora, o Seminário Internacional de Cinema talvez seja o festival que esteja mais nesse perfil de grande evento. É muito importante, porque o próprio nome já diz, é um seminário, é muito forte o caráter do pensamento, da crítica. Acho que os dois são importantes.

Você agora entra como gestor público. E a sua produção cinematográfica continua?
– Eu quero investir toda a minha energia criativa aqui nessa gestão, porque eu estou consciente de que é muito difícil você conciliar um trabalho nessa intensidade, nesse nível de demanda, que é a Dimas, e manter a produção cinematográfica, artística. Eu estou preparado para, nesse período, conduzir toda a minha energia criativa para esta gestão.

 

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