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por Amaranta Cesar

 

O Vale do Iguape é uma região banhada pelo Rio Paraguassu, onde vivem dezenas de comunidades quilombolas, entre as ruínas de antigos engenhos de açucar e um vasto e preservado manguezal (apesar do maltrato da usina de Pedra do Cavalo). Desde que vim ser professora da UFRB em Cachoeira, tenho frequentado esse lugar. Há cerca de três anos, nos reunimos, em um grupo de professores, estudantes e egressos do curso de cinema, junto com estudantes de ensino médio da região, para experimentar contar em filme uma das tantas histórias exuberantes vividas ali, dentro do mangue, sobre os escombros coloniais e sob a regência das forças invisíveis que governam o ritmo das vidas e das marés. Conhecemos mulheres de força ancestral, que administram os dramas de verem suas filhas partindo dessa terra-útero para “trabalhar em cozinha de branco” em Salvador. Finalmente, depois de algum tempo, um pequeno filme ficou pronto: Maré. Ele não conta nem parte dessa força humana, natural e sobrenatural envolvida pela energia da lama que reside e resiste ali. Mas ele é atravessado por muito tempo de conversas e cantorias, de descobertas, moquecas de ostra e cerveja à beira do rio. Pisamos, literalmente, em terreno movediço e alguma coisa aconteceu. 

Hoje, exibiremos Maré, em Cachoeira, no Cine-Theatro Cachoeirano, às 19:30, dentro da programação de uma beleza de mostra que é a MAR – Mulheres, Ativismo e Realização. As mulheres do Kalembá, comunidade quilombola que protagoniza essa história, estarão presentes – muitas delas pela primeira vez em um cinema (e nem sei exatamente o que isso significa).

Quando exibimos o filme, pela primeira vez, em Santiago do Iguape, comunidade quilombola que também está presente em Maré, uma das mulheres me disse: “ô, Amaranta, esse filme não deixa a desejar, não?”. Tomei um susto e esbocei um sorrisinho sem graça e esmorecido, mas logo achei tão bonito isso: um filme que deixa a desejar…. Se não der muito certo esse novo encontro dessa experiência com a tela, que, pelo menos, haja desejos – abertos, frustrados, incompletos, inesgotados, como são mesmo os desejos.

Finalmente, queria deixar registrada aqui a minha profunda admiração por Érica Batista, Suelen Oliveira (Diguinha), Patrícia Santos e Clarice Santos (Dona Nega), atrizes de inteligência sublime.

E minha gratidão a Danilo ScaldaferriMarina MapurungaElen LinthRiane NascimentoEvandro de FreitasThiago Ramos LogasaLéo ConceiçãoAdriano Oliveira e Chica Carelli pelas energias investidas e pelas experiências compartilhadas.

Na foto de Danilo Scaldaferri, esse companheiro infalível, incansável e indispensável, está Érica Batista, essa mulher-monumento.

 

Um Comentário...

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