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por Raul Moreira

 

 

Quinta-feira, 19 de janeiro. Até o início da tarde, as redes sociais tupiniquins viviam uma jornada tranquila. Independentemente de uma e de outra postagem mais agressiva contra a posse do novo presidente dos EUA, Donald Trump, no dia seguinte, tudo seguia na normalidade, incluindo o costumeiro Fora Temer!

Mas logo o cenário mudaria. Começavam a surgir notícias de que um avião caíra no mar de Paraty, no Rio de Janeiro, com o ministro do STF, Teori Zavascki, relator da Lava Jato. As teorias da conspiração começavam a ganhar corpo. Seguindo o tradicional efeito dominó, a mensagem de um dos filhos de Zavascki no Facebook, dando conta de que o pai estava no avião acendeu de vez o rastro de pólvora.

Olhando as postagens das jovens MP e JS, amigas, ambas de Salvador e estudantes de cinema, a quinta-feira se faria borbulhante. Marcaram um encontro no Instituto Goethe, mais conhecido como Icba, no Corredor da Vitória, onde se deleitariam com James Martins, animador do Pós-Lida, evento já afirmado na cidade que anunciava um diálogo entre o músico Tuzé de Abreu e André Luiz Oliveira, diretor do icônico Meteorango Kid – O Herói Intergaláctico (1969), filme baiano que parece inesgotável enquanto objeto de estudo e apreciação.

De antemão, as amigas transbordavam felicidade. “Vai ser um arraso!”, escreveu MP. Por sua vez, JS não ficou atrás: “Ai!”. As duas aportaram no Icba perto das 20h. De cara, surpreenderam-se com o novo visual de James Martins, que coloriu os seus cabelos com um amarelo desbotado gritante. MP postou: “Amei a cabeça de James”. Por sua vez, JS foi pelo caminho oposto: “Putz, tá estranho…”.

Não demorou muito e, no Facebook de MP, uma pérola: “Tá cheio de vovô!”, referindo-se, no caso, à presença de dezenas de participantes septuagenários da produção do filme, que segundo um deles envolveu todos os loucos de Salvador entre o verão de 1968 e 1969. Fascinadas com Lula Martins, o Lula Bom Cabelo, que deu vida ao anti-herói de Meteorango, alter ego de André Luiz Oliveira, MP, sarcástica, postou: “Ele é o único que não ficou com os cabelos brancos. Será tintura? (risos)”. JS devolveu na lata: “Fez jus ao apelido (risos)!”.

Lá pelas tantas, surge uma postagem de MP referente a André Luiz Oliveira, que se desculpava pelas suas supostas faltas, como por exemplo, usar a canção Meteorango Kid como título de seu filme, sem comunicar ao autor, Tuzé de Abreu, que estava ao seu lado, pronto a perdoá-lo: “Xi, tão lavando roupa suja! Mas eles se entendem (risos)…”.

Como boas estudantes de cinema, MP e JS fuçaram em tudo que foi publicado a respeito do diretor de Meteorango. Assim, brotou um diálogo em torno da presença ou não do cineasta José Umberto, o mesmo que durante duas décadas não falou com André Luiz Oliveira, magoado por ele haver inscrito o curta Doce Amargo (1968) no Festival JB Mesbla, chamando para si o crédito da produção, quando, na verdade, era um trabalho dos dois. “Não vejo José Umberto”, disparou MP. JS não demorou a responder: “Procuro, procuro, procuro…”.

Já passava das 21h30, quando JB publicou: “Não escutei um único Fora Temer!”, talvez irritada com o fato de que, no passado, o local, por conta do seu status diplomático, abrigou muita gente e eventos que se bateram contra a ditadura militar, principalmente no período do famigerado AI-5. Irônica, MP foi sucinta: “Amiga, essa gente continua tropicalista”.

Mas JS não se fez de rogada: “Não é aceitável que em um dia como o de hoje esses vovôs não comentem sobre o acidente estranho que matou o ministro do STF e não falem nada da situação do Brasil…”. Então, MP ponderou: “Você escutou a fala de Lula Martins: a revolução deles era sem ideologia, apenas pela arte, pela insubordinação, com muita maconha, contra a caretice, ao som de Janis Joplin e Jimi Hendrix: relaxe, amiga!”.

Antes do final do Pós-Lida, JS, irritada, anunciou que deixaria o Icba, disparando no Facebook: “Lula Meteorango matou Teori Zavascki! Procura-se Lula Meteorango”. “Vamos amiga, que vai chover”, respondeu MP. As duas deram um tempo nas postagens nas horas seguintes.

As jovens amigas se foram e a vida seguiu, naquele ambiente de luz amarelada e onde se celebrava não apenas Meteorango, mas, talvez, o fato de que muitos dos que participaram da produção continuavam vivos, enquanto alguns se foram ou simplesmente se perderam por estradas ermas.

No final, André Luiz Oliveira, a grande estrela da noite, saboreava mais uma vez os desdobramentos da sua obra-prima, a qual revelou a sua patologia, mas indicou-lhe os caminhos da suposta cura. Na verdade, o quebra-cabeça de Meteorango carece sempre de uma peça para se encaixar tamanha é a sua carga de subjetividade, algo que o faz atemporal.

E, na cabeça do cineasta, pouco importa se foi Lula Meteorango quem matou Teori Zavascki. Porque, no final, tudo não passa de uma grande ilusão em um jogo de cartas marcadas comandado por um deus intergaláctico.

Meteorango Kid se faz eterno!

matéria publicada em A Tarde

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