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e a estética do Cinema Marginal

 

 

por André Setaro

Na segunda metade dos anos 60, dá-se, na Bahia, o surto underground, cujos filmes podem ser considerados a antítese do chamado Ciclo Baiano de Cinema da primeira metade (Barravento, de Glauber Rocha; A grande feira e Tocaia no asfalto, ambos de Roberto Pires; O caipora, de Oscar Santana; Sol sobre a lama, de Palma Neto e Alex Viany; O grito da terra, de Olney São Paulo; entre outros). Se o Cinema Marginal brasileiro se situa como uma reação ao Cinema Novo e seus postulados, o surto que se verifica na Bahia vem influenciado pelo espírito da época e, principalmente, pelo carro-chefe, que é, indiscutivelmente, O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla.

Ainda que André Luiz Oliveira, com seu Meteorango Kid, o herói intergalático (1969), seja o mais consagrado cineasta do surto, há, porém, outros filmes que merecem ser citados, a exemplo de Caveira, my friend (1968), de Álvaro Guimarães, A construção da morte (1968), de Orlando Senna (o produtor Braga Neto, apavorado com o Ato Institucional número 5, distribui aleatoriamente as latas com os negativos que se perdem), e o média Voo interrompido (1969), de José Umberto. Obras radicais nas suas estruturas narrativas, a rigor, nada propõem, mas são extremamente reveladoras da angústia de uma geração e da tentativa de instaurar um cinema mais voltado para a expressão pessoal e desvinculado dos padrões convencionais do espetáculo cinematográfico.

meteorango

André Luiz Oliveira, baiano de Salvador (1948), começa a se interessar pelas imagens em movimento, quando toma um curso livre de um ano (1968) da Universidade Federal da Bahia, ministrado por Walter da Silveira e Guido Araújo. Neste curso, vem a conhecer pessoas idealistas que também têm como sonho a realização cinematográfica. Neste mesmo ano, realiza, em parceria com José Umberto, o curta Doce amargo, que, inscrito no Festival Amador Jornal do Brasil/Mesbla, é premiado em segundo lugar. Doce amargo é uma tentativa poética de registrar a vida atormentada de um vendedor de pirulitos que passa por várias situações amargas. Já há, aqui, o uso da alegoria, de figuras de linguagem e uma fragmentação narrativa que iria se acentuar mais em Meteorango Kid, o herói intergalático.

Intitulado a princípio O mais cruel dos dias, e produzido por seu pai, Meteorango é a estréia de André Luiz Oliveira no longa, que, apresentado no Festival de Brasília, obteve o Prêmio do Público e a Margarida de Prata da Central Católica de Cinema. Em 1969, com o reinado do Ato 5, a censura está atenta a todos os filmes da mostra competitiva e disposta a proibir Meteorango. No ano seguinte, em 1970, outro filme underground baiano, Caveira, my friend, de Álvaro Guimarães, mostrado no mesmo festival num clima asfixiante, tem suas cópias queimadas em plena Praça dos 3 poderes – Caveira, my friend leva quase 20 anos sem ser visto até que consegue ser encontrado.

Estruturado em fragmentos, sem um fio condutor resistente dentro dos cânones da lei de progressão dramática griffithiana, e a utilizar, na sua construção narrativa, materiais de procedências diversas (cartazes, gráficos, letreiros…), Meteorango Kid, o herói intergalático é uma manifestação de rebeldia e desalento bem ao estilo da época em que é realizado: os turbulentos anos do final da década de 60.

A imagem inicial do filme mostra o personagem Lula Bom Cabelo a sair da cruz em filmagem invertida e em câmera lenta. No dia de seu natalício, Lula passa por experiências reais e fantásticas – aqui se pode perceber a justaposição de tempos diferentes: um tempo real que dá conta das andanças de Lula, e um tempo fantástico (a luta dos pseudos-piratas na Baía de Todos os Santos, a estréia de gala de seu filme imaginário, etc). Pela manhã, transforma-se em Batman e surra os pais; na escola, assiste a uma assembléia estudantil que não o convence; e decide realizar um filme que o tem como personagem de Tarzã; comparece ao enterro de um homossexual e se recorda dele em vida; participa de uma sessão de maconha em um apartamento com mais dois amigos (uma das sequências mais perturbadoras do filme); e, além do mais, é atacado, no Pelourinho, por um vampiro. Mas, apesar de todo o itinerário agitado, chega, finalmente, em casa, onde seus pais o aguardam para a festa de aniversário. No final, a repetição da imagem inicial, com Lula a permanecer crucificado no meio das palmeiras.

André Luiz Oliveira passa mais de 5 anos sem fazer outro longa até que, em 1975, realiza A lenda de Ubirajara, adaptação de um romance de José de Alencar, que se caracteriza por uma visão romântica e nostálgica do universo primitivo dos índios brasileiros. O longa seguinte somente aparece 20 anos depois: Louco por cinema, em 1995. Cineasta bem bissexto, portanto, que também realiza, neste tempo curtas (Ladeiras de Salvador, por exemplo).

Em Meteorango Kid, o herói intergalático, vale ressaltar a iluminação primorosa de Vito Diniz (em película preto e branco), um dos mais capacitados fotógrafos do cinema brasileiro, pouco conhecido porque nunca quis sair da velha província, mas responsável pela direção de fotografia de toda uma geração de cineastas baianos. No elenco, a figura de destaque é Antonio Luis Martins, que faz Lula. Também estão presentes: Nilda Spencer, Milton Gaúcho, Carlos Bastos, Manoel Costa Junior (Caveirinha), Antonio Vianna, Aidil Linhares, Sonia Dias, Ana Lúcia Oliveira, João Di Sordi.

 

2 Comentários...

  1. pedro viana disse:

    Um dos atores*

  2. pedro viana disse:

    gente so queria fazer uma correcao. Um dos personagens que faz a cena da maconha nao se chama Antonio Vianna, o nome dele e Alberto Viana.

    haha ele e meu pai so achei engracado quando vi essa parte.

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