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por Caco Monteiro

Certa feita acordei sem amor interior, fodido, sem dinheiro, morava no bairro da Glória, Rio de Janeiro. Era um ator sem nada, sem texto, sem fala e sem trabalho. Nesse certo dia eu tinha que pagar uma conta no banco perto de casa. Tomei um gole de um Nescafé qualquer e resolvi andar até o banco para pagar a minha conta. Vesti uma calça furada e uma blusa surrada e sai andando. Atravessei o sinal da avenida e fui para o outro lado da rua, quando de repente cruzei o olhar com dois cachorros vira-latas numa distancia de vinte metros, não tive dúvidas, pensei, eles vão avançar em mim, e não deu outra, eles rosnaram, olharam para mim e eu me preparei para o embate. Com o meu olhar e corpo fragilizados, eles perceberam e rosnaram mais ainda, latiram forte e avançaram em mim.

Travamos uma briga patética diante dos olhares incrédulos das pessoas que passavam (reproduzirei essa cena um dia no cinema), até que consegui me desvencilhar dos dentes caninos e sair correndo, corri o mais rápido que o mundo podia, corri, corri, corri muito, pra bem longe daqueles dos dentes daqueles cachorros, até que virei uma esquina e encontrei uma porta verde enorme, essa porta que mudaria a minha vida. Fiquei parado olhando uns dois minutos diante dela, respirando forte e pensei: “Que porta é essa?! Até que tomei coragem e girei a maçaneta, a porta se abriu, de repente vejo uma escada enorme com uns 60 degraus para subir, olhei pra cima e me lembrei dos cachorros do passado. Resolvi então subir a escada, mesmo cansado da correria. Subi, subi, subi e subi, e quando cheguei no último degrau, tinha uma outra porta branca normal. Pensei: “Caralho, que provação é essa meu Deus. Bom, vamos nessa!” Abri também essa porta e atrás dela tinha uma sala escura com apenas uma cadeira e um filme sendo projetado num telão. Puxei a cadeira e sentei ofegante, suado e tremendo, tentando entender o que havia acontecido até então.

De repente foco meu olhar na tela e vejo uma cena… era a minha mãe entrando em trabalho de parto, era o início do meu nascimento, fiquei pasmo, não acreditei no que estava vendo, mas ao mesmo tempo bastante atento às próximas seqüências da minha vida, vi o filme todo até a cena dos cachorros vira-latas, foram 39 anos de cenas reais, e só então pude entender o que estava acontecendo comigo. Agora aos 40, percebo que não quero mais dispersar, tenho muita coisa ainda pra fazer e muita boca pra beijar… Com calma, tomaremos um champagne e contarei as outras cenas da minha vida, está bom? Pode ter certeza que não é um filme monótono, e sim cheio de ação e emoção…

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