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por Mario Luiz Thompson

 

 

Esta é uma história muito longa – a mais longa das minhas histórias – e difícil de ser sintetizada.
Eu gosto de João Gilberto desde que saiu “Chega de Saudade”. O meu tio falava assim: “Que cara desafinado”. Mas eu adorava João Gilberto. Minha namorada foi para a Europa e eu ficava cantando: “Outra vez sem você, outra vez, até você voltar”. Eu adorava João Gilberto.
Um dia, já nos anos 70, eu fui à casa de Gil no Rio de Janeiro; Gil estava comendo arroz integral com varetinha – ele era macrobiótico na época. Ele e o Antônio, chofer dele que estava ali na sala. Ficamos naquele silêncio, poucas palavras, e de repente toca o telefone. Era Caetano, diretamente da Bahia, cantando e contando pra Gil que tinha recebido uma fita lá de Nova Iorque com o disco de João que tinha acabado de ser gravado, mas ainda não tinha sido lançado. Então, ele começou a cantar e contar as músicas que tinham no disco: “Isaura”, “Undiú”, “Bebel”, “Avarandado”, “Eu Vim da Bahia”. E o Gil cantava junto. E eu fiquei fascinado vendo aquilo tudo.
Aí eu fui à casa do Macalé, na rua Real Grandeza, no Rio. Ele tinha essa fita e botou pra eu ouvir. O Rogério Duarte estava lá também. Eu fiquei ouvindo. Nesse dia o Macalé estava ensaiando violão na despensa, porque segundo ele a despensa tinha uma acústica legal. E eu fiquei fascinado com aquele som que eu estava ouvindo.
Aí eu fui para o sítio dos Novos Baianos em Jacarepaguá. Eu era amigo dos Novos Baianos também – era amigo de todos eles. Eu cheguei no sítio no momento em que estava chegando uma mesa de ping-pong – e João Gilberto adora ping-pong. Eu ajudei a montar a mesa de ping-pong. Eu fui contando para as pessoas que eu tinha ouvido o disco do João que ainda não tinha saído. Chegou uma menina pra mim e disse: “E você gostou?”. Eu falei: “Gostei muito. Tem uma música chamada ‘Isaura’, que tem uma moça que canta com ele que é maravilhosa”. E não é que eu estava falando com a própria cantora, que era a Miúcha?
Tempos depois, de volta ao Rio, vindo de São Paulo, estou em Laranjeiras, com meu carro quebrado – um Fusca 1600 conhecido como Zé do Caixão, quarto portas. Passa o Raul Seixas com o seu Corcel amarelo, empurra o carro, o carro pega, e vamos todos para a casa do Guilherme Araújo. O Guilherme Araújo tinha a fita do disco do João, e eu tinha um gravador que tinha comprado em São Paulo. Copiei a fita. E fui correndo levá-la para o sítio dos Novos Baianos para mostrar para eles. Mas eles tinham ido para Embu, em São Paulo, fazer um show. Só tinham ficado Marilinha e Buchinha – Marilinha é mulher de Paulinho Boca de Cantor. Fomos indo ali para Jacarepaguá, em direção ao centro, e ouvindo João. De repente, vimos um disco voador. Era mesmo um disco voador! Ele ia para direita, para esquerda, subia, descia. Foi fantástico. E isso, ouvindo João!
Aí eu fui para São Paulo, direto para o Embu, o show já estava terminando. Eles iam para a Granja Itaiê, dos Byghtons. Eu vou com uma amiga francesa para lá, pela estrada Anhanguera, ouvindo João, e de repente o meu carro pára. Eu digo pra ela: “Vamos ficar aqui ouvindo João, não vamos esquentar a cabeça, não”. Ficamos ali ouvindo João e saímos do carro; o carro estava leve, pegou. A gente precisava fazer um retorno para entrar na estradinha de terra, e de repente nem fizemos, já estávamos na estradinha de terra, chegando ao sítio Itaiê. Chegando lá, o Galvão estava lendo um livro do Humberto Rhoden dizendo que a gente pode se transportar de um lugar para outro como se fosse um disco voador. Pode estar num lugar e aparecer em outro, sem fazer o percurso que tem entre um lugar e outro. Bem, aí, jogamos ping-pong. Depois teve um jogo de futebol dos Novos Baianos com o pessoal do Chico Buarque. E lá fui eu, com super-8 e máquina fotográfica. Tinha uns menininhos de vermelho que eram os órfãos de um orfanato para o qual o Fernando Faro dava uma força. Lá também estava uma menina de amarelo Ficamos lá com as crianças brincando. Um deles me ensinou a empurrar aquele pneuzinho de borracha com ferrinho, outro aprendeu a fotografar. Eu fiquei pensando: “Se eu fosse botar um som em cima deste super-8, eu colocaria ‘Como São Lindos os Iouguis (Bebel)’ porque esses meninos órfãos são yogues brasileiros na música de João tem o sub-titulo de Bebel ”, como é o nome da música instrumental de João neste disco que ele tinha gravado. De repente, alguém chama a menininha de amarelo que estava ali junto e diz: “Bebel, vamos embora”. E era a Bebel. Então eu acabara de conhecer a Bebel.
Passa um tempo, e eu estou numa excursão pelo Nordeste. Com o Gil na Bahia, com Zé Ramalho em João Pessoa, com Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Alceu em Olinda, e depois em Fortaleza com Ednardo. E João Gilberto em Nova Iorque, há dezoito anos. Aí eu vou parar em Canoa Quebrada. Conheço uma caiçara, estou lá na rede com ela, e penso: “Daqui eu não saio tão cedo, vou ficar com ela”. Eu estava meio que namorando com a menina. De repente, eu ouço no rádio: “Amanhã, em Salvador, depois de dezoito anos de ausência, no teatro Castro Alves, João Gilberto”. Eu disse: “Ai, meu Deus, eu preciso fotografar João Gilberto”. Entra uma menina e fala: “Alguém quer uma carona para Fortaleza?”. Eu pensei: “Vou nessa”. Aí a criançada toda de Canoa foi me acompanhando morro abaixo, peguei uma Kombi, fui para Aracati, de Aracati fui para Fortaleza, de Fortaleza fui para Salvador. Cheguei de tarde em Salvador, e fui para os bastidores, na entrada dos fundos. Estava lá a Rede Globo com fulano de tal, Manchete com fulano de tal. E agora, como eu vou entrar? Aí a produtora passou por mim e disse: “Mário Luiz!” Ela me conhecia. “Ah, você é fotógrafo especial”. E é assim que eu assisto ao show, apresentado por Vinícius de Moraes – o primeiro show de João depois de dezoito anos em Nova Iorque.
Findo o show, eu ia voltar para Canoa, mas surgiu uma história que a TV Tupi ia fazer o encontro de João com a mãe dele em Juazeiro. Então, ficamos no hotel dele esperando ele se decidir. Passa uma tarde, outra tarde, e nada dele se decidir. Estou num canto sentadinho, aparece uma menina, que era a Bebel já maior, e me pergunta: “Você é iogue?” Eu disse: “Não, mas eu conheço você. Você estava num sítio lá em Poá com um vestidinho amarelo”. Ela disse: “Não, era uma blusinha amarela”. Eu disse: “Como você sabe?” Ela disse: “Porque tenho um retrato que a minha mãe me deu no meu álbum”. Era o retrato que eu tinha dado para a Miúcha. Tinha ido parar no álbum da Bebel.
Aí, o João resolve fazer um show no teatro Municipal de São Paulo. Eu venho direto para São Paulo. Deixando as malas na entrada dos fundos do Municipal, peço pro porteiro guardar para poder fotografar o João. E fotografei. Até então, eu não tinha conhecido o João, eu preservava a privacidade que ele queria ter. Até que finalmente eu vim a conhecê-lo pessoalmente. Foi assim. Ia ter um show dele no teatro Cultura Artística, do qual a TV Bandeirantes faria um especial, com Ney Matogrosso também. Eu e minha namorada ficamos tão ansiosos que não dormimos na noite anterior, e no dia adorcemos à tardinha, acordamos tarde e chegamos lá às onze horas da noite, quando já tinha terminado o show. Por isso, eu queria saber alguma coisa, como tinha sido o show, e fui entrando pelo corredor, nos camarins. Aí o João veio saindo e eu não me furtei a falar: “João, a sua presença é um presente para a cidade de São Paulo”. E ele: “Muito obrigado, você é muito doce”. Ele passou por uma porta, voltou e perguntou: “Qual é o seu nome?” Eu disse: “Mário”. Ele disse: “Mário, muito obrigado”. Ele entrou no carro, e dentro estava Rogério Sganzerla. Depois, no dia seguinte o Rogério contou pra mim que ele tinha ficado a noite inteira falando de mim, dizendo que eu tinha sido uma pessoa muito suave, muito terna, muito doce que as pessoas de São Paulo eram muito agradáveis. E no dia seguinte ao dia em que eu fui ao show, ele estava passando esbaforido com o Ney Matogrosso para o palco, parou e falou: “Oi, Mário, como vai? Tudo bem?” Realmente ele tinha gostado de mim e nem sabia há quanto tempo eu já gostava dele.
Depois aconteceu o festival de Águas Claras, onde ele fez um show para milhares de pessoas. Os fotógrafos todos de pé em frente do palco, atrapalhando um pouco, eu me sentei no chão de cócoras atrás dos fotógrafos, até que eles percebessem que estavam tapando a minha visão. Então, eles começaram também a sentar, o clima ficou legal, e o show correu muito bem.
Depois disso, o João foi para Roma e eu também fui. Passamos algumas noites agradabilíssimas lá. João é um iogue, a música dele abre nossos chacras, ele é um mestre, um guru – ele é muito doce, muito terno. Anos mais tarde, acabei fazendo a capa do seu disco “Eu Sei Que Vou te Amar”. Acabei também indo para Belo Horizonte, onde ele se apresentou no Palácio das Artes, fiz no camarim uma foto dele sorrindo, ele estava feliz. Também no show que ele fez no Palace para a TV Cultura, ele fez uma festa pra mim que a Cultura, aliás, registrou ele me dando a mão com um carinho muito grande naquele comprimento. Ele escreveu a meu respeito, deu um depoimento ao meu respeito, escreveu sobre a minha mãe também no CD dela dizendo: “Conversar com Íris é um jardim, ouvir Íris é uma bênção”. E eu estou muito feliz por causa dessa amizade com essa pessoa tão especial, de quem eu já gostava há tanto tempo e que veio a gostar de mim sem saber que eu gostava dele. Às vezes nós conversamos de madrugada, e é muito agradável.
Num dos pôsteres de fotografias que eu já editei, João declarou: “Mário Luiz Thompson já veio da arte. Sua mãe é uma grande artista. Seu caminho é fotografar a música, sua inspiração. De seus espetáculos, Mário dá este importante registro da vida da música brasileira. Mário, um abraço de todos nós, em coro. Deus te ilumine e te revele a beleza sempre”.

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