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Cineasta baiano dirigiu o antológico curta Um Dia na Rampa e foi autor da primeira versão do roteiro de Barravento

 

 

por Adalberto Meireles

 

 

“Acabei de saber que Luiz Paulino dos Santos ‘fez a passagem’, como ele gostava que dissesse”, escreveu Edgard Navarro ao comunicar no facebook a morte do diretor e produtor baiano, segunda-feira passada, aos 85 anos.

Uma rede de manifestações de pesar logo se formou em torno da personalidade e força criativa do baiano, nascido em Altamira, distrito de Conde (a 190 km de Salvador), dono de uma das trajetórias mais emblemáticas do cinema brasileiro, também ator em Mandacaru Vermelho (Nelson Pereira dos Santos, 1961) e O Homem Que Não Dormia (Navarro, 2011).

Diretor do célebre curta-metragem Um Dia na Rampa (1960), com locações na rampa do Mercado Modelo, em Salvador, e autor da versão original do roteiro de Barravento (1962), primeiro longa de Glauber Rocha,  Paulino morava em uma comunidade do Santo Daime, em Matutu, no município de Aiuruoca (sul de Minas Gerais).

As primeiras notícias dão conta de que ele morreu em consequência de um problema no pulmão, mas o cineasta esteve em Salvador, no último dia 18, e aparentava estar bem de saúde. Hospedou-se com Edgard Navarro como fazia nos últimos anos, desde que concluíram O Homem Que Não Dormia.

 

Última aparição


Em uma de suas últimas aparições em público, Paulino veio a Salvador para a pré-estreia do documentário Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, ocasião em que fez parte da mesa de discussões ao lado do diretor do filme, Henrique Dantas, e de Navarro.

“Quem está no cinema não deixa de ser mágico. E o cinema brasileiro é um magia”, afirmou Paulino, sintetizando sua trajetória de cerca de 60 anos como diretor. Uma trajetória errante, diga-se.

Filho de uma índia Kaimbé com um homem do campo pobre, conforme ele mesmo definiu em sua cinebiobrafia, Estafeta (2008), de André Sampaio, Luiz Paulino deixou Salvador na primeira metade dos anos 1960, depois de ser solenemente limado da produção de Barravento, em prol de Glauber Rocha.

Há várias versões para o fato, inclusive a de Glauber, dando conta da lentidão das filmagens e de uma série de contratempos envolvendo atores e diversos segmentos da produção do filme. Mas Edgard Navarro diz que está fazendo um documentário com Marcondes Dourado em que Paulino fala sobre o caso.

“Talvez não seja ainda o momento de divulgar em uma matéria de jornal. Mas o que Paulino fala é diferente do que Glauber disse, do que Nelson Motta escreveu (…) Há contradições. É bom cotejar essas versões e que prevaleça pelo menos a dúvida”, diz Navarro.

 

Entraves


Paulino sempre manteve discrição. Mas já em Estafeta ele fala sobre os  entraves que surgiram com a produção em consequência da valorização da cultura africana em uma sociedade também de tradição católica.

“Eles passaram a sugerir que se fizesse uma confrontação política. Eu disse: ‘Eu não tenho que fazer uma confrontação política, de narrar os valores dele. Os valores não é só do colonizador, do conquistador, do exterminador”.

Em entrevista ao crítico de cinema Rafael Carvalho (A Tarde, 1.2.16), Paulino diz que o produtor muito católico era Rex Schindler. Ele “entrou como produtor para investir dinheiro (…) Disse que a gente estava fazendo um filme de feitiçaria. (…) Foi se formando uma articulação para mudar as coisas, até que se tornou insustentável e eu preferi deixar o filme”.

O cineasta foi então para São Paulo, depois morou no Rio de Janeiro e por fim se radicou no sul de Minas.

Uma verdadeira profissão de fé e resistência se instala na trajetória de Paulino, que desde então concluiu alguns filmes. Entre os quais, Mar Corrente (1967), que se perdeu, e Crueldade Mortal (1976), baseado em uma história real que ocorreu na Baixada Fluminense (RJ), em torno do linchamento de um homem interpretado por Jofre Soares.

O retorno à Bahia aconteceu em 2008, na  Jornada Internacional de Cinema. Foi quando Edgard Navarro o convidou para integrar o elenco do filme no qual fazia o papel do Peregrino, ‘o homem que não dormia’.

A partir de então uma nova geração de críticos e cinéfilos descobriu a figura de Luiz Paulino dos Santos. Em seu último filme, lançado na Mostra de Cinema de Tiradentes, o documentário Índios Zoró – Antes, Agora e Depois?, ele retoma o curta Ikatena – Vamos Caçar, realizado em 1983.

Matéria publicada no jornal A Tarde, edição de 3.5.2017 – fotos de Edgard Navarro
Matéria publicada no site Ponto C de Cinema

“Eternamente o homem que não dormia. Durma o sono sem sonhos nem pesadelos” (Fernando Belens, cineasta)

“Grande Avatar, ensinava e me ensinou muito. Generoso, acabamos de fazer um debate muito lindo com o Sinais de Cinza. Olney tá encontrando os amigos e a turma do sertão está voltando a se reunir” (Henrique Dantas, cineasta)

“O mais injustiçado cineasta do Brasil. (…) Impossível esquecer a atitude, a postura dele quando dos acontecimentos ocorridos durante a filmagem de Barravento e a solidariedade que ele prestou à atriz Sônia Pereira. A bem da verdade o citado filme a ele pertence” Eduardo Cabus (ator, diretor e estilista)

“Ele partiu para o infinito. Saudades, mestre” (Bertrand Duarte, ator, lembrando a sessão de Indios Zoró, em 2016 na Sala Walter da Silveira)

“Grande Paulino! Aprendizado do comum, do simples, do fraterno, do agora e da eternidade. Obrigado, Edgard, por trazê-lo mais pra perto” (Pola Ribeiro, cineasta)

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