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por Marco Alemar

 

Conheci Jorge Alfredo quando ele e Moisés Augusto me pediram para fazer o cartaz de 3 Historias da Bahia e a abertura e o cartaz de Samba Riachão. Jorge sentou numa cadeira quebrada no meu estúdio, que funcionava em minha casa, a cadeira virou, e ele se estatelou em cima de uma escultura minha, que estava atrás dele… Ele tomou um tombo feio e eu gritei “Minha escultura!!!, nem me importando se ele estava bem ou mal… demos muita risadas com isso…

Nessa época, eu já estava indo embora da Bahia, a convite de alguns empresários paulistas, para começar a fazer séries de animação em São Paulo. Eu dominava a cena de computação gráfica para publicidade no Estado, e já tinha feito alguns trabalhos para a Truque, e Moisés e Silvinha eram meus amigos. Nunca imaginei, na verdade, a história que havia por trás daquelas pessoas e que ia dar na história do cinema na Bahia.

Estou de volta depois de muito tempo, e Jorge me achou por aqui e me pediu para escrever alguma coisa para o Caderno de Cinema.

Tenho de reconhecer que, ao começar a ler as entrevistas e matérias, me senti meio intimidado pela linguagem poética, pelas histórias e pelas emoções de que viveram e vivem as pessoas e cineastas da terra.

As saudades de um tempo em que o cinema era ainda uma aventura, um libelo político e cultural, estão impregnadas nos textos. Não sou exatamente um cineasta, e acho que animação e cinema compartilham algumas coisas , mas tem ritmos completamente distintos.

Não sou também um escritor, e meus roteiros são apenas esboços para as minhas imagens, então me desculpem se pareço objetivo demais. Muito menos, sou um crítico, gosto de fazer, simples assim.

Pensei em falar da série que criei e produzi,a primeira série brasileira, Pixcodelics 65 episódios, e que passou no mundo inteiro em mais de 50 países, no Cartoon Network da América Latina, na Disney do Japão, Animania Estados Unidos e SVG Suécia, durante pelo menos 5 anos, trabalho que me realizou e me transportou para o universo da animação em série definitivamente.

Pensei também em falar do projeto que me envolvo atualmente com mais intensidade, pois tenho um livro publicado sobre ele, BIGHATBOY O Grande Chapéu, publicado pela Conrad Editora, e TOYARTWAR, sobre uma guerra que acontece no universo de BIGHATBOY, e que junta minha nova paixão, videogames, a minha eterna animação.


Achei que tudo era em inglês demais, fruto das minhas experiências com o mercado de animação internacional. Não cabe muito aqui onde todo o contexto é sobre a produção nacional e as coisas da nossa terra, mas por outro lado abre caminho para poder explicar um outro projeto meu,que é uma conclusão que tive depois de alguns anos de reflexão: sobre o que fazer e como fazer algo para que o universo da arte em movimento seja de propriedade do imaginário dos brasileiros.

Claro, esse universo não é nosso. Os nossos cinemas não são nossos, os filmes que a maioria esmagadora dos brasileiros assistem não são nossos, se formos falar de animação então…     No máximo temos novelas,  que é muito mais um instrumento de deseducação e monopolização política e cultural.

Lembro-me muito claramente quando tínhamos pilotos de Pixcodelics e tentamos durante 8 meses falar com a Globo e nunca conseguimos. Só conseguimos falar com eles em Cannes, na MiPCom, e onde ouvimos do diretor internacional de programação da Globo, que tudo era muito legal, mas que a Globo não comprava nada, nem investia nisso, que estávamos no caminho certo, e que se fizesse muito sucesso, eles talvez comprassem… no final, ele ainda disse: – Poxa vocês não precisavam ter vindo tão longe pra me mostrar…

Acho que nunca passou pela mente da maioria dos brasileiros, que cinema, é muito mais que cinema americano… e que novela, é muito mais que novela da Globo.

 

3 Comentários...

  1. Hd Junior disse:

    Animadas e sabias palavras com sensibilidade racional, parabéns pelo belíssimo trabalho “Queridão”Marco
    abraço

  2. Alba Liberato disse:

    Caro Marco Alemar, sua matéria deixou gosto de quero mais. Quando a sinceridade do prazer de fazer animação segura a gente, vc. termina, assim sem mais nem menos. Vc. está em Salvador? O desenho dos seus personagens que é lindo, bem fora dos padrões. Aqui vc. está trabalhando? Já é possivel continuar daqui da Bahia seu projeto em outras partes do mundo? Quero convida-lo para Ritos de Passagem a ser exibido no festival Coisa de Cinema, dia 31, quarta próxima, 20:40. Se possivel nos conhecermos. Em 3 Histórias da Bahia, Ingra Liberato fez um episodio, o filme realmente é um marco importante de recomeço. E Riachão, amo o filme e o personagem. Então devo conhecer seu trabalho por aí. Um forte abraço, Alba

    • Marco Alemar disse:

      Oi Alba
      Vou continuar o texto, com certeza! Estou aqui em Salvador e acho q vou ficar umbom tempo….Nao deu para ir assistir o filme,infelizmente, mas muitoobrigado pelo convite.Voce nao esta lembrada, mas nos conhecemos , e sou amigo de sua filha Candida.
      Grande abraco
      Marco