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por Adalberto Meireles

 

Cineasta dos mais cultuados não apenas por sua militância documental – autor da Trilogia do Recôncavo (Maragogipinho, Feira da Banana e A Morte das Velas do Recôncavo) –, Guido Araújo recebe, aos 83 anos de idade, uma das mais importantes homenagens da carreira. Às 20 horas de hoje, o compositor e cineasta Jorge Alfredo lança oficialmente, no Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, a série para TV em cinco episódios, com 26 minutos cada um, O Senhor das Jornadas.

O programa acompanha a trajetória do cineasta, idealizador e criador da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, ex-professor de cinema da Ufba, além de formador de uma geração de cineastas baianos. O Senhor das Jornadas é fruto de um edital em cooperação da Ancine (Agência Nacional de Cinema) com Irdeb (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia) e será exibido também pela TVE-Ba hia a partir do próximo dia 4 de junho, às 19 horas.

Guido Araújo, que já foi homenageado por Jorge Alfredo com uma mostra e o lançamento de um catálogo e um DVD com sete de seus filmes, em O Senhor das Jornadas é acompanhado desde os pri- meiros momentos na cidade natal, Castro Alves, no interior da Bahia.

A chegada a Salvador, pouco antes de Walter da Silveira fundar o Clube de Cinema da Bahia em 1950, a colaboração com Nelson Pereira dos Santos, no Rio de Janeiro, em dois marcos do cinema brasileiro – Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957) – e a ida Tchecoslováquia, onde permaneceu até 1967, marcam os primeiros momentos desta singela homenagem a Guido.

Com o retorno, o cineasta sinalizou o início de sua trajetória de agitador cultural formador de uma geração. Chamado pela Ufba, em 1968, criou o Grupo Experimental de Cinema – GEC/Curso Livre de Cinema e a Jornada, em 1972, que ganhou fama e múltiplos nomes e espaços, a partir do seu quartel-general, o Icba/ Instituto Goethe, no Corredor da Vitória.

De Jornada Baiana de Curta-metragem, passou a nordestina, brasileira e então Jornada Internacional de Cinema da Bahia, reunindo anualmente alguns dos principais nomes do cinema nacional e internacional, como Paulo Emílio Sales Gomes, Rudá de Andrade, Thomaz Farkas, Paul Leduc, Miguel Littin e Joris Ivens.

“A gente brincava que esse núcleo era o Politburo: Guido, Farkas, Paulo Emílio, Rudá e Cosme (Alves Netto)”, afirma a jornalista e crítica de cinema Maria do Rosário Caetano.

“Apesar do formato – uma série para TV –, decidi fazer o lançamento na tela grande por todas essas memórias afetivas e pelo prazer de mostrar a série de uma só vez e com uma projeção à altura do nosso querido Guido Araújo”, afirma Jorge Alfredo, diretor de Samba Ria- chão (2001).

Nomes como Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, Silvio Tendler, Octávio Bezerra, Emmanuel Cavalcante, Edgard Navarro, Pola Ribeiro, Fernando Belens, José Araripe Jr. e Roque Araújo somam-se a um sem-número de entrevistados que fazem tributo ao cineasta.

Roque Araújo diz que Guido foi um provocador da política e da cultura. Para Roberto Duarte, agitador de uma geração. “Foi o festival mais importante para o cinema brasileiro”, diz Nelson Pereira dos Santos. “Poucos tiveram as características da Jornada. (Guido) procurava sempre um cinema mais in- dependente, mais autoral, um festival que refletisse as questões de uma repressão político-militar”, afirma Octávio Bezerra.

“Seria muito bom para o futuro do cinema brasileiro que voltasse a acontecer todos os anos”, diz Orlando Senna, que diz, fazendo coro com Silvio Tendler, ao lembrar que a Jornada sobreviveu aos piores anos da ditadura: “Acontecimento progressista, desaparece exatamente em um dos primeiros (senão o primeiro) governos progressistas da Bahia”.

De caráter profético e anunciador, a Jornada era um verdadeiro movimento marcado por acontecimen- tos inesperados. Encontra agora um tom melancólico em outras palavras de Senna: “O interessante é que quando chega a era digital, em que os suportes não têm importância, a Jornada deixa de existir”. O documentário de Jorge Alfredo tem o mérito de ser um tributo à trajetória do mestre. E como tributo é um trabalho em que se destacam o carinho e o afeto por Guido Araújo.

O SENHOR DAS JORNADAS / DE JORGE ALFREDO / HOJE, 20H / ITAÚ GLAUBER ROCHA

publicado em A Tarde

3 Comentários...

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