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por Marília de Aguiar

 

Quase 2.000 Km numa Kombi velha e com o tanque de óleo furado!!
Descobrimos o problema logo no comecinho da viagem, quando entramos na Via Dutra, saindo da Marginal Tietê (SP). Indício de que nossa viagem de São Paulo até Salvador seria turbulenta.
Nem passou por nossas cabeças desistir. Não havia outra opção. Voltar para onde?
Tínhamos abandonado nossa casa, fugindo da invasão da polícia anunciada para aquela noite.
Era um período violento e assustador da ditadura militar no Brasil, com amigos sendo presos, perseguidos, torturados e alguns até desaparecidos e nunca encontrados.
Casas, carros, teatros, qualquer lugar poderia ser invadido pela polícia, que revistava as pessoas, quando bem entendesse.
O clima era pesado no final de 1970. As mortes de Jimi Hendrix em setembro, seguida pela da Janis Joplin pouquíssimos dias depois, contribuíram para aumentar ainda mais nossa tensão. Era melhor buscar outros lugares.
Falamos com João Loureiro, um amigo da Bahia, que se comprometeu a negociar alguns shows dos Novos Baianos em clubes de Salvador e do interior.
Chamamos o Pepeu Gomes, que estava morando em Ribeirão Pires (SP) tocando num conjunto musical chamado Os Enigmas. Além dele integravam a banda o Pedrão Baldanza/baixo, Odair Cabeça de Poeta/bateria e o Jean/guitarra. Alguns deles já tinham acompanhado os Novos Baianos em apresentações e todos aceitaram na hora o convite feito para participarem dos shows na Bahia.
* Baby Consuelo morava no Rio, mas confirmou que iria ao nosso encontro em Salvador.
Embarcamos todos na Kombi, que ficou bem cheia, apertada e muito quente.
Éramos nove pessoas, Carlos Pitoco, o amigo dono da Kombi, Moraes Moreira, Galvão, Paulinho Boca, Eu, Pepeu, Pedrão, Odair e Jean), muitos instrumentos e nossas poucas roupas.
Por causa do tanque furado foi necessário parar muitas vezes em postos na estrada para repor o óleo e assim todo o dinheiro que havia, juntando o pouco de cada um, acabou depressa. Ainda estávamos atravessando Minas, bem longe da divisa com a Bahia.
A situação piorou ainda mais.
Na entrada de Medina (MG) a Kombi deu sinais de que não aguentaria continuar.
Era tarde da noite, a cidade estava deserta, as luzes eram fracas e não havia ninguém nas ruas para indicar uma oficina.
Parecia mesmo uma cidade fantasma.
Conseguimos chegar ao Mirante, na parte mais alta, de onde se via toda a cidadezinha e paramos na frente de um posto de gasolina que estava fechado naquela hora.
Aí então a Kombi morreu de vez.
Nós estávamos bastante cansados, então estendemos alguns panos pelo chão e dormimos por ali mesmo, na frente do posto de gasolina.
Um sol forte e o barulho das vozes incrédulas dos funcionários e clientes nos acordaram.
Quem seriam, de onde vinham, o que queriam em Medina tantos cabeludos esquisitos?
Contamos sobre os shows na Bahia, pedimos para chamar um mecânico. Era preciso seguir viagem, não tínhamos a menor intenção de ficar por lá, havia trabalho esperando por nós!
Até aquele momento gente não sabia como iria pagar pelo conserto, mas isso se resolveria depois.
A notícia da nossa presença se espalhou rapidamente pela cidade.
Ficamos ali, sentados no chão, esperando o mecânico dizer quanto tempo iria demorar e qual seria o valor.
De repente fomos surpreendidos pela chegada de uma caminhonete grande e barulhenta, que encostou ao lado da Kombi. Dela saiu um homem novo ainda, o Jaiminho Barros, conhecido por todos da cidade. Ele sabia quem eram os Novos Baianos, adorava música e queria ajudar.
O mecânico calculou que demoraria cinco ou seis dias para nossa Kombi rodar novamente. Uma das peças quebradas não era vendida em Medina, tinha que ser comprada em Vitória da Conquista, distante 185 km.
Jaiminho autorizou a compra, se responsabilizou por todos os pagamentos e nos levou para sua fazenda, com todos os instrumentos.
Muito lindo o lugar. Matas sem fim, lagos, cavalos, casa grande, varanda cheia de redes, camas para todos, comida farta e Som o tempo todo. Ficamos uma semana nesse lugar maravilhoso.
Quando a Kombi ficou pronta decidimos seguir viagem.
Jaiminho precisava ir a Jequié resolver algumas coisas e convidou Paulinho Boca, Galvão e Eu para irmos no carro com ele. Os outros seguiriam na Kombi.
Marcamos o encontro no jardim do Belvedere, por volta do meio dia, 340 km na frente.
Lá chegando, nos despedimos do Jaiminho muito agradecidos por tudo que fizera, inclusive pelo dinheiro “emprestado” para seguirmos até Salvador.
A Kombi já deveria estar próxima e ele precisava voltar para Medina.
Meio dia, duas horas, dezoito horas! Nada!! Ficamos esperando muito tempo na praça. A noite chegou e nenhum sinal dos outros.
Acabamos dormindo nos bancos do jardim, sem notícias, e ali ficamos por mais um longo dia, até a chegada da Kombi, que havia quebrado outra vez na Rio Bahia.
Ninguém tinha telefone. Como avisar?
Finalmente chegamos a Salvador! Fomos para o pequeno hotel Miramar, no Porto da Barra, reservado pelo João Loureiro. E logo recebemos dele a péssima notícia: nenhum show estava confirmado!
E agora, o que fazer?
Só aproveitar a praia, encontrar algum amigo que pagasse um acarajé, visitar algum outro e ficar para o almoço. E também fazer Som todas as tardes, sentados na mureta do Porto da Barra ali em frente, vendo o pôr do Sol no Farol.
Ficamos felizes com a chegada da Baby uns dias depois e resolvemos esperar alguma coisa boa acontecer.
O tempo foi passando e a conta do hotel crescendo.
O dono nos cobrava diariamente e a situação estava se tornando insustentável. Ele tinha amigos na polícia e pode ter denunciado.
Além disso a quantidade de pessoas que se juntavam a nós na mureta, atraídas pelo som e pelos “baseados” consumidos só aumentava. Era inevitável que isso acabasse chamando a atenção da polícia, comandada pelo temível delegado Gutenberg Oliveira, integrante do Esquadrão da Morte da Bahia e famoso como “hipicida” por que ameaçava qualquer pessoa que suspeitasse ser hippie.
O primeiro a ser preso foi o Paulinho Boca. Não houve flagrante, nenhuma droga com ele, mas era um cabeludo esquisito. Corri para delegacia, levando seus documentos, falei que estava grávida e que tínhamos vindo à Bahia visitar a família. Deu certo e ele foi liberado, mas ficamos bastante assustados.
Nós dois e o Moreira resolvemos então passar uns dias longe daquilo tudo.
Alugamos uma casinha de pescadores em Arembepe, onde ainda nem havia eletricidade. Não tinha camas, só esteiras, mas já estávamos acostumados a dormir no chão.
Os vizinhos eram pessoas simples e amáveis, gostavam da cantoria do Paulinho Boca e do Moraes Moreira. Nos davam frutas e muitas vezes almoçamos e jantamos em suas casas.
Mar limpo, sol, coqueiros, areia branquinha e banho de rio quentinho. Um paraíso!!
O céu era tão estrelado e próximo que a luz não fazia falta alguma.
Um dia fomos avisados por um amigo que o delegado Gutemberg havia prendido todos do nosso grupo que estavam em Salvador e mandado raspar a cabeça deles. Só escapou a Baby por que outras presas da cela gostaram do jeito atrevido dela e pressionaram o carcereiro. Baby cantava com elas e recebeu uma boa proteção.
Paulinho Boca e Moraes Moreira temiam aparecer na prisão e ter o mesmo destino. Falamos com um advogado, Dr Carlito Onofre, e eu fui com ele até a cadeia da Misericórdia.
Soubemos que o dono do hotel Miramar é que tinha denunciado o grupo. Estávamos devendo as diárias e ele quis se vingar.
Quando a prisão foi relaxada fomos todos para Arembepe e nos apertamos em duas casinhas por alguns dias.
Vários jornais noticiaram a prisão do grupo, que foi confundida com um fato político.
Recebemos muitas mensagens de apoio, mas só tempos depois entendemos o equívoco.
Nenhuma perspectiva de shows, Moraes Moreira e Paulinho Boca com medo de perder os longos cabelos numa possível perseguição do Delegado Gutemberg pela estrada, resolvemos então ir embora da Bahia.
A Kombi estava mais apertada com a Baby viajando junto, eu ainda mais grávida e enjoando muito, e nós não tínhamos um lugar certo para morar no Rio de Janeiro ou em São Paulo.
Antes de chegar em Feira de Santana (BA) já tínhamos decidido que a melhor opção seria dividir o grupo. Moraes Moreira, Paulinho Boca e eu ficaríamos esperando em Feira e viajaríamos depois, quando tudo estivesse mais seguro e os outros tivessem encontrado uma casa pra gente.
Paulinho Boca tinha um irmão, Rubens Oliveira, que era gerente de um posto de gasolina na entrada da cidade e dividia uma casa com dois amigos ali perto.
Já era madrugada quando paramos na porta deles.
Só nós três descemos, pusemos nossas sacolas na calçada e a Kombi seguiu viagem.
Demoramos para conseguir acordar o Rubens, chamando baixinho nas janelas laterais e do fundo. Não queríamos fazer barulho para não assustar os vizinhos.
Finalmente ele acordou, explicamos a situação e ele aceitou nos receber.
Quando voltamos para pegar nossas coisas não encontramos mais nada, tudo tinha sido roubado.
Ficamos só com as roupas do corpo e sem dinheiro algum.
Fazer o que? Fomos dormir. (……….)

 

 

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