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Por André Setaro

 

Há um quê de chapliano nos filmes de José Araripe, principalmente Mister Abrakadabra, que possui a dinâmica do cinema mudo e revela, em suas imagens, uma querência de poesia que possa emergir daqueles sonhadores que se encontram marginalizados do convívio social, assim como nos três perâmbulos de Esses moços. Em Rádio Gogó, curta, assim como a fita do mágico, que assinala a derradeira aparição de Jofre Soares no cinema, também o enfoque é sobre pessoas que tentam se firmar como autênticos locutores, embora não passem de simulacros perdidos.

Em um determinado momento de Esses moços, eis que Gideon Rosa adentra o vagão de trem, trajando passeio completo, e como pastor, declama alto e bom som suas palavras de ordem divinas. O velho Diomedes, sentado, ainda que não se espante, diz a ele que Jesus falava mais baixo. O trem da Calçada me faz também recordar a minha infância, apesar de criado na Cidade Alta, no bairro de Nazaré. Mas ia muito à Cidade Baixa e um belo dia tomei o trem para ir a São Tomé de Paripe passar o domingo com um parente que lá veraneava. O trem tem um sabor nostálgico. Esses moços como que redescobre a imagem de uma Bahia que parecia perdida, ainda que marginalizada e pobre.

Gil cantando Esses moços, de Lupicínio Rodrigues, encerra o filme, que vai mostrando as imagens suburbanas. Um touch poético, sem dúvida, e a imagem de Diomedes no trem, sentado, expressa toda a sua solidão e a sua necessidade de integração a um passado que o vento levou, quando era músico de orquestra, da orquestra dos ferroviários. Ao contrário de filmes como Ó Pài, Ó, cujos gritos carnavalizam uma Bahia decadente, mas, por outro lado, registram a miséria de nossa cultura, Esses moços tem uma narrativa tranquila, sem os faniquitos peculiares à contemporaneidade axesística.

Um nome a registrar: a do diretor de fotografia Hamilton Oliveira cuja iluminação dá a Esses moços uma intensa participação da luz no processo de criação cinematográfica. Fotografia boa é aquela que irradia a luz, pontuando-a nos locais exatos e que possa servir de apoio à narrativa. Hamilton soube compreender, fotograficamente, os propósitos de Araripe em Esses moços e lhe deu a iluminação adequada. Já conhecido do cinema baiano por sua competência, Hamilton Oliveira dá, aqui, no filme de Araripe, passos largos em direção à sua consolidação como um dos melhores diretores de fotografia do cinema brasileiro.

 

 

 

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