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por André Setaro

 
Sobre ser um documentário sobre um período efervescente musical feito com garra e competência artesanal, Filhos de João – O admirável mundo novo baiano, de Henrique Dantas, é, também, um admirável registro de uma época, um documento, um resgate de tempos idos e vividos cujos reflexos podem ser sentidos ainda na contemporaneidade. O filme envolve e a envolvência se dá por causa de uma montagem ágil e inteligente. Apesar de ter visto Filhos de João – O admirável mundo novo baiano no Cinema do Museu, com projeção péssima, a precária situação do outrora simpático cineminha não conseguiu arrefecer meus ânimos cúmplices em relação ao registro de Henrique Dantas, que, estreando no longa, diz logo que veio para ficar.

A produção de sentidos de Filhos de João se estabelece pela montagem feita por Bau Carvalho e pelo próprio realizador. E, claro, pelos depoimentos interessantes, sinalizadores de um tempo, pelas imagens antigas dos músicos in progress. O Festival de Brasília, arrebatado com o ritmo do filme e o carisma dos músicos, não hesitou em premiá-lo. A fita de Dantas poderia ter resultado em mero resgate das imagens pretéritas sem nenhuma, por assim dizer, substância cinematográfica. O resultado, porém, contraria o dito, pois há, patente, um sentido rítmico que confere ao filme uma excelência do ponto de vista cinematográfico. Ainda que um longa, os seus 76 minutos, uma duração abaixo da média, surgem, porém, na medida exata para que Filhos de João tenha um corpus enxuto e envolvente e destituído das repetições de praxe tão presentes nos documentários made in Brasil. Uma prova disso é que, quando o filme termina, o espectador quer mais. Billy Wilder, genial cineasta austríaco-americano, disse que um bom filme é aquele que, decorridos 90 minutos de sua projeção, o espectador tem a sensação de que somente decorreram 15 minutos. O mesmo se aplica à fita de Dantas.

Deveria ter visto o filme no Multiplex Iguatemi, que tem uma excelente projeção. Mas, por problemas diversos, e porque não queria perder o filme de Dantas, e principalmente, um filme baiano, a minha opção, com o passar do tempo, ficou restrita ao desaparelhado Cinema do Museu, que precisa urgentemente ser fechado e reformado.

Filhos de João – O admirável mundo novo baiano é história do grupo musical Novos Baianos, o famoso grupo liderado por Moraes Moreira, Galvão, Paulino Boca de Cantor, Baby Consuelo, entre outros.  Concentra-se em um dos períodos mais férteis e efervescentes da produção musical brasileira – final da década de 1960 – época em que o grupo eclodiu.

Foi neste período que João Gilberto, recém-chegado dos Estados Unidos, começou a conviver com os Novos Baianos, tornando-se uma espécie de guru. Com extrema sensibilidade, e absoluta despretensão, transformou a mentalidade daqueles jovens irreverentes e mudou o rumo da MPB.

Há uma onda de documentários musicais no momento: Coração vagabundo (sobre Caetano Veloso), o de Paulo Vanzollini, Vinicius, de Miguel Faria, o de Wilson Simonal, Samba Riachão, de Jorge Alfredo (que também ganhou em Brasília, mas mais antigo, de dez anos atrás), Uma noite em 67, de Ricardo Calil, o de Tom Jobim, que Nelson Pereira dos Santos está concluindo, entre muitos outros. Mas, pela elegância de sua montagem, pelos depoimentos tomados com precisão e articulados numa estrutura narrativa sólida, Filhos de João, se não é o melhor encontra-se entre os melhores dessa safra. E vem aí mais um filme de Henrique Dantas, um documentário especial sobre Olney São Paulo, cineasta feirense, autor de O grito da terra, Manhã cinzenta, O Forte, e muitos curtas. Olney, desaparecido prematuramente na segunda metade dos anos 70, fez parte ativa do Ciclo Baiano de Cinema, que nos brindou com filmes como Barravento, de Glauber Rocha, A grande feira e Tocaia no asfalto, ambos de Roberto Pires, que pode ser considerado, sem hesitação, como o maior artesão não somente do cinema baiano, mas do cinema brasileiro.

É verdade que nos filmes documentários sobre personalidades da MPB o carisma que possuem muito contribui para o envolvimento do espectador. Riachão, por exemplo, figura simpática e sui generis, agradou em cheio ao público, que, muitas vezes – e não estou a me referir ao filme Samba Riachão, esquece do elo sintático (da linguagem, da maneira de tratar o tema…) para ficar somente preso ao elo semântico. Filhos de João, porém, consegue unir os dois elos da chave cinematográfica com absoluto sucesso: as imagens se sucedem no ritmo da agitação de seus personagens musicais, dando tempo para que o espectador sinta o progresso da narração.

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Ficha técnica:

Roteiro e Direção: Henrique Dantas.

Produtor Executivo: Henrique Dantas.

Diretor de Fotografia: Hans Harold.

Montagem: Bau Carvalho e Henrique Dantas.

Produção: Adler Paz, Bau Carvalho e Solange Lima.

Som: Nicolas Hallet e Paulinho Seabra.

Produtor de Finalização: Marcos Carvalho e Lula Oliveira.

Finalizador: Bau Carvalho.

Desenhista de Créditos: Izqui (Joselito Cochran); Ricardo Berto.

Concepção Gráfica: Fabrício Branco. Assistente de Produção: Daniel Fróes.

Consultoria Jurídica: Caio Mariano Senna.

Duração: 76 minutos.

Formato: Digital e 35mm.

Som: Dolby 5.1. Janela: 1.85.

Ano de Produção: 2009.

 

artigo publicado em 04/08/2011

 

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