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A Câmera Selvagem*

 

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por José Umberto

Com a ajuda dos querubins e seus espetos quentes conseguimos desvirginar quilômetros e quilômetros de celulóides coloridos. A luta foi árdua e ainda não se esbarrou. Tem muita coisa p’rá frente. O Anjo Negro brotou de uma comunhão. Formamos uma massa compacta, um cacto maciço, uma boiada & aboiamos canções cinematográficas. Juntos, em espírito integral de equipe, filmamos todos takes. Isso não é razão p’rá espanto, não constituiu em milagre barroco, ou cousa lá que o valha ou desvalha. A barra é outra: por sinal, simples. A juventude está em gesta. Alguma coisa está borbulhando. Não se sabe donde vem e p’rá onde irá. Só se cogita que alguma nuvem doirada feiticeira paira no ar. As crises política&militar&existencial sopram ventos e assobiam tempestades que rolarão pausadas num grande rio secular que explode ondas verdes. Os salpicos formarão bacias, lagos, baías, baiões, filmes, murais, teatros e quien sabe mais o quê… Há a força, os músculos, os anseios e se adicionando a coragem e a persistência se rompem cordilheiras. O umbigo de tudo está aí. Falta um impulso, uma pressão, um soco, um sussurro qualquer, às vezes, e basta. As filmagens desandaram nesse ritmo desesperado. Surgiu, de repente, o que pessoas esperavam. O cinema baiano está sempre à espera de alguma coisa: dinheiro, incentivos governamentais, etcetera.

Nós encontramos de mãos beijadas o desejo de realizar alguma coisa, e retirar a nossa paisagem dessa apatia desenvolvimentista. As pessoas estão aí, nas praças, nas avenidas, nos bares, apartamentos, camas, esperando o milagre acontecer. Mas ele não cai do céu. Nós é que lançamos as mãos das nuvens e como duendes sopramos a direção mais conveniente. Neste dengo as formas vão raiando às mais variadas. De início desfocadas, deformadas, pesadas, nubladas. A câmera aí baila em travelling sobre o arco-íris. As lentes vão filtrando cores que se desmancham à distância horizontal. Num corte brusco o sol eclipsa e das profundas noturnas eis que o brilho de chumbo faz secar o clarim de um anjo pagão que foge para o encontro, com uma lança na esquerda e mil conchas de estripulias na direita. O universo volta a ser o mundo. As pessoas voltam a ser gente. Mas tudo mudou de repente. Todos sabem e fingem não consultar. Na roda está o transe. Espíritos brabos querem empurrar os oceanos p’ros desertos. Donde já se viu disso, gente. Não adianta gritar, corar, desesperar, chorar, lamentar… A engrizilha está solta, enfestando tudo e todos, com a força selvagem e secular dos risos e lágrimas de todo um continente novo. A dificuldade está em selecionar e dissecar isto tudo. Para tanto é necessário aprontar e aperfeiçoar os instrumentos sem tentar domá-los. Deixemos desfilar ao léu.

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A CÂMERA SELVAGEM. À-toa. Sabendo instintivamente p’rá onde vai, p’rá onde vem, p’rá onde deixou de ir. Nada de intelectualismo. Nosso cinema de agora p’rá diante precisa de espíritos circenses. Na explosão espontânea, uma cinematografia que revele uma realidade desconhecida. Comeremos as raízes e expeliremos folhas, flores e frutos que nunca desconfiávamos estar por trás das nossas sombras. Tudo está ainda por se descobrir. Somos rebentos de um mundo novo. É simplesmente repulsivo tornarmos crianças prostituídas. O sonho acabou mas o pesadelo persiste, feroz, ousado, querendo destruir tudo. Ainda está cedo p’rá tanto. O sangue corre desembestado pelas veias, como o filme virgem desfila em cadência sobre o corredor misterioso da filmadora. Assim sendo, acenderemos uma tocha e na agonia outros fogos serão paridos até o amanhecer. Na claridade os olhos deslumbrarão, os pés pisarão, as mãos tocarão, os colos amarão, as cabeças assombrarão e todas as preguiças, serpentes, sapos, vermes e outros bichos serão expulsos de uma terra que onde se filma tudo se vê e tudo se ouve. Essa paisagem projetada cria um círculo brilhante que arrasta as pessoas para um espetáculo mágico, inesperado, revelador. Tudo a partir daí se transforma… e ninguém sabe o que será.

the end

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os anjos descobriram o cinema na Bahia e anunciaram festeiros que não vão parar o embalo. Vejam e ouçam o pipocar dos negrinhos.

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 Longa-metragem, Sonoro, Ficção

Material original: 35mm, cor, 80′, 2.195m, 24q, Eastmancolor, 1:1’37

Origem: Salvador (BA)
Produção:1972
Locações: Salvador e Museu Wanderley de Pinho (Museu do Recôncavo)
Distribuição: Fama Filmes
Direção: José Umberto
Assistente de direção: Carlos Atahyde
Companhia(s) produtora(s): J. U. Dias Produções Cinematográficas
Produção: José Umberto
Produção executiva: José Umberto
Direção de produção: Rubem Medrado
Assistência de produção: Olivan Costa Leal
Argumento: José Umberto
Roteiro: José Umberto

Direção de fotografia : Vito Diniz
Elétrica: Eugênio Skolwaks

Sonoplastia : Orlando Macedo, Sérgio Martins, Djalma Bahia

Cenografia : José Umberto

Montagem : Charles F.M. de Almeida

Música: Jaime Sodré, Moisés Gabriele, Mundinho, Marcelino, Jorge Vital

Elenco: Mário Gusmão (Calunga)
Raimundo Matos (Juiz Hércules)
Eliana Tosta (Julia)
Roberto Maia (Carlinhos)
Eládio Freitas (Getúlio)
Frieda Gutmann (Irene)
Jacques de Beauvoir (Índio)
Adagmar Valéria (Luanda)
Carlos Athayde (Padre)
Antônia Veloso (Carol)
Jurandir Ferreira (Funcionário)
Sônia dos Humildes (Freira)
Batuta Gusmão (Pai-de-santo)
Luciano Gusmão (Repórter)
Gildásio Leite
Juracy Matos
Carlos Borges

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*publicado no Jornal da Bahia, Suplemento Cultural, domingo e segunda-feira, 4 e 5 de junho de 1972 /
frames de O Anjo Negro captados por Pablo Oliveira numa cortesia da Truque Produtora.

Um Comentário...

  1. […] também O Anjo Negro, por José […]

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