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O ATAQUE DE PIGMALEÃO AO INCONSCIENTE DE BOCA DE LOBO

por Daniel Lisboa

Uma entidade ferozmente violenta rasgou a noite da cidade. Era um PIGMALEÃO, metade pigmeu, metade maldade, metade mico-leão. Horas após sua passagem ainda sentíamos o odor do seu rastro torto. Mix de pinho sol, alfazema e suco de sovaco. Sua juba pixaim albina era três vezes maior que seu corpo. Carregada de entidades minúsculas, algumas invisíveis, outras transparentes, a cabeleira era um carnaval de micro-acontecimentos. Ele precisava se alimentar para alimenta-las. Comida craniana, psicologia alimentar de segundo grau, sumo de moleira. O PIGMALEÃO é um devorador de inconsciências, alcoólicas ou não, transitórias ou não, inconsistentes ou não. Eu morro de medo do PIGMALEÃO, entidade maldita que dorme no subsolo do subsolo da estação da Lapa.

Cabeça de bêbado não tem dono!…era a frase que vociferava sua mente. PIG sabia o que queria, sabia qual era o cardápio da noite. Mil cerebelos alinhados, centrados num mesmo alimento, num mesmo crânio, na glória do inconsciente! Nem políticos, nem modelos, marinheiros ou piranhas. Hoje eles queriam a inconsciência alcóolica de BOCA DE LOBO, o bêbado mais bêbado do Rio Vermelho.

BOCA DE LODO, como também era chamado, coletava todos as sobras de cerveja das mais de 100 mesas do Largo do Santana. Segundos antes do garçom passar para recolher os copos, como uma livusia, ele derramava os MLs restantes em seu gogó. Quente, na morte, com marca de batom, de moço ou de moça, não importava, se uma linha de cerveja tivesse, o fim dela seria na boca de LOBO.

Nesta noite o aroma exalado pelo corpo de BL já pesava o ar. Superava o cheiro do azeite de dendê e da urina acumulada nas paredes da igreja. Entre centavos pedidos e golinhos roubados alcançava sua inconsciência. Flutuava como um mastro torto por entre as ondas sonoras da boemia sem saber do risco que corria.

Com seu ultra calejado olfato, PIGMALEÃO aproximava-se do seu objetivo. Sabia do gosto azedo que o aguardava. E salivava, salivava tanto que os pelos ao redor da boca pareciam estalactites.

BL se afastou um pouco do seu altar etílico para demarcar território na disputada parede da igreja. Antes que pudesse levantar as calças sentiu algo segurando sua perna. Algo peludo, meio ruivo, meio dourado, não era gato, não era rato, era PIGMALEÃO que o aguardava dentro do bueiro. Já era, já foi, já é, é rápido. Ninguém mais viu BL nessa noite de BAxVI.

Velozmente, simultaneamente as presas de PIGMALEÃO cravaram no crânio de BL e sequencialmente as micro entidades mergulharam nos poros do couro cabeludo do seu hospedeiro. Espectros, fluidos, sentimentos multicor irradiavam daquele encontro, daquele choque de monstros.

BL foi acariciado e lambuzado. Acordou são no porão da estação. Nesse dia não houve ressaca. Nesse dia o dia lhe pareceu dia. BL acordou liso, consciente. Pensou sobre a vida, sobre o tempo, sobre a morte e sobre o copo de água ardente que o aguardava.

 

 

 

 

 

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