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por Jorge Alfredo

 

 

Eu estava em Salvador no verão de 1980, e já havia feito o show de lançamento do meu primeiro LP “Quem fica é quem traz o sol”, no Teatro Vila Velha, quando chegou a notícia da classificação de “Rasta Pé”, no Festival da Globo. Voltei pra São Paulo e entramos no estúdio, eu e Chico Evangelista, para gravar “Rasta Pé”. Durante minha estadia no verão, em Salvador, eu havia cantado no show do Vila, em companhia de Gilberto Gil, com acompanhamento apenas dos nossos violões, duas músicas récem compostas; “Rasta Pé” e “Música Alegre”. Como no regulamento do Festival exigia o lançamento de um compacto com a música selecionada, “Música Alegre” ficou sendo o lado B do compacto porque Chiquinho adorou a versão que lhe mostrei – aquela coisa de um repetir o que o outro canta – “enquanto a sanfona começa a tocar (enquanto a sanfona começa a tocar)”; uma idéia de Gilberto Gil, que cantou essas músicas comigo no Teatro Vila Velha. Incorporamos, inclusive, os arranjos que Gil fizera comigo pra “Rasta Pé” (aquela introdução vocal) quando gravamos o compacto simples. A 1ª eliminatória do Festival foi em abril de 1980, no Teatro Fenix, no Rio de Janeiro. A parada era dura. As músicas concorrentes eram muito boas.

Teatro Fenix, durante apresentação ao vivo da 1ª eliminatória do MPB Shell, abril de 1980 – Rede Globo

A nossa apresentação foi bacana, eu diria até iluminada; Tony Costa, na guitarra, Cid Campos, no baixo, Gigante Man, na bateria, Cezinha, na percussão… a mesma turma da gravação do compacto simples; e tudo deu certo;  a empolgação do público presente impressionou e contagiou a todos. No final da música, quando vira um afoxé, formamos uma fila percussiva com triângulos e caxixis e demos uma voltas em meio à platéia e não deu outra; de repente, estava todo mundo cantando com a gente e marcando ritmo com as mãos, com os corpos e corações…

Foi um sucesso estrondoso o Rasta Pé! Já no dia seguinte no saguão do Aeroporto Santos Drummond embarcando pra sampa, nos vimos reconhecidos e assediados por todo tipo de gente. Depois descobrimos que era muito por causa da chamada que a Globo havia colocado no ar logo depois da 1ª eliminatória usando a nossa imagem e a nossa música como propaganda da 2ª eliminatória que aconteceria somente no mes seguinte. Mal chegamos em São Paulo, principalmente depois da ida à Copacabana Discos para conversar com os dirigentes da Gravadora, pressenti que o que estava por vir seria muito determinante e novo tanto pra mim quanto pra Chico Evangelista. Afinal, a gente não era uma dupla propriamente. Havia feito com Chiquinho cinco ou seis parcerias, mas tinha muito mais afinidade e tempo de amizade com Antonio Risério, por exemplo. Tinha meu primeiro LP pra trabalhar, e “Rasta Pé” chegou forte demasiadamente mudando todos os planos da gravadora. O compacto com “Rasta Pé” e “Música Alegre” começou a vender muito, os convites pra shows pipocavam, começamos a fazer todos aqueles programas de televisão mais badalados, inclusive o Fantástico, Globo de Ouro, Discoteca e Buzina do Chacrinha…

chico e jorge no chacrinha - 1980_3_2

Discoteca do Chacrinha, 1980

A demanda era intensa e o jeito era deixar o meu LP solo pra “depois”. Interessante é que enquanto meu Lp (que já havia sido distribuído pras rádios e imprensa antes da minha ida pra Salvador no natal de 1979) recebia críticas bastante favoráveis de críticos como José Ramos Tinhorão, Tarik de Sousa, o hit “Rasta Pé”, sucesso absoluto de execução nas rádios, não era bem assimilado pela crítica nem pelos meus amigos da MPB. Lembro como fiquei triste ao ver uma entrevista de Gilberto Gil sobre o Festival da Globo em que ele simplesmente não se referia a nossa música “Rasta Pé”.  Senti que havia um distanciamento em forma de silêncio, por parte dos velhos companheiros. Confesso que na época eu não entendia bem o que estava acontecendo; as contradições eram visíveis; com “Reggae da independência”, em setembro de 1979, no Festival da Tupi, fomos incompreendidos pelo juri e a aceitação do público presente ao Anhembi foi apenas simpática.  No entanto, chegamos a ser citados na imprensa como  vanguarda, fomos alentados pelos amigos e recebemos elogios públicos de Caetano Veloso e Jorge Ben… Já com “Rasta Pé”, apenas seis meses depois, éramos visto pelos formadores de opinião “como um sucesso comercial letárgico”. Os amigos optaram pelo silencio e o público espalhafatosamente nos embalava. Era o avesso do avesso.

 

4 Comentários...

  1. Edi Corrêa disse:

    Que bacana a foto com a Sarita Catatau. Tempos inesquecíveis. Rasta Pé Moçada estourou na época. Me lembro das apresentações na Discoteca do Chacrinha e Sarita Catatau interagia e o público ia ao delírio! Era fantástico!
    Postar mais fotos nos programas do Chacrinha. Essas fotos são um tesouro que merecemos ver! Tempos bons que jamais voltam. Sucesso!
    Edi Corrêa

  2. Molisson Machado disse:

    Eu lembro muito do Jorge Alfredo e Chico Evangelista. Quando eles cantavam no Chacrinha (ainda na Bandeirantes) “Rastapé, né moçada… no passo dessa dança…” a Sarita Catatau entrava em cena dançando. Era um Show, depois eles sumiram, fazem falta!

  3. Xela disse:

    Muito legal relembrar vocês. era criança e aqui em casa tinha o compacto. Voc~es tem mais fotos no progama do chacrinha?

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