Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!

caderno-de-cinema

Home » Artigos » O caminho para chegar lá

 

 

por Adalberto Meirelles

 

A história de Trampolim do Forte, o longa do baiano João Rodrigo Mattos é deflagrada tendo como princípio básico uma ideia simples: onde falham os pais, ou responsáveis, instaura-se um caminho aberto à droga, à prostituição, à marginalidade.

Deo (Lúcio Lima) está às voltas com as brigas da mãe com o padrasto que a espanca. Feliz (Adailson dos Santos) não se contenta com a obrigação de dispensar praticamente todo o dinheiro da venda de picolés para o reverendo, que o recebe como dízimo pago pela mãe.

Ambos são meninos que não chegaram à adolescência. De volta para casa, perto do Porto da Barra, Deo não encontra mais a mãe (que resolve deixar o marido), briga com o padrasto e ganha as ruas. Felizardo é inicialmente assaltado, perde o dinheiro do picolé e acaba cooptado para parceiro em pequenos furtos por um dos garotos que o roubou.

O desafio do filme é mostrar como os dois vão tangenciar a marginalidade e, finalmente, passar batidos por aquele momento da vida.

Dispara então a narrativa, que tem o ritmo frenético dos garotos que não conhecem limites e partem desabalados pelas ruas. O trampolim do Forte de Santa Maria, o Porto da Barra, é para onde correm Deo, Feliz e toda turma ali do encontro.

O forte e a praia do Porto, em si, são como uma metáfora. O espaço onde se organiza uma zona de prazer – que reúne de pedófilos a prostitutas em início de carreira, estrangeiros que fazem turismo sexual, traficantes, ladrões e um sem-número de párias sociais –, que alcança o ponto máximo no trampolim do salto sem fim, com o baque surdo e o barulho abafado do corpo se revolvendo sob a água de volta à superfície.

É por isso que se justifica a opção pela fotografia vibrante, explorando o forte em contraluz e em seus mais variados ângulos. Um atrativo a mais nesse filme que trabalha bem os personagens principais e alguns a sua volta que se abrem em subtramas definidas em um espaço geográfico preciso: o limite é o forte. Os fios correm em direção à Barroquinha, à Praça Castro Alves, passam pelo Mercado Modelo e se estendem, no máximo, até a Ilha, para onde Deo parte em busca da mãe, que não encontra.

Num salto, ele retorna ao Porto praticamente na garupa de uma das barcas que fazem a travessia Mar Grande-Salvador. Aliás, este é o melhor momento do filme, em que o menino joga-se na água – com outros garotos da Ilha em corpos que se abrem no mar –, e inicia uma aventura perigosa, preso a um dos pneus que servem de anteparo, até ser fisgado e devolvido de volta à barca.

Dito isso, é para notar que Trampolim do Forte tem força e atrativos para o público. É um filme de qualidade, mas que também apresenta problemas em seu tecido dramático. Um deles, uma das abas principais de toda a história, é a figura de um “verdadeiro Tadeu” noticiado pelas rádios e televisões que aterroriza, estupra e espanca as meninas das redondezas.

A descoberta e a captura do maníaco não se completam em uma ação contundente como a gravidade do fato requer. E a opção pelo humor, seja na relação do reverendo com a mãe de Feliz ou na presença de tipos como o turista sexual e o idoso que caçam meninas na praia, meio que esvazia um possível caráter de denúncia social do filme.

Por outro lado, o humor se resolve bem em diversos momentos, como quando Deo e Feliz resolvem dormir na rua, no passeio ao lado do Forte de São Diogo, e passam a noite atormentados pelo frio e assombrados com a ideia de que “o verdadeiro Tadeu” pode aparecer a qualquer momento.

Há diálogos interessantes, típicos de uma infância que se depara com estranhas situações que não consegue decifrar. E situações bem-resolvidas, como a ação resultante da relação de Feliz com o novo parceiro, Fuleirinho (Everton Machado) – um balé de carteiras surrupiadas nos coletivos e que logo chegam à caixa de picolé -, até a briga dos dois com a participação de Deo.

Trampolim do Forte não encontra a contundência de filmes determinantes que se orientam em torno da infância desassistida, como Pixote – A Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco. Mas João Rodrigo Mattos mostra que sabe o caminho para chegar lá.

 

Deixe um comentário