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por Tuzé de Abreu

 

 

Em 2005 fui a Berlim tocar instrumentos de Smetak, mostrar algo do meu trabalho e participar de improvisações coletivas. Foi comigo Thomas Gruetzmacher, músico e também antigo colaborador de Smetak. Thomas era filho de alemães e falava fluentemente o idioma deles.  Antes de viajar encontrei a querida amiga flautista Elena Rodrigues (que infelizmente, como Thomas, já não está entre nós) que tinha estudado flauta e morado na Alemanha por alguns anos. Ao saber que eu estava indo para lá, pediu-me algumas caixinhas de um chá que, segundo ela, era muito comum e barato. Escrevi o nome num caderninho que levei. Na noite anterior à viagem, sonhei que saia do hotel (não tinha a menor ideia de qual era nem onde ficava este hotel) e virava à direita. Depois de andar um pouquinho, sem nem atravessar a rua, encontrava um lugar onde vendia o tal chá.
Viajamos. Foi uma tremenda confusão para montarmos um grupo para os instrumentos de Smetak  que levamos, arranjar locais e horários para ensaiar. Tínhamos cerca de quatro dias. Sem falar nas minhas músicas.Conhecemos muita gente legal, era um festival de música experimental e todos eram bem abertos a todas as ideias. Uma tarde, Tato Taborda, experimentalista carioca que levou um instrumento meio casa meu roupa, que se chamava Geralda , precisou substituir um  pequeno componente eletrônico nele. Alguém indicou-o uma loja famosíssima que vende de alfinete a avião. Thomas foi com ele para ajudá-lo com o alemão, e eu fui para conhecer a tal loja, um edifício com muitos andares. A sessão de som , toca discos, microfones, caixas, amplificadores etc. é quase ficção científica. Passeando pela loja  vi uma sessão de chás extremamente sofisticada, com jarrões de porcelana de chás de vários continentes. Caju do Brasil, manga da Sumatra, menta da Irlanda, e por aí vai. Lembrei do chá de Elena. Mostrei ao vendedor o caderninho, surpreendentemente ele não conhecia o tal chá. Fiquei assombrado. Ela me dissera ser um chá comum, que se encontrava em toda parte. O vendedor, a partir das informações do meu caderno, compôs um chá com partes disso, partes daquilo, etc. Comprei um saco dessa mistura. Esqueci o assunto.
Nossos trabalhos foram bem sucedidos, tudo correu bem, fizemos uma bela improvisação com uma cantora islandesa. No dia da viagem de volta, o carro ficou de nos pegar às 14 horas para irmos ao aeroporto. Infelizmente teríamos que deixar o quarto do hotel ao meio dia, e deixar nossas bagagens no saguão.  Assim fizemos. Neste espaço de tempo, resolvi dar uma volta e gastar uma quantidade de centavos de euros que tinha. Saí do hotel, virei à direita, e fui andando. Há uns 100 metros havia uma delicatessen. Entrei lá para comprar, talvez, chocolates. Qual não foi minha surpresa. Nesta lojinha encontrei uma estante com muitas caixas do chá que Elena me encomendara. Como previsto pelo sonho. Comprei uma grande quantidade, realmente era barato. A mistura feita na loja grande veio para minha casa.

 

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