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por Sylvio Back

 

Sim, a obra de arte sobrevive aos homens, desde as gravuras e pinturas rupestres. Milênios após, coube primeiro às iluminuras, logo à fotografia multiplicá-la; depois, ao cinema, com a impensada magia de reproduzir-lhe, tecnologicamente, além do rosto, da voz e do corpo, os seus gestos e a aura deles. Movietones de vida, ação e morte! Não por acaso que “ação” é a palavra-chave para o início de uma filmagem.

Todo filme, com o passar dos anos e décadas, impregna os fotogramas (agora, também, os frames digitais) de uma pátina tão prodigiosa que, diferente daquela observada com ícones e totens, acaba ressumando a um inédito timing ontológico. Assim, uma vez instalada, quem há de extinguir-lhe a espacialidade e a transcendência? Sem esquecer que, contemporâneo à proto-história do cinema, Baudelaire (1821-1867) já preconizava: movimento é sinônimo de modernidade!

Se o passado é pisado, para o cinema, não. Sua imediata presentificação é coisa de nanosegundos, um obturador, um clique, a explosão da lumière, e zás trás, tudo retoma feito sonho jamais esfumado, quem sabe, até em cores. O que parecia perdido renasce incólume, pulsante e imorredouro.

 

Olho e alma

 

Do livro à tela. Soa como incongruência, mas eu queria filmar Graciliano Ramos (1892-1953) antes de ser cineasta. Jovem cinéfilo e leitor compulsivo, deliciando-me com Graciliano em “São Bernardo”, “Vidas Secas”, “Angústia”, “Infância”, logo senti nele um escritor, literalmente, com alma, olho e intuição de cineasta. Porque exímio primevo fautor de descrições minudicentes e diálogos cortantes, todos rigorosamente decupados para a mais imediata e singela visibilidade.

Sem nenhuma coincidência, excetuando “Angústia” (até hoje não filmado), seus livros tornaram-se obras seminais do cinema brasileiro pelo influxo criativo dos cineastas Nelson Pereira dos Santos em “Vidas Secas” (1963) e “Memórias do Cárcere” (1984); e Leon Hirzsman em “São Bernardo” (1971). A propósito, há que citar a existência de um quarto longa-metragem, cujo título é “Insônia” (1980), até hoje inédito em cinemas, e quase sempre esquecido. Organizado em três episódios a partir do livro de contos homônimo de 1947, o filme traz, além das assinaturas de Nelson Pereira dos Santos, a do cineasta Luiz Paulino dos Santos, e do ator Emanuel Cavalcanti.

É que Graciliano fixa seus textos como se “escrevesse” com uma câmara, talvez, intuindo que, afinal, cinema é enquadramento. Como Jean-Luc Godard, Louis Malle, Claude Chabrol, François Truffaut, artífices da Nouvelle Vague, anunciando nos anos 1950: cineasta seria alguém que “escreve com a câmara” (caméra-stylo (caneta).

Invariavelmente, desde D.W.Griffith (1875-1948), a organização da linguagem cinematográfica nos remete tanto à potência imagética de estátuas e afrescos quanto à maestria de um da Vinci, Michelangelo, Rodin, Van Gogh. Ao plasmarem luzes e sombras, composição de formas e de cores, e a perspectiva (ou a falta dela), seus personagens, eventos e paisagens, reais e/ou imaginários, são puro movie.

Sem esse DNA fundador, toda e qualquer elaboração da imagem a posteriori vai por água abaixo. Daí, os grandes cineastas tomarem a câmara como quem empunha um pincel, maneja espátula ou cinzel, para transmutar, encapsulando a realidade bruta e brutal em poesia, encantamento e autoria. Graciliano pertence a essa nobre estirpe de inventores.

 

Fagulha inaugural

 

Como o acaso preside a criação, a fagulha inaugural de biografar Graciliano Ramos no cinema nasceu em meados da década passada. E foi quase simultânea às pesquisas literária, iconográfica e de campo em Maceió e no Agreste alagoano para a escritura do roteiro de “A Angústia”, baseado no seu romance “Angústia”.

No encalço da epifania, o repto logo se fez incontornável, pois a multifacetada e contraditória personalidade de Graciliano extrapola todos os parâmetros do que se esperaria encontrar mesmo em um autor com biografia tão conturbada. Para chegar próximo livrei-me de viseiras e preconceitos às origens e ao périplo existencial, moral e ideológico do meu herói. O primeiro contato remonta antes à obra do que ao autor, e deu-se em 1954 na sôfrega leitura da edição recém-publicada de “Memórias do Cárcere”. Inspirado nela, sem jamais flertar com o leitor/espectador e as circunstâncias, fui desestruturando imageticamente a narrativa de “O Universo Graciliano”.

 

Fada madrinha

 

Não deixa de ser extremamente prazeroso rememorar como e quando tudo começou, fato, aliás, nem sempre tão nítido quando este. Em que momento Graciliano Ramos teria me conflagrado a ponto de hoje eu assinar este acerto existencial de “O Universo Graciliano”, por todas as razões, inescapável da minha própria biografia? Sim, antes de cineasta, eu sonhava ser escritor. No fundo, a fada madrinha do cinema já estava de olho em mim!

Naquela época, adolescente, eu morava na cidade portuária de Paranaguá, litoral do Paraná, onde a família tinha um hotel (não é por acaso que “Aleluia, Gretchen”, meu terceiro longa-metragem, de 1976, se passa num hotel). E, como se estivesse escrito nas estrelas, ora direis, a única livraria da cidade expôs na vitrina os quatro volumes, com capa dura cor de vinho, o também único conjunto da obra póstuma (1954) de Graciliano Ramos, “Memórias do Cárcere”. Vindo a pé do ginásio para casa, me distanciava dos amigos e ia até a livraria admirar a coleção, como se o autor, que eu já frequentava, me chamasse a degustar seu magnífico adeus literário. Minha mãe, inveterada leitora, curtindo meu amor à literatura, de surpresa, com aquele belo sorriso do gozo intelectual, me presenteou o inesquecível acepipe. Desde então, Graciliano grudou na memória, na retina e nos fotogramas.

Agora, fico ruminando o que aquela alemoa apaixonada pelo Brasil diria vendo esta minha declaração de amor e destemor em “O Universo Graciliano” ao polêmico escritor alagoano, tão telúrico e holístico quanto universal!

 

Incompletude

 

A sensação de incompletude é recorrente em todo criador, em especial, quando o projeto se defronta com um personagem tão enigmático, seja de fundo moral e afetivo, seja intelectual, político e ideológico, como Graciliano Ramos. Do “nascimento” como romancista e homem público (prefeito de Palmeira dos Índios e onde escreveu “Caetés”, só publicado em 1933), à sua inusitada prisão e deportação de Maceió em 1936 (“Emigraram-me”, diz Lêdo Ivo relembrando o lamento de Graciliano), a permanência e morte no Rio de Janeiro, seu cotidiano é marcado por tragédias e controvérsias. Uma espécie de dublê fake de si mesmo.

Talvez “O Universo Graciliano” consiga transmitir esse sentimento que foi inflamando o coração e o intelecto já quando estudava sua obra e relatos sobre o autor, até a oitiva de uma vintena de pessoas, direta ou indiretamente, vinculada a ele. E isso fica flagrante ao ouvir quem o frequentou durante décadas como pessoa, ou, por osmose, quem tenha se apaixonado pelos antológicos personagens de “São Bernardo”, “Angústia” e “Vidas Secas”. É que ele deixou uma obra sólida e incólume, inoxidável às intempéries político ideológicas de seu tempo.

É por essa senda que o filme se imiscui, articulando preciosa iconografia fixa e em movimento, música de belos compositores alagoanos, como Heitor Cardoso (1890-1960), Misael Domingues (1857-1932) e Tavares de Figueiredo (1891-1925), para tentar chegar aos porões de uma memória que muitas vezes se recusa a vir a lume. Porque é ali que se fundem e se confundem verdades e mentiras sobre a maior esfinge da literatura brasileira.

 

Outra vida

 

Tal qual uma espécie de second life permeando o próprio roteiro e as filmagens, e aquilo que, selecionado e montado, todo filme engendra sua própria história até faiscar na tela e no inconsciente do espectador. Com “O Universo Graciliano”, sem premeditação alguma, as crônicas que precederam e presidiram as pesquisas e as entrevistas resgatam em Graciliano, sem tônus reducionista, a persona assumida por ele em vida, reconhecida pelos coetâneos, e repicada pela posteridade.

Cada depoimento embute tamanha amperagem de emoção, comoção e estranhamento, que os retratos falados, revelações e inconfidências detonam falácias e mitos que por décadas balizam vida-e-obra do escritor. São atos, feitos & acontecimentos surpreendentes em torno de seu temperamento ora irônico e carrancudo, ora sedutor e, às vezes, até misantropo. Soberbos contornos redivivos em que a memória e a amnésia consagram o entendimento de quem lhes bebe a verdade poética. Uma invisibilidade em que o passado é o que a mente de cada um captura e reescreve a seu bel prazer. É truísmo que o filme da mente não mente jamais!

É também sabido que toda vez que voltamos ao passado ele aparece diferente, como se visitássemos outro país, onde a neblina do olvido e as nuvens do imponderável passam a embaçar as lembranças. E, quem conta um conto, aumenta um ponto, com um dado incoercível, ainda que ninguém se esqueça de nada. Muito menos os velhos. Quanto mais macróbio, mais arguto, maior a pulsão do córtex. Pode demorar a vir à tona, pode vir reticente, tartamudeante. De chofre irrompe e ninguém é capaz de aprisionar a verdade ali contida, já que assoma cruel e implacável. É um fluxo aparentemente desdatado, uma catadupa de prosa poética sem começo nem fim, da memória paroquial à grande desmemória revelada.

 

Elenco inestimável

 

O filme tem várias “estrelas”, se assim eu pudesse chamar estes meus lindos entrevistados que tiveram íntima convivência com o “Velho Graça”, ou o conheceram fora do âmbito familiar como escritor e ente político. Todos, no entanto, conseguem capturar-lhe a mitologia, tout court. Arrisco dizer que a idade média desse inestimável elenco de “O Universo Graciliano” oscila entre 85 e 90 anos, todos com uma lucidez, recordações e coragem assombrosas.

Confluem para o arcabouço investigativo e rememorativo do documentário, dentre outros, laivos familiares da filha de Graciliano, Luiza Amado; os bem-humorados e ácidos comentários do poeta e romancista, Lêdo Ivo (1924-2012); o aguçado senso crítico do seu confidente, o advogado e filósofo, Paulo Mercadante (1923-2013); a percuciente definição de como o escritor encarava seu ofício, pela outra filha, Clara Ramos (1932-1993); a emocionante canção entoada por Beatriz Ryff (1909-2012); o saboroso relato histriônico do historiador Ivan Barros (de Palmeira dos Índios), culminando com o alegre velhíssimo, João Miguel dos Santos, com mais de cem anos (“É, mas estou rodando bem!”), engraxate de Graciliano prefeito de Palmeira dos Índios no final da década de 1920.

A propósito, não poderia deixar de lamentar, reverenciando-os aqui, o desaparecimento, nesse decorrer dos últimos dois anos entre as filmagens e a finalização do filme, de algumas personalidades que, além das acima citadas, também a de Oscar Niemeyer (1907-2012), cujos intimoratos testemunhos, hoje, únicos e irrepetíveis, graças à transcendência do cinema, tornaram-se, digamos assim, imorredouros e imortais.

 

Futuro do pretérito

 

Diante desses rastros, sombras e escombros que a oitiva de uma vintena de depoentes escancaram, procurei inocular a narrativa de “O Universo
Graciliano” do mesmo diapasão das lacunas e “buracos negros”
memoriais. Ou seja, os relatos e confissões procuram fugir à tentação de corte acadêmico. Afinal, Graciliano situa-se, junto com Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, no pódio dos escritores brasileiros mais estudados. Sem rodeios, abertamente, o filme elide-se dessa arrogância intelectual, ainda que deixe entrever um viés crítico sobre sua escrita e obra como um todo.

Se o discurso cinemático ancora-se, primordialmente, no imaginário sobrevivente, é por esse empuxo vivencial que Graciliano é mais uma vez homenageado. Há como que uma permanente sensação de “futuro do pretérito” nas imagens, falas e na propositada “ausência” icônica do personagem, como que referência a algo que seria ou poderia ter acontecido. O futuro do pretérito é a negação da utopia, é onde ficção e recordações entregam sua traiçoeira e, ao mesmo tempo, bem vinda natureza. Não por acaso seu uso é recorrente nos romances “Vidas Secas” e “Angústia”, escritos nesse registro.

Graciliano Ramos, no dia-a-dia, publicamente, é o típico intelectual orgânico do seu tempo, militante do Partido Comunista Brasileiro desde 1945. Certo ou errado, hoje isso não importa mais se chorou com a morte de Stalin. Ou se batizou uma criança com o nome “Lenin” em Palmeira dos Índios ainda nos anos 1920. O que prevalece é que na sua ficção, dos três romances clássicos citados à “Infância”, “Linhas tortas”, “Viventes das Alagoas”, “Viagem” e “Memórias do Cárcere”, Graciliano despe-se de toda e qualquer ilusão. Como se o futuro do pretérito fosse ao mesmo tempo mantra e benção.

Diante dessa evidência, é possível arriscar que nenhum escritor brasileiro foi tão na contramão do ideário de suas criaturas quanto Graciliano Ramos. Aliás, sem coincidência alguma, ele estava ao par do apelo ideológico vigente na primeira metade do século XX, pródigo nesses extremos morais que conflagraram gênios como Sergei Eisenstein, Richard Strauss, Erza Pound, Knut Hamsun, Langston Hughes, Louis-Ferdinand Céline, Martin Heidegger, Jorge Luis Borges…

 

Antidoc

 

Por não me considerar um documentarista lato senso, “O Universo Graciliano” é exemplar do que intitulo de antidoc, um cinema nitidamente desideologizado, no diapasão da maioria dos meus filmes no gênero “docudrama” (mescla de doc & fic). Diante da atual aidetização audiovisual, que desidrata a menor possibilidade de uma leitura que não consumista do espectador, defendo um cinema (pode parecer contrassenso) que deve mostrar cada vez menos. Nada de levar o espectador pela mão através de imagens e sons anódinos que lhe obscureçam a compreensão moral de homens e seus feitos. Todo o poder à imaginação!

Para roteirizar a vida e obra de Graciliano de imediato veio a pergunta que sempre, confesso, de forma jubilosa, me assola: como realizar um filme com um dos nossos maiores escritores sem recorrer ao discurso predominante em cartaz no cinema nacional de explícito tônus hagiográfico, do filme turístico e “chapa branca”, do filme com recorte chamuscado de parti-pris literário e/ou político-ideológico.

O repto era avançar no contrafluxo, produzir um cinema que exija do espectador, que lhe desperte a percepção e a argúcia. Ao longo de quase sessenta anos, desde sua morte, a figura do escritor Graciliano Ramos foi sendo mitificada evitando-se, assim, que fosse desvelado o martírio que enfrentou para não sucumbir à censura política e literária de seus pares do Partido Comunista Brasileiro, o famoso “Partidão”. Curiosamente, ao qual se dedicava como inocente ovelha de um rebanho cujo pastor ele sabia ventríloquo das comandas do execrável “realismo socialista” fundado e difundido pela URSS. De um lado, como militante “ilustre”, reverenciado e incensado, de outro, demonizado porque sua obra não seria “revolucionária”. Era preciso sacar do limbo da história recente da literatura brasileira o tormento desse inigualável demiurgo sempre ao revés de diktats que tentassem macular seu estro.

Daí ressurgir em “O Universo Graciliano” um Graciliano literalmente como se de hologramas sobrepostos fosse constituído, portanto, inapreensível em carne, osso e consciência. Um Graciliano até então lembrado com subterfúgios, meias palavras, com ressalvas de críticos e historiadores fisiológicos tentando ideologizar seus romances, contos, diários e artigos de imprensa, para mostrar que nunca fora “inimigo” de suas próprias convicções. Mas, apesar de tudo e de todos, a obra acabou se impondo com tamanha grandeza, consistência e modernidade que a transfiguração moral de seus impasses literários e ideológicos é a medida da estatura do gênio.

 

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