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Por Claudina Ramirez *

 

 

Um estudo de caso sobre a idéia e o roteiro do longa metragem A Matriarca.
“Constelação Familiar” é um termo cunhado pelo alemão Bert Hellinger que, após passar 15 anos na tribo dos Zulus, bebe na fonte do Psicodrama de Moreno e de vários outros Psicoterapeutas da época do pós-guerra, criou esta nova forma de olhar para os Sistemas Familiares.
Depois de atender muitas famílias ele percebeu que há três leis que se não forem observadas haverá distúrbios, doenças e disfunções na geração que as vivenciou e nas próximas gerações que, consciente ou inconscientemente, farão de tudo para poder recuperar a saúde do Sistema. Esse “tudo” tem a ver com repetir as histórias até que elas sejam vistas e solucionadas.
Ele as denominou como “As Leis do Amor”.
A primeira tem a ver com pertencimento: “Todos precisam pertencer ao sistema”. A
segunda é preciso haver “Equilíbrio entre o dar e o receber”. E a terceira diz que ” A ordem de chegada no sistema precisa ser respeitada”.
No filme “A Matriarca” pode ser observado o não cumprimento das três leis e o caminho dos descendentes buscando o retorno do caminho da família. Sim, esse é um dos pontos mais importantes da filosofia de Hellinger: O amor é o fio condutor das repetições. A busca pela evolução é sempre o pano de fundo do que se vive dentro do sistema. Os integrantes mais novos sempre tentam recuperar as disfunções e trazer uma visão ampliada daquilo que os mais velhos não conseguiram perceber. Nesta lógica é muito bonito ver o neto Mariano dialogando com espírito da avó e dos seres do mundo espiritual que poeticamente se fazem presentes na narrativa.
A história se inicia na reunião dos filhos e dos netos no aniversário da matriarca, que se transforma no seu enterro pois a passagem dela se dá no mesmo dia do seu nascimento. Bert Hellinger também nos alertou para o que ele chamou de “síndrome do aniversário” dia que tem uma potência de energia no qual podem acontecer mortes ou nascimentos que marcam aberturas e fechamentos de ciclos.

O encontro dos filhos e netos nesta data, dia de Santa Bárbara e Yansã nestas terras, vai aos poucos revelando várias lógicas estranhas que teceram as relações do passado que serão desvendadas durante a transição de festa para funeral.
A primeira lei que se revela atuando é a “Lei do Pertencimento”, ela aparece primeiro nas tentativas de não incomodar nos discursos, de não revelar segredos inconvenientes, tudo o que fazemos de forma inconsciente para seguir pertencendo ao grupo que foi nosso veículo de chegada na jornada da vida. Porém, como ninguém pode ficar excluído, no filme a memória do filho gêmeo que faleceu precisa ser mantida e honrada. Por isso, Matita, a matriarca, pessoa na qual a narrativa se inicia, é a filha gêmea remanescente e cresce com a inquietação, a dependência afetiva e até a depressão que alguns desses seres costumam ter para honrar o irmão que não pode ficar na vida. Seu inconsciente honra tanto seu irmão que repete a história tendo também filhos gêmeos e perdendo um deles. Desta forma ela revive a loucura da própria mãe em um nível mais brando como mecanismo muito falado por Hellinger de repetir para tentar resolver.
Outro aspecto importante da Lei do Pertencimento se dá no esclarecimento de uma paternidade que não tinha sido revelada até o momento do encontro familiar. É muito importante para um filho saber quem é o seu pai mesmo estando ele por trás de um segredo desconcertante de incesto. O filho recebe uma grande liberação quando sai debaixo do manto da mentira e pode seguir sua jornada buscando honrar e liberar toda a dor que foi vivida pelos que vieram antes.
O segundo aspecto que podemos ver ilustrado no roteiro tem a ver com o “Equilíbrio entre o dar e o receber”que neste caso se dá em relação ao não cumprimento de uma promessa feita ao mundo espiritual representado por Santa Bárbara. Matita, ainda bebê, sobrevive ao parto difícil, mas a igreja nunca recebe o sino prometido por seu pai para que o milagre acontecesse. Uma grande dádiva é recebida e o bem posto como troca afunda em um barco que o trazia. Este evento transforma a dádiva em maldição e a família segue responsabilizando-se pela promessa feita pelo pai da matriarca como se o destino de todos estivesse atrelado a esta dívida celestial. Inclusive a do irmão mais novo cuja esposa está grávida de gêmeos no momento em que se dá a narrativa.
Bertnos ensina que para estarmos em paz com o sistema precisamos sentir que retribuímos o que recebemos. Quando isso não acontece às almas ficam inquietas e os

relacionamentos se enchem de injustiças e desequilíbrios como observamos nos três casamentos de Matita.
A terceira lei Sistêmica que pode ser observada é sobre “A Ordem de chegada no sistema” o filho Mateus é tratado como mais importante que os outros filhos e que o próprio companheiro da mãe. Isso causa no filho uma soberba e uma arrogância que faz com que ele se considere superior a todos e compreenda a vida do jeito distorcido daqueles que se sentem eternamente vítimas que precisam ser ressarcidas pelos demais, com prazeres, obediência e dinheiro das outras pessoas.
Aqui vale fazer um parêntese e falar um pouco sobre esses familiares que fazem o papel de “maus” na família. Para Bert é preciso não cair na tentação de julgá-los e excluí-los do sistema, pois graças a eles os outros da família desenvolvem forças, habilidades e resiliência. Quando eles cumprem sua missão geralmente descansam da jornada, como neste belo filme.
Por último, para aprofundar um pouco mais o entendimento das Constelações Familiares no filme “A Matriarca” gostaria de falar sobre Alexandra Caymmi, Suíça- brasileira que foi aluna de Bertold ( discípulo de Bert) e incluiu os Arquétipos dos Orixás nas suas Constelações. Desta forma ela nos trouxe a possibilidade de perceber quais informações do inconsciente coletivo que estão se revelando na dinâmicas construídas pelos integrantes da família. Na narrativa do cineasta Lula Oliveira, a presença de Yansã na história nos revela a força da justiça que vai se apresentar. Primeiro ela aparece nas manifestações da natureza, nos raios que iluminam o lugar onde está o tão procurado sino desaparecido. Depois na tempestade que mostra a limpeza que o vento e a chuva sempre fazem daquilo que já precisa ser trocado no ecossistema e que, por último se revelará de forma inesperada no final do enredo.

*Coordenadora na Bahia da Formação Internacional de Constelações Familiares em TSFI, criada por Alexandra Caymmi

2 Comentários...

  1. NEYDE disse:

    Sem palavras!!! O texto é.mágico ! Emocionante.

  2. Liliana Leite disse:

    Encantada com a abordagem e inteireza do conteúdo.

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