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Por Giovanni Soares

 

Não dá para ficar impassível diante de um filme arrebatador.

O documentário “O dia que durou 21 anos”, dirigido por Camilo Tavares, mostra – com documentos secretos, depoimentos esclarecedores, imagens inéditas e áudios norte-americanos oficiais e raros – a participação maquiavélica e decisiva do governo dos Estados Unidos no Golpe de Estado no Brasil em 1964. Tudo foi ardilosamente arquitetado, nos mínimos detalhes, para criar um terror anticomunista no país, derrubar o presidente João Goulart (Jango) e implantar um regime ditatorial, que durou mais de duas décadas sob o comando militar brasileiro.

Mas vamos voltar um pouco na história. Até hoje eu fico me perguntando por que o comunismo (sempre) patinou no Brasil. Em seu livro Avant-garde na Bahia, o escritor Antonio Risério afirma que “O ‘Partidão’ experimentou um breve momento de legalidade em sua história nebulosa, entre 1945 e 1947. É um lugar comum entre historiadores e analistas políticos afirmar que nunca o PCB esteve tão perto do poder quanto em 45. Prestes não topou a parada, correndo da disputa presidencial. Note-se que nessa época, fins de 46, o partido chegou a contar com cerca de 180 mil membros, afora os ‘simpatizantes’ ou ‘companheiros de viagem.’” Ou seja, como avançar com um líder tão frouxo e tímido como Luís Carlos Prestes? Outro balde de água fria na seara comunista foi, sem dúvida, a revelação de Nikita Khruschóv, governante soviético, sobre o seu antecessor Ióssif Stálin, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em julho de 1956. Em Moscou, Nikita fez um discurso revelando torturas, falsidades e execução em massa de revolucionários inocentes por parte de Stálin. Quando tudo isto veio à tona, o baque foi tão grande que os comunistas achavam que era mentira. A decepção e o desencanto, diante do discurso demolidor de Nikita, foram irreparáveis para o comunismo no Brasil. Internamente, no Partido Comunista do Brasileiro, a intriga e a divisão foram incontroláveis.

Aos trancos e barrancos, lutando contra a ilegalidade e a perseguição ao longo da sua história, o comunismo brasileiro chegou aos anos de 1960 sem grandes riscos de tomar o poder no país.

O importante documentário de Camilo Tavares entra justamente aí, quando um acontecimento muda tudo. Diante da Revolução Cubana, ação do grupo liderado por Fidel Castro que derrubou o ditador Fulgêncio Batista, os Estados Unidos resolveram abrir os olhos e planejar uma intervenção nos países latinos americanos para evitar que o movimento revolucionário se alastrasse pelo continente. E o Brasil era estratégico.

O embaixador norte-americano no Rio de Janeiro, Lincoln Gordon, fez o governo John Kennedy crer que o Brasil poderia ser uma “nova Cuba”.

Isso por quê? A renúncia de Jânio Quadros – o presidente trapalhão – e a polêmica posse do vice João Goulart fizeram com que os comunistas se aproximassem ainda mais do novo presidente. O campo brasileiro estava em alvoroço e os grandes centros urbanos fervilhavam. Pronto, estava armado o cenário para uma intervenção reacionária. Nesse clima, os Estados Unidos fizeram do Brasil um Estado protetorado.

Além de muito dinheiro para financiar campanha de governadores, senadores e deputados, o governo dos Estados Unidos, através da CIA, estimulava a articulação de dois institutos que agiram eficientemente, na surdina, para a descensão de João Goulart da presidência: IPES – Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e o IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática. Na verdade, tratava-se de instituições de ação política e publicitária contra o comunismo no país. A iniciativa foi tão ostensiva que a instalação de uma CPI fez com que os institutos fossem extintos em 1963.

John Kennedy foi assassinado e Lyndon Johnson assumiu com a mesma missão de aniquilar o comunismo no Brasil.

O temor era tamanho que, às vésperas do Golpe de 1964, Lyndon Johnson enviou uma força naval para o litoral paulista como garantia, caso os subversivos arregimentassem militantes e houvesse resistência por parte dos brasileiros. Mas não foi preciso tal intervenção, pois a tropa do general Mourão, que havia saído de Belo Horizonte rumo ao Rio de Janeiro para consolidar o golpe, não encontrou a menor reação.

O marechal Humberto Castello Branco assumiu o governo do Brasil, em comum acordo com os Estados Unidos, e, praticamente, três anos depois, passou o poder para o general Costa e Silva. A edição do AI-5, o mais duro golpe na democracia brasileira, intensificou a brutalidade da perseguição, da censura, da cassação e da tortura.

A crueldade foi medonha. Mas a comunidade internacional só tomou conhecimento do que se passava no Brasil em 1969, depois que o embaixador americano Charles Burke Elbrick foi sequestrado pelo MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), uma organização de extrema-esquerda, da qual participavam Fernando Gabeira, Franklin Martins e Cid Benjamin (Cid, inclusive, está preparando um livro sobre a sua tragetória, que será lançado em breve). Em troca do embaixador, foi solicitado o exílio de 15 presos políticos – entre eles, José Dirceu, Vladimir Palmeira, Flávio Tavares (pai do diretor do filme) e Maria Augusta Carneiro, a única mulher do grupo -, que partiram para o México.

O Brasil ainda viria a ser governado por uma junta provisória, por Médici, Geisel e João Figueiredo.

No final do documentário, o general Newton Cruz, ex-chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações) e acusado pela morte do jornalista Alexandre von Baumgarten, diz uma frase reveladora sobre o Golpe de 1964: “Disseram que iriam arrumar a casa, mas ninguém leva 20 anos para arrumar uma casa”. Mais autêntico, impossível.

O que fica claro no filme de Camilo Tavares – com fatos, fotos e, o mais importante, áudios com falas de personalidades políticas do primeiríssimo escalão norte-americano – é a mentira dos golpistas e o temor de que os interesses econômicos dos Estados Unidos pudessem, de alguma forma, ser contrariados.

“O dia que durou 21 anos” é um filme fundamental e necessário. E todo brasileiro deveria assistir, independentemente do que pensa a respeito.

Um Comentário...

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