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Home » Artigos » O humor e irreverência de Setaro

 

 

Estamos tristes, profundamente tristes

 

Por Adalberto Meireles

 

(publicado em A Tarde – 11/7/2014)

 

André Setaro sempre dizia que se começasse a escrever crítica, hoje, não teria condições de manter uma coluna diária, como fez durante décadas, na Tribuna da Bahia, impedido pela falta de qualidade dos filmes. Era a sua forma de constatar a perda do status intelectual do cinema e da crítica cinematográfica, assim como o fizeram Orson Welles e Antonio Moniz Vianna que ele admirava e citava tanto.

Welles, um dos grandes cineastas de todos os tempos, teria dito a Peter Bogdanovich que o cinema morreu em 1962 com “O Homem Que Matou o Facínora”, de John Ford. Moniz Vianna, que Setaro considerava o melhor crítico de cinema do Brasil, cravou o seu último artigo, despedindo-se dos leitores, em agosto de 1973, justamente quando morreu John Ford, seu cineasta favorito.

“O cinema, mesmo o mais comercial, tinha outra envergadura, um nível de produção muito melhor. Atualmente a indústria cultural de Hollywood está entregue a executivos de multinacionais que nada entendem de cinema”, disse Setaro em comentário publicado em “Escritos sobre cinema –Trilogia de um tempo crítico”, coletânea lançada em 2010 que sintetiza o grosso da produção do crítico que completaria, no próximo mês de agosto, 40 anos de exercício ininterrupto dedicado ao pensamento cinematográfico.

A arte de David Griffith, o pai da linguagem cinematográfica. O significado do expressionismo alemão. A escola russa de Eisenstein. O Brasil de Glauber, Khoury, Humberto Mauro. O western, a comédia, o drama intimista e romântico hollywoodiano. Mizoguchi, Ozu e Kurosawa. O neorrealismo italiano, a nouvelle vague de Godard, Truffaut, Chabrol. A antinarrativa de Antonioni. O tempo e a memória de Resnais. Visconti. Fellini. Bergman. Pasolini. Buñuel. E Brigitte Bardot, um mito, uma devoção.

Setaro e Artur Carmel em 1983 Foto: Valber Carvalho

Setaro e Artur Carmel em 1983 Foto: Valber Carvalho

 

André Setaro, nascido no Rio de Janeiro, era um crítico incisivo, um cronista do cotidiano cinematográfico que destilava humor e irreverência nos saborosos escritos em seus blogs e nas redes sociais, que se ampliavam para uma observação contundente e desesperançada da vida cultural de Salvador.

Ele foi o elo entre a geração de Walter da Silveira – outro grande nome do cinema baiano, que formou gerações com o Clube de Cinema da Bahia e morreu em 1970 – e os novos críticos, cineastas, estudantes de Comunicação e cinéfilos que agora estão órfãos de suas aulas, de seus comentários e de sua generosidade ao falar, orientar e ensinar como se admira o filme de verdade.

 

Este ano morreu João Carlos Sampaio. Agora André Setaro. Estamos tristes, profundamente tristes.

 

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