Home » Artigos » O imagináro de Juraci Dórea

 

 

por Tuna Espinheira

 

Inspirado no Projeto Terra que completa 30 anos de execução pelo artista plástico Juraci Dórea, o documentário revisita os caminhos percorridos pelo artista, registra o que ainda existe, recupera o que for possível e coloca novas obras no trajeto entre Feira de Santana, Monte Santo, Canudos, (Raso da Catarina), Jeremoabo e Paulo Afonso. Colhendo depoimentos de pessoas e personagens de cada local ao mesmo tempo em que promove o conhecimento da arte e motiva o surgimento de novos artistas no sertão baiano num filme documentário. A escolha do “leit motiv” do argumento deste documentário, tem como objeto principal o “PROJETO TERRA”, uma criação do artista Juraci Dórea, que mudou o foco da produção e exposição de suas obras, dos centros urbanos e das galerias para o sertão, transformando as paisagens que nos marcam por imagens de seca e miséria, em um “grande museu”. Juraci Dórea nasceu e vive em Feira de Santana, o Portal do Sertão -BA, desde jovem com as coisas, gentes, paisagens, cultura popular, um vasto mundo sertanejo. Optou por recriar, em arte, esta região mítica. O “Projeto Terra” é a sua mais radical interação pelas veredas afora, espalhando suas obras, pinturas, esculturas, painéis nos ermos do Sertão baiano. De Feira de Santana a Monte Santo, Canudos, Jeremoabo e Paulo Afonso, as duas últimas na parte em que juntas formam a Estação Ecológica Raso da Catarina. Esta cruzada artística está às vésperas de completar 30 anos.

No documentário, como estratégia de abordagem, a câmera vai estar como espectador, flagrando um acontecimento cotidiano; em alguns momentos fixa em outros em movimentos de carrinho ou de grua. Esta estética documental vai exigir um esforço da equipe de fotografia e som direto. Vamos privilegiar o naturalismo combinado com a dramaticidade.  As vezes vamos surpreender o alvo, colocando a fotografia e som na condição de participante e testemunha, interagindo com o “olhar” e o “ouvir”, onde for possível este tipo de linguagem narrativa. Procurar nas cenas de entrevistas (ou pequenos depoimentos), no sentido de captar o áudio para conversações naturais, na leveza do bate-papo, sem o peso das indagações de pesquisa. Assim vamos ouvir os viventes daquelas paragens, com os seus pensamentos livres e as interferências do artista e suas obras. Em resumo: um documentário/interação que vai dialogar com a arte e as veredas do Sertão em 52 minutos. O mapa que traçamos, com uma equipe de profissionais,  capta sons e imagens com equipamentos de ultima geração de excelente desempenho e qualidade. Nesse período, ainda vamos ter a participação efetiva de pessoas da comunidade na equipe de produção. Integrando um grupo interessado em aprender as técnicas utilizadas pelo artista ou ainda interessado, apenas, pela preservação das obras. Dessa forma contribuimos para o desenvolvimento da região e aperfeiçoamos artistas em cada local. A capacitação é particularmente importante para os que têm um contato direto com os turistas e visitantes dessas veredas; poderão criar e desenvolver lembranças e artesanato, mas sobretudo, desenvolverão ações específicas para informação, qualificação, formação e sensibilização dos diversos segmentos dessas comunidades, respeitando os interesses e as funções a serem desempenhadas por cada um. Aspectos qualitativos especiais, incluindo a habilidade de explicar a arte do Sertão, falar sobre o seu lugar; apreciar e interpretar a singularidade da área – sua paisagem, flora e fauna, a diversidade étnica, atividades culturais, artesanato local, assim como o entendimento do sentido do lugar por meio da familiaridade com as histórias, os ritos e mitos tradicionais e a geografia local.
Usualmente, a denominação de “sertão nordestino” é dada às regiões interioranas, independentemente do nível de desenvolvimento social ou econômico. Porém, a expressão também pode ser usada para designar, mais especificamente, as regiões do interior da Bahia, Pernambuco e Piauí, onde se concentram algumas das cidades com maiores índices de desigualdade social do país. Nosso projeto vai ser desenvolvido no Sertão baiano, em
especial nos municípios de Feira de Santana, Monte Santo, Canudos Jeremoabo e Paulo Afonso. Nossa estratégia inicial é mapear a região, com particular interesse, detalhando cada canto onde o artista plástico Juraci Dórea plantou suas obras de arte. Ao mesmo tempo vamos identificar e selecionar pessoas e personagens, lugares e locais que receberão nova obras, cenários e coisas que possam compor o documentário ao longo da caminhada. As ações são constituídas de história e estrutura narrativa em eventos reais, onde os participantes e os assuntos representam a si próprios. Queremos sentir a emoção e vislumbrar a vida através do ponto de vista do sertanejo e sua arte. E as técnicas e tecnologias são nossas ferramentas que tornarão possível contar essa história, e despertar, a partir de sons e imagens, respostas emocionais. Num segundo momento, nossa etapa de produção e filmagem, vamos revisitar, o Sertão Veredas.

O projeto “O IMAGINÁRIO DE JURACI DÓREA NO SERTÃO – VEREDAS” vai interagir com o sertanejo e sua cultura, despertar novos artistas e introduzir técnica por meio do próprio artista para transformar couros e
paus do sertão em arte e meio de vida – numa visão econômica, desenvolver ferramentas de  sustentabilidade.
A partir da nossa etapa de finalização, divulgação e exibição,  vamos dar à comunidade sertaneja elementos de
elevação da sua autoestima. Pretendemos exibir o documentário em cada município que filmamos. De forma pública e gratuita. Além de distribuir para entidades culturais e educacionais, bibliotecas e cineclubes da região alvo do projeto, além da Cinemateca Brasileira entre outras.

doria

 

5 Comentários...

  1. karla disse:

    obras do juraci adoroooooooooooo parabens pela obra juraci sao linda

  2. Josias Pires disse:

    Sobre a impermanência da memória

    No começo do filme, alguns moradores do povoado de Acaru, distrito de Monte Santo, travam uma discussão acerca do lugar exato da velha casa da fazenda que – soube depois pelo próprio Juraci Dórea – ficava (provavelmente) na rota das tropas do Exército que se deslocaram de Monte Santo em direção a Canudos no final do século XIX.

    É uma sequencia desconcertante do filme pois evidencia, de modo cômico, as armadilhas da memória. As dificuldades da memória em fornecer referencias precisas sobre fatos e objetos do passado. As dúvidas daqueles roceiros acerca do exato local da antiga casa que ali existiu funcionam como uma espécie de contraponto ao restante do documentário, que reitera o fato da obra artística de Juraci Dórea inscrever-se fortemente no campo da memória.

    O próprio artista-personagem do filme diz buscar no sertão mais recuado referencias culturais que foram perdidas na sua cidade natal, a quase metrópole Feira de Santana. Nesta busca, a sua pintura fixa em suportes variados – couro, madeira, tela – elementos típicos do mundo sertanejo. Naturalmente aquele é um mundo que também se transforma. Mas o que interessa ao artista não é documentar ou refletir sobre tais processos de transformação. A sua intenção, poderíamos dizer, é escapar da fragilidade da memória e, para além das mudanças, fixar nos quadros as histórias do sertão por meio de elementos característicos lançando mão de uma forma que dialoga fortemente com imagens de xilogravuras.

    Contudo, talvez ainda mais importante do que fixar aqueles elementos em quadros pintados, merece destaque outro dado inovador – e profundamente generoso – da obra deste artista: expor as pinturas nas feiras e mercados das cidades da região, fazendo interagir as telas diretamente com os roceiros e vaqueiros. Neste gesto inovador, Juraci Dórea recusa os museus e galerias das grandes cidades e propõe criar museus a céu aberto nas cidades das caatingas. Ao mesmo tempo tudo isto é meticulosamente fotografado e as imagens daqueles encontros são levadas para os museus e galerias das metrópoles. Neste registro a obra vai além das pinturas, pois os próprios homens e mulheres sertanejos – com suas indumentárias, gestos, etc – tornam-se referenciais. O registro fixa a memória. A memória permanece pelo registro e não apenas como lembranças humanas fugazes.

    Lembranças fugazes como aquelas registradas pela câmera super-8 do fotógrafo Robinson Roberto que acompanhou Dórea numa das suas viagens pelos sertões, exatamente para o povoado do Acaru, onde foi levantada uma das esculturas abstratas de couro e madeira – figuras fantásticas que dialogam com as paisagens sertanejas. Nesta viagem Robinson Roberto gravou a fala de uma personagem quase lendária, a Edwirges, de Monte Santo – figurante do filme Deus e Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Edwirges lembra confusamente nomes de atores e atrizes que teriam atuado no filme, em mais uma demonstração de como a memória é imprecisa, ainda que impressionante, apaixonante, desconcertante.

    Mas Juraci Dórea vai além da imprecisão da memória. Saindo dos quadros para as instalações, embrenha-se nos sertões para levantar as esculturas abstratas de couro e madeira em locais inóspitos. Como afirma o poeta Antonio Brasileiro, com estas obras Dórea institui uma nova visualidade sertaneja. Rompendo de modo radical com o imaginário e/ou figuração típica do sertão, as esculturas impactam fortemente a imaginação do homem rural e, registradas pelas fotografias do próprio artista, chamam a atenção do mundo ilustrado das artes, das bienais internacionais e da crítica bem informada.

    Como a comprovar a impermanência da memória, a fugacidade de todas as coisas, as esculturas de couro e madeira constituem obras efêmeras, que são reconstruídas e, por fim, destruídas pelo tempo. O tempo que apaga e reconstrói as memórias, remodelam e transformam tudo o que existe.

    Tuna Espinheira trouxe do sertão da Bahia uma jóia rara: o imaginário de Juraci Dórea. Parabéns, mestre!

  3. Leny Rose disse:

    Um projeto desses já faz falta antes de ser feito, somando-se a genialidade do artista e a sensibilidade da equipe, é muito do quê precisamos. Parabéns e estamos torcendo pela equipe!

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